Crítica: Getúlio 1930 – 1945, do governo provisório à ditadura do Estado Novo


 

Depois de mais de um ano de ansiosa espera, finalmente saiu o 2º volume da longa e hercúlea empreitada que o jornalista Lira Neto se propôs ao se debruçar sobre a vida do mais enigmático e mais controverso de todos os presidentes da história brasileira, Getúlio Vargas.

 Neste 2º volume, “Getúlio 1930 – 1945, do governo provisório à ditadura do Estado Novo”, lançado pela Companhia das Letras, lança seu foco sobre o período mais estudado e conhecido da vida de Getúlio, começando a partir do êxito do golpe de estado que derrubou Washington Luís(erroneamente conhecido como Revolução de 30), quando o então governador do Rio Grande do Sul assume o governo e se encerra em 1945, quando é enxotado do poder, após 15 anos na presidência.

Ao contrário do 1º volume(que já falamos AQUI), aonde Lira Neto teve que trabalhar sobre um período mais obscuro da vida de Getúlio, pesquisando sua formação familiar, educacional,  ideológica e política, preenchendo lacunas ainda mal explicadas ou mesmo desconhecidas de sua vida e principalmente, