Crítica: Festa de Família


 

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Por Renato Mello.

O Teatro Poeirinha, em Botafogo apresenta em sua programação um dos mais fortes e impactantes espetáculos em cartaz na cidade, “Festa de Família”, às quintas e sextas feiras, com direção de Bruce Gomlevsky. O texto já havia sido encenado com enorme êxito pelo próprio Gomlevsky em 2009, trabalho que lhe rendeu a indicação ao Prêmio Shell. O ineditismo da proposta atual reside na montagem de sua continuação “O Funeral”, encenado no mesmo teatro aos sábados e domingos. Quanto a este último, falaremos nos próximos dias. Hoje vamos nos ater a “Festa de Família.”

Festa de Família” é uma adaptação teatral do filme do dinamarquês Thomas Vinterberg, que foi o marco inicial do movimento Dogma 95. Antes de entrar no campo do teatro, gostaria de fazer algumas considerações cinematográficas. Assisti ao filme na época do seu lançamento em 1998 mas confesso que não recordava detalhes da sua história, tinha apenas uma vaga lembrança das suas linhas gerais. Sei que naquela época gostei bastante do filme, mas nunca voltei a revê-lo. “Festa de Família”, juntamente com “Mifune”(de Soren Kragh-Jacobsen) foram minha únicas exceções no Dogma 95, movimento que eu tinha particular aversão, principalmente a Lars Von Trier(mesmo que me joguem pedra por admitir)

Fechado o parágrafo cinematográfico, voltemos ao teatro. A história se passa numa casa de campo na Dinamarca, quando uma família de origem burguesa e reúne para comemorar o aniversário do patriarca. O que seria uma ocasião de festa acaba se tornando um encontro em que revelações chocantes, traumas e profundas feridas vem à tona para assombrar todos os membros daquela celebração.

Logo ao entrarmos na sala do Poeirinha somos recepcionados por 2 “serviçais”, na verdade os atores Carolina Chalita e Felipe Cabral, que nos orientam sobre onde podemos sentar. Pela disposição física já é possível vislumbrar que tudo vai acontecer de modo atípico ao que nos acostumamos. A ambientação é composta por 4 enormes mesas que se fecham no formado de um retângulo, deixando um espaço central entre elas em que supomos que também ocorrerá a encenação. As cadeiras para o público se localizam atrás das mesas. Também nos é permitido sentar na própria mesa, com exceção dos lugares que existem pratos e talheres dispostos.  A proposta acaba não só por nos aproximar fisicamente, como nos faz sentir personagens integrantes e participativos do banquete, a tal ponto que em determinados momentos acabamos por ter dúvidas sobre quem ali é ator e quem é espectador. O desenvolvimento dos 3 atos decorre nas mesas, entre as mesas e ao redor das mesas. Locais que os atores se locomovem e executam suas ações com uma proximidade por vezes até aterradora.

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Carolina Chalita(Pia) e Bruce Gomlevsky(Christian)

O desenvolvimento dramatúrgico e a criação cênica realizadas por Bruce Gomlevsky é de um vigor extremo. Aliás, se tem um diretor que mais me deixou com um sentimento de profundo impacto nos seus espetáculos neste ano foi justamente Bruce Gomlevsky. Aconteceu em “Blackbird” e agora em “Festa de Família(sem deixar de ressaltar que não vi o elogiadíssimo “Timon de Atenas”). Aproveita cada espaço disponível da sala, com uma dinâmica de movimentação intensa e precisa construção das cenas. É necessário ao espectador um bom grau de concentração para não perder os pequenos detalhes que ocorrem em cada canto da sala, por vezes simultaneamente, com momentos inclusive em que num pequeno espaço físico até 3 ações distintas acontecem ao mesmo tempo. Sabe a força do texto que tem nas mãos e não desperdiça as possibilidades que ele lhe dá, mesmo que usando tonalidades propositalmente dissonantes com a virulência das palavras e da narrativa, o que acaba por impactar ainda mais.

Sua direção de atores é acertada e precisa. Diante de um elenco numeroso, percebe a importância de todo o conjunto e de cada um de seus integrantes para atingir o equilíbrio e a força que a potente dramaturgia lhe exige. Seus atores correspondem perfeitamente a sua expectativa, tirando de cada um deles atuações pungentes.

Começando pelo próprio Bruce Gomlevsky. O personagem que interpreta, Christian, o responsável por desencadear o turbilhão que desaba na família. Uma composição sutil. Um homem que oculta dentro de si uma gama avassaladora de dor e que, sem alterar o tom sereno da voz ou uma suave expressão, exterioriza as mais nefastas e hediondas revelações.  A maneira como pronuncia cada palavra deixa-nos mais chocados e ao mesmo tempo confusos sobre o que acabamos de escutar. Uma extraordinária atuação.

Luiza Maldonado(Helene) também me chamou muito atenção. Um personagem ferido, como todos que estão naquela mesa, mas que reage ao seu modo toda aquela podridão que a cerca. Uma atuação visceral e de muita força.  Jaime Leibovitch(Helge), responsável direto pelo fracasso que se tornaram seus filhos em todos os sentidos de suas existências. Mesmo diante das mais sórdidas situações, jamais perde a aura do grande patriarca, por vezes nos remetendo inclusive a alguns personagens do universo rodrigueano. Xuxa Lopes(Else), omissa e por consequência, com sua carga de responsabilidade sobre tudo que desabou sobre aquelas pobres almas que estavam sob sua proteção. Prefere se manter dentro da conveniência. Impressiona a maneira como suas expressões faciais se desfiguram diante dos golpes que sua personagem recebe. Gustavo Damasceno(Michael), falastrão, agressivo, tom de voz sempre elevado, na verdade não passa de uma vítima da sua estrutura e formação familiar. Um interessante contraponto com o personagem de Bruce, apesar de lá no fundo terem mais em comum do que supõe.

O elenco se completa com as igualmente eficientes atuações de Carolina Chalita, João Lucas Romero, Thiago Guerrante, Glauce Guima, Ricardo Ventura, Felipe Cabral, Luiz Felipe Lucas, Soia Viamonte e Silvio Matos.

A tradução, assinada por José Almino, foi feita com muita qualidade e extremamente fiel ao espírito da obra original(conforme pude constatar revendo o filme após o espetáculo). Mais uma vez Maneco Quinderé faz um ótimo trabalho de iluminação, que sofreu adaptações de Elisa Tandeta. Os figurinos de Ticiana Passos adequados a proposta do espetáculo e a ambientação criada, assim como a cenografia de Bel Lobo.

Festa de Família” é sem dúvida um dos melhores espetáculos que assisti em 2014 e que não tenho o menor receio de indica-lo para os mais variados públicos. Realizado com muita competência por um dos melhores diretores do atual teatro brasileiro e com um elenco que esbanja talento da primeira até a última cena.

SERVIÇO
Teatro Poeirinha – R. São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

Festa de Família
Dias e horários: quintas e sextas às 21h.
Ingresso: R$ 40.
Classificação: 18 anos.
Até 19 de dezembro.

FICHA TÉCNICA
Texto: Thomas Vinterberg, Mogens Rukov e Bo. Hansen
Tradução: José Almino
Direção: Bruce Gomlevsky
Direção de produção: Rafael Fleury
Iluminação: Elisa Tandeta e Maneco Quinderé
Cenografia: Bel Lobo e Bruce Gomlevsky
Figurinos: Ticiana Passos
Direção musical: Marcelo Alonso Neves
Trilha original: Marcelo Alonso Neves e Zbigniew Preisner
Visagismo: Marcio Melo
Assistente de direção: Elisa Tandeta
Assistente de cenografia: Marina Piquet
Pianista: Francisco Javier Pons
Camareira: Fernanda Botelho
Contra-regra: Luis Felipe Cardoso
Ilustração: Maurício Grecco
Programação visual: Flávio Pereira
Assessoria de imprensa: João Pontes e Stella Stephany
Fotografia: Tatiana Farache
Coordenação de projeto: Rafael Fleury
Uma produção BG artEntretenimento


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