Crítica: Galápagos


 

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Por Renato Mello.

Um exemplo do que trabalho coletivo no teatro pode gerar de bom e positivo é o espetáculo “Galápagos”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em temporada que se estenderá até o dia 14 de dezembro.

O início da sentença acima pode até soar um pouco óbvia, pois é sabido que ninguém faz teatro sozinho, mesmo num monólogo autodirigido. Mas em tempos de personalismos e egos individualistas tal máxima pode cair no esquecimento de alguns. Então aparece uma montagem como “Galápagos” para nos mostrar como é agradável assistir um espetáculo em que múltiplas visões e experiências se unem para criar uma interessantíssima experiência teatral.

Galápagos” teve seu ponto de partida nos esboços dos atores Paulo Giannini e Kadu Garcia, que já vem desenvolvendo um trabalho em comum desde 2001, como a própria dupla declarou no release da peça:

Tudo começou com uma pesquisa sobre a dramaturgia de Harold Pinter e Edward Albee, porque nós dois queríamos estar em cena, depois de uma longa parceria em produção. Somos parte dessa geração de atores/produtores que constroem a história produzindo suas próprias ideias. E essa característica fez com que transformássemos Albee e Pinter em inspiração para a criação de um breve argumento. E este nos levou para a pergunta: quem escreverá nossa ideia? Lendo, relendo e assistindo ao ‘Autores Novos’, chegamos à Renata em 2010”.

A referida Renata do texto de Kadu e Paulo é na verdade de Renata Mizrahi, na minha opinião uma das mais importantes, talentosas e sólidas autoras do atual teatro brasileiro. Renata desenvolveu toda a estrutura dramatúrgica do espetáculo, colocando no seu texto alguns aspectos seus que me encantam. Sabe como poucos trabalhar cada palavra a ser dita(e não dita), com o peso certeiro no seu momento correto, sabendo o alcance e o tom que elas podem e devem atingir. Para completar a cadeia desse processo, entrou a diretora Isabel Cavalcanti, para os arremates e para dar vida a tudo que foi pensado e escrito por Paulo, Kadu e Renata.

“No meio desse processo, o sim da Bebel(Isabel Cavalcanti), atriz e diretora que admiramos tanto na cena quanto na criação dela”.

O resultado final, com a junção de tão férteis artistas não poderia ser outro que um ótimo espetáculo teatral.

Dois homens se encontram sucessivamente num mesmo ambiente, aparentemente um bar. Mais ninguém além deles. O que os uni e os prende ali? É a questão que fazemo-nos ao longo da peça. Uma boa cantora? O amor à música? Apesar do sentimento de rejeição de um e do visível incômodo do outro, eles permanecem irremediavelmente presos naquele lugar e retornam sempre. Tão diferentes, origens sociais distintas, personalidades invariavelmente antagônicas. Carlos(Giannini), um artista plástico de renome internacional e Vander(Garcia), funcionário de uma multinacional.

São desses encontros, dessas 2 almas que ao longo dos 70 minutos do espetáculo, vamos rir, nos sentir tocados e nos surpreender por suas verdades, suas aparências e suas ocultas essências que vão nos sendo desvendados no transcorrer da narrativa. Renata Mizrahi consegue com elementos simples e com um texto maravilhoso criar uma estrutura absolutamente envolvente que deixa o espectador permanentemente inquieto, tentando decifrar quem são verdadeiramente Carlos e Vander, nos deixando ansiosos por encontrar as respostas.

Para o êxito da proposta teatral, Renata Mizrahi teve em Paulo Giannini e Kadu Garcia dois atores com a sensibilidade perceber quão danosa pode ser uma palavra dita fora de hora, do contexto ou na tonalidade inadequada. São dois atores que com uma grande personalidade em cena, prendem a atenção do espectador. Kadu com seu personagem extrovertido, aparentemente alegre, aquilo que convencionalmente chamamos pelas costas de “o mala”. Já Paulo trabalha com a sutiliza(mesmo que rude) do seu personagem, com seu temperamento “azedo” e monossilábico, é possível se identificar plenamente. Afinal, quem nunca quis estar num lugar sozinho com seus pensamentos e de repente aparece um chato querendo puxar assunto?

