Crítica: Frida Kahlo, a Deusa Tehuana


 

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Por Renato Mello.

Para minha grata surpresa me deparo em plena 2ª feira com um teatro lotado, algo que ultimamente tem se tornado raro. Ao contrário do que se pode pensar, a assistência não está ali para ver uma estrela da televisão ou um espetáculo badalado pela mídia. Pelo contrário, o que se apresenta no palco do Glaucio Gill, em Copacabana, é o monólogo “Frida Kahlo, a Deusa Tehuana”. Sem nenhum apoio ou qualquer visibilidade na grande imprensa, esse espetáculo graças ao boca a boca passou a gerar grande afluência de público e se tornou uma das maiores sensações teatrais em cartaz na cidade. A temporada estava prevista para se encerrar em dezembro, mas o êxito foi uma justificativa para a sua extensão em janeiro.

Quando menciono “sensação”, estou sendo me referindo a algo superior ao sucesso de público, mas sim a enorme relevância artística dessa montagem. Não se trata de uma mera biografia sobre a vida da pintora mexicana, a escolha dramatúrgica foi a de um recorte da sua vida. O roteiro, escrito pelo diretor Luiz Antônio Rocha e pela atriz Rose Germano, jamais opta pelo caminho fácil e seguro, pelo contrário, a escolha é o risco permanente.

Quem primeiro entra em cena é Dolores Olmedo Patiño, colecionadora de arte e responsável pela difusão das obras tanto de Diego Rivera, quanto de Kahlo, por quem não nutria sentimentos de maiores simpatias devido a disputa pela atenção de Rivera. Rose Germano começa então o processo de se despir de Patiño para começar a penetrar no mundo específico de Frida Kahlo. Essa transformação física se dá de maneira lenta, sem preocupação com o tempo e com imposição do silêncio. A atriz inicia sua imersão com a busca do gestual e dos elementos corporais do personagem, num trabalho de expressão corporal perfeito e fruto de incansável e longo trabalho. Depois começa seu encontro com os adereços, a cinta, o vestuário, para que então possamos perceber o tom de sua voz, seu ritmo, pausas, respiração, pensamento, personalidade e principalmente seu olhar. Mais que alcançar o personagem, Rose Germano atinge a alma de Frida, numa mutação silenciosamente avassaladora e sem jamais perder a delicadeza. Trata-se de uma das mais pungentes, viscerais e impressionantes atuações que tive a oportunidade de assistir neste ano.

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O texto é elemento fundamental para que a atriz pudesse concretizar seu encontro com o personagem. Foi fruto de um enorme esforço de pesquisa de Rose e de Luiz Antônio Rocha, que incluiu visitas da dupla ao México, a casa de Frida e também do museu criado por Patiño, além de leitura não somente de biografias, mas no seu diário e também em receitas médicas. As dores do corpo e d’alma, o tabagismo, alcoolismo, angústia, amor, desprezo, todos esses elementos se encontram presentes dentro de si e colocados em cena com muita força e verdade.

Impressiona o ritmo impresso pela direção de Luiz Antônio Rocha. Não há preocupações com o silêncio ou com o preenchimento das lacunas. Deixa-nos espaço para a reflexão ou a contemplação, que em tempos tão acelerados tornam-se elementos difíceis de serem colocados em cena, quando as  trocas de figurinos são cada vez mais dinâmicas nos atuais espetáculos teatrais. Tudo é feito com tanta beleza que nossa sensibilidade fica à flor da pele. Mergulhados no profundo silêncio conseguimos inclusive perceber o ritmo de nossa respiração. Alguém mais desacostumado a se dar o direito de parar e apreciar o belo, pode considerar extremamente tedioso o espetáculo a partir da leitura deste parágrafo. Mas   é justamente o contrário, “Frida Kahlo, a Deusa Tehuana” dá-nos um prazer do primeiro ao último momento.

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É importante destacar o trabalho realizado por Eduardo Albini, responsável pelo figurino, direção de arte e cenário. Cria um atelier, com molduras brancas ao fundo e uma tela, no centro do palco uma mesa e duas cadeiras, ajudam a compor o universo da artista. Os figurinos também fundamentais para a composição final, foram em sua maioria adquirida no México e ajudam ao público a localizar a personalidade de Frida. A iluminação de Aurélio di Simoni também é digna de aplausos, responsável por alguns momentos de enorme beleza, em especial na cena do espelho refletida no teto e principalmente na última cena, que nos dá a angustiante sensação de estarmos efetivamente diante de Frida Kahlo.

Após assistir “Frida Kahlo, a Deusa Tehuana” pude perceber o porquê do êxito que o espetáculo atingiu, pois é impossível não sair do teatro absolutamente tocado pelo trabalho realizado por Luiz Antônio Rocha e Rose Germano. Fica-nos durante dias na nossa mente, dando um desejo de repartir com as pessoas que gostamos sobre os momentos de prazer que nos foi proporcionado.

Para finalizar, gostaria de parabenizar a gestão realizada no Teatro Glaucio Gill, responsável por apresentar alguns dos mais interessantes e ousados projetos teatrais que assisti no ano. Foram propostas arriscadas, apostando nem sempre no convencional, mas extremamente competentes e de qrande qualidade, assim como “Frida Kahlo, a Deusa Tehuana”, que encerra com chave de ouro essa grande temporada do Glaucio Gill.

Frida Kahlo, a Deusa Tehuana
Teatro Glaucio Gill
Sessões: Sábados, domingos e segundas-feiras
unnamedCARNCU2MFicha Técnica
Idealização: Cia Espaço Cênico
Dramaturgia: Luz Antônio Rocha e Rose Germano
Atriz: Rose Germano
Músico: Pedro Silveira e Diego Sili
Figurino e Direção de Arte: Eduardo Albini
Assistente de Figurino: Luna Santos
Pintura de Arte e Cenário: Eduardo Albini
Direção de Movimento: Norberto Presta
Trilha Sonora: Marcio Tinoco
Luz: Aurélio di Simoni
Produção Executiva: Flavia Frias
Direção de Produção: Luiz Antônio Rocha e Rose Germano
Realização: Cia Espaço Cênico

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