Crítica: Fauna


 
Foto: Bruno Mello

Foto: Bruno Mello

Por Renato Mello

Um dos nomes mais representativos da cultura contemporânea argentina em expressões artísticas tão diversas como a literatura, o cinema e o teatro, Romina Paula recebe no Rio de Janeiro uma destacada montagem cênica, com direção de Erika Mader e Marcelo Grabowsky.

Escrito originalmente em 2013, “Fauna”, cumpre temporada até o dia 16 de julho no CCJF.

Segundo aponta sua própria sinopse, conta a história “de um cineasta(Eduardo Moscovis) e uma atriz(Erika Mader) que vão ao campo pesquisar o mito de Fauna, uma espécie de amazona, culta e selvagem, para fazer um filme de ficção sobre ela. Lá, recebem a ajuda de Maria Luísa(Kelzy Ecard) e Santos(Erom Cordeiro), filhos de Fauna, que se encarregam de apresentá-los à figura de sua mãe. Os quatro personagens ensaiam para o filme e discutem a importância, ou não, da representação desta realidade. À medida que o tempo passa, os personagens vão se revelando, como se a exposição à ficção, em vez de protegê-los, os expusesse ainda mais”.

A dramaturgia de Romina Paula cria uma delicada narrativa para questionar temas complexos acerca da condição feminina na sociedade, em que arte e vida se alimentam mutuamente, escavando diversas camadas que se movimentam por caminhos surpreendentes, como já fica exposto desde os primeiros movimentos quando a personagem de Erika Mader recita um poema de Rilke e a intervenção de Maria Luísa(Kelzy Ecard) faz-nos compreender as diferentes miradas existentes dentro de um mesmo quadro. Assim como as linguagens artísticas se complementam, com uma influência do cinema(não me refiro aqui especificamente a metalinguagem contida na narrativa) que age como uma chave reflexiva na formação da geração teatral da própria autora. O texto de Romina transpõe ao palco toda a carga da atmosfera platina, remetendo-nos plenamente para um dos mais fascinantes ambientes da cultura ocidental, como é o caso da literatura argentina.

Os diretores Erika Mader e Marcelo Grabowsky realizam uma interessante distribuição cênica, como que confrontando 4 personagens que caminham por trilhas cinzentas em busca das essências de suas visões de mundo, para conjuntamente construírem uma obra artística que imiscui por dentro da obra maior, inserindo harmoniosamente a metalinguagem. Encontram os diretores boas soluções cênicas para a implementação dos conflitos e assim fazem girar com naturalidade a roda dramática.

Mesmo dentro da heterogeneidade dos personagens vividos pelo elenco composto por Eduardo Moscovis, Erika Mader, Kelzy Ecard e Erom Cordeiro, os atores alçam um interessante delineamento cênico sobre a incapacidade que os aflige, em que a vida se revela uma utopia maior, que nem mesmo o teatro revela-se capaz de atingir. Os 4 atores atuam numa boa sintonia de suas modulações, com um destaque adicional para Kelzy Ecard e Erom Cordeiro que aprofundam com maior ênfase a raiz de seus personagens por caminhos mais largos pelo modo como expressam suas motivações.

Os figurinos de Antônio Guedes, mais além da beleza estética e qualidade, são um elemento revelador na maneira como situa o espectador dentro dos contextos social e geográfico. O cenário de Fernando Mello da Costa também atinge com êxito essa implementação, além de contribuir para a dinâmica cênica da direção conduzida por Erika Mader e Marcelo Grabowsky.

A iluminação de Renato Machado desenha toda a ambientação de maneira que gradua os impactos dramatúrgicos.

Não tenho convicção para afirmar que se trata da primeira montagem de um texto teatral de Romina Paula no Brasil, creio que sim, mas fico feliz que essa autora chegue em nossa cidade envolta por um espetáculo de bastante qualidade.

Foto: Bruno Mello

Foto: Bruno Mello

FICHA TÉCNICA
Elenco: Eduardo Moscovis, Erika Mader, Erom Cordeiro e Kelzy Ecard

Texto: Romina Paula
Tradução: Hugo Mader

Direção: Erika Mader e Marcelo Grabowsky

Assistência de Direção: Luciana Novak
Luz: Renato Machado
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurino: Antônio Guedes
Direção de Movimento: Toni Rodrigues
Direção Musical: Marcello H.
Programação Visual: Luiza Chamma
Fotografia: Bruno Machado (estúdio) e Bruno Mello (de cena)
Direção de Produção: Erika Mader
Produção Executiva: Marcela Büll
Assistente de Produção: Ramon Alcântara
Administração Financeira: Alan Isidio
Diretor de Palco: Tarso Gentil
Contrarregra: Adanilo Reis
Operador de Som: Leandro Bacellar
Operador de Luz: Ramon Alcântara
Assistente de Figurino: Renata Mota
Bilheteria: Waldivia Juncken
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Consultoria: Cristiana Giustino
Realização: Auch Produçõe

SERVIÇO
Temporada de 16 de junho a 16 de julho
Sessão para convidados: dia 15 de junho (quinta), às 19h
Horário: quarta a domingo às 19h
Local: Centro Cultural da Justiça Federal
Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Centro
Telefone: (21) 3261-2550
Lotação: 141 lugares
Duração do espetáculo: 80 minutos
Preço: R$40,00
Classificação indicativa: 14 anos
Bilheteria: de quarta a domingo, das 16h às 19h. Contato: (21) 3261-2565


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