Crítica: Freud & Mahler


 
Foto: Thiago Sacramento

Por Renato Mello

Com temporada prorrogada, o espetáculo “Freud & Mahler”, dirigido por Ary Coslov, sob texto de Miriam Halfim, se apresenta no CCJF até o próximo dia 21 de novembro.

Freud & Mahler” demarca cenicamente o encontro ocorrido entre o pai da psicanálise Sigmund Freud e o compositor Gustav Mahler. Alguns pontos entre ambos se intersectam: judeus, vienenses, contemporâneos(4 anos de diferença etária), e acima de tudo, o alcance da projeção de suas respectivas obras. Freud ainda estava distante de ter escrito a parte mais importante do seu trabalho, Mahler já gozava do pleno reconhecimento, tendo dirigido a Ópera de Viena e  o Metropolitan Opera em Nova York, embora ainda não havia apresentado sua Oitava Sinfonia, que ocorreu no derradeiro ano que vivenciou, após o encontro, enquanto Freud conheceu uma maior longevidade.

No verão de 1910, aparentemente de forma acidental, Mahler abre uma carta endereçada para sua esposa Alma, do seu jovem amante Walter Gropius, instando-a a abandonar o marido. A condição imposta pela esposa para não abandonar o lar é o marido se submeter à tratamento prescrito por Freud. Mahler é bastante cético quanto a psicanálise, algo bastante lógico para o contexto da época, um método científico recém-explorado e que apenas começava a encontrar sua ressonância. exposto o argumento para o encontro, Mahler marcou-o 3 vezes com Freud, através de trocas de correspondências, cancelando-os todos, até que Freud lhe clarifica que uma nova desistência significaria o fim da sua oportunidade. O encontro ocorreu, finalmente, naquele mesmo verão, na cidade de Leiden, Holanda. Freud e Mahler realizaram uma longa caminhada pela cidade, conversando por 4 horas, naquilo que posteriormente Freud utilizaria na sua hipótese sobre a eficácia de uma terapia breve. Após ouvir os problemas conjugais e investigar outras questões introspectas do compositor, Freud conclui um diagnóstico que relaciona a diferença de idade do casal Mahler com a atração que Gustav sente pela esposa, procurando nas mulheres o amor que nutre pela mãe. Freud se impressiona com a rápida   compreensão de Mahler pela dinâmica da psicanálise, quando este passa a encontrar respostas no seu inconsciente para a  razão de suas composições não alcançarem o ponto mais elevando nas passagens mais nobres, inspiradas por sentimentos profundos, que a arruinavam pela intromissão de alguma melodia mais trivial.

A estrutura do texto encontra sedimentos sólidos na pesquisa realizada por Miriam Halfim, alinhavando aos aspectos históricos, bons elementos dramatúrgicos e dentro de um arco temporal bem ajustado para a construção do embate entre os personagens, ainda que se perceba alguns resquícios esquemáticos. Apesar do tempo escasso da sessão de psicanálise(embora não classificada propriamente como psicanálise, entendem os psicanalistas atuais, que pode ser mais produtiva que longos tratamentos), há na conclusão narrativa um movimento de solução abrupta para o entendimento de Mahler sobre seu processo mental, carecendo de uma levada mais delicada ao desenlace.

A direção de Ary Coslov é bastante positiva e segura, credibilizando o  conflito e mantendo uma linha de coerência ao longo da representação, mas com algumas opções dissonantes, na direção de atores(que exporei mais abaixo) e em especial à solução do prólogo, cuja leitura das cartas trocadas entre Freud e Mahler, com os atores se intercalando, ainda sem caracterizações ou figurinos completos, apresenta um resultado que retarda a introspecção do espectador ao universo proposto. Porém, a composição de Coslov como um todo, gera uma ambientação que permite a fluência do texto, com um cenário(assinado por Marcos Flacksman) intervindo sutilmente, mas de forma sugestiva, com projeções que contribuem para a dinâmica narrativa, assim como a inclusão dos movimentos de algumas sinfonias de Mahler.

Marcelo Escorel(Gustav Mahler) tem uma atuação sólida, com domínio técnico que encontra tonalidade sóbria e apropriada para a credibilidade do personagem. Alguns aspectos da atuação de Guiseppe Oristânio(Sigmund Freud) soam destoadas, embora opção consciente entre diretor/ator, como a utilização de alguns gracejos, que não coadunam com a circunspeção tanto do personagem, quanto do aprofundamento do drama que o personagem de Escorel lhe dispunha, igualmente o recurso, em passagens rápidas, de quebra da 4ª parede, buscando a cumplicidade do público, mas que na prática pouco acrescenta. São recursos que, embora utilizados com alguma sutileza, prejudicam a convergência para a essência do personagem.

Figurinos de Brunna Napoleão coerentes com aspectos temporais e na composição dos personagens. Desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros consegue acentuar com coerência as alturas dramáticas do espetáculo.

Independente de alguns apontamentos, “Freud & Mahler” é um bom espetáculo, levando ao palco uma aprofundada investigação de um encontro entre 2 personagens fascinantes.

Ficha técnica
Texto: Miriam Halfim
Direção: Ary Coslov
Elenco: Giuseppe Oristanio (Sigmund Freud) e Marcello Escorel (Gustav Mahler)
Cenário: Marcos Flacksman
Vídeos: Thiago Sacramento
Iluminação: Paulo César Medeiros
Figurinos: Brunna Napoleão
Preparação Corporal: Marcelo Aquino
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Fotos e Arte Gráfica: Thiago Sacramento
Assistência de Direção: Bernardo Peixoto
Assistência de Produção: Mayara Voltolini
Produção Executiva: Isabel Braga
Produção: Maria Alice Silvério

Serviço
Local: Centro Cultural Justiça Federal
Av. Rio Branco, 241, Centro, Rio de Janeiro.
Informações/Tel.: 21 3261-2550
Temporada (estreia nacional): 10 de outubro a 21 de novembro de 2019. Quintas e sextas-feiras, às 19h.
Ingressos: R$ 40,00 (inteira)
Duração: 70 minutos (previsão)
Classificação etária: 12 anos
Capacidade de público: 139 lugares


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