A direção de Isabel Cavalcanti é de uma enorme competência. Sabe tirar todo o proveito dos altos e baixos dos registros dos personagens e trabalha com poucos elementos “distracionistas”, colocando o foco na força do texto e na qualidade dos seus atores. A direção de Isabel é o 4º elemento fundamental para a perfeita sustentação da linha estrutural de “Galápagos”. A movimentação dos atores sobre a cena é muito bem desenhada, ajudando a ressaltar suas personalidades, que como 2 pêndulos, ameaçam evoluir, mas resistem e acabam retornando aos seus gestos iniciais.

Em relação a escolha do título, é possível ser analisado no aspecto tanto subjetivo quanto objetivo. Segundo Kadu Garcia, a referência à ilha tem relação com as pequenas modificações feitas pelas espécies para sobreviver naquele ambiente distinto. Já quanto o aspecto mais objetivo do título, opto por não me pronunciar, por motivos que quem assistir ao espetáculo entenderá.

Na parte técnica é importante destacar a trilha que dá um clima absolutamente delicioso à peça, com uma escolha que vai de “Babalu” até uma versão em francês de “Garçom”. Uma perfeita cenografia de Aurora dos Campos, com uma imensa mesa de bar ao centro, ressaltada por elementos da iluminação, assinada por Renato Machado, que ajuda em parte na elaboração cenográfica. O figurino de Bruno Perlatto, propositalmente, não nos permite de início ajudar na nossa busca de descobrir quem são os personagens, fazendo um trabalho adequado dentro da proposta da peça.

Quando grandes artistas abrem mão de suas individualidades em prol da inquietude e da beleza que um espetáculo teatral pode proporcionar, o público só tem a brindar  por esses momentos de prazer.

FICHA TÉCNICA
Direção – Isabel Cavalcanti
Texto – Renata Mizrahi
Elenco – Paulo Giannini e Kadu Garcia
Cenografia – Aurora dos Campos
Iluminação – Renato Machado
Figurino – Bruno Perlatto
Trilha Original– Felipe Storino
Design Gráfico – Roberta de Freitas
Fotografia – Dalton Valério e Débora Setenta
Assistente de direção – Renata Mizrahi
Assistente de Cenografia – Ana Machado
Consultoria de movimento para o personagem Carlos – Moira Braga
Produção Executiva – Thamires Trianon
Direção de Produção – Paulo Giannini e Kadu Garcia
Realização – Saravá Cacilda Projetos Culturais

Direção de Produção – Criada pelos sócios Kadu Garcia e Paulo Giannini, atores/produtores que trabalham em parceria desde 2001, a Saravá Cacilda Projetos Culturais tem como objetivo dar continuidade a esta sociedade desenvolvendo e realizando projetos de qualidade artística e comprometidos com a formação de plateias.

SERVIÇO: GALÁPAGOS
Local: Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB – Teatro III – Rua Primeiro de Março,66 – Centro
Temporada: de 13 de novembro a 14 de dezembro
Horários: quarta a domingo, 19h30
Ingressos: R$10 (inteira) e R$5 (meia-entrada)
Sessões com intérprete de libras: dias 19, 23, 26 e 30 de novembro; 3, 7, 10 e 14 de dezembro.
Horário de funcionamento bilheteria CCBB: de quarta a segunda, das 9h às 21h.
Classificação: 14 anos
Informações: 21 3808 2020 e www.bb.com.br/cultura
Duração do espetáculo: 70 minutos
Assessoria de Imprensa CCBB Rio
Bianca Mello – biancamello@bb.com.br


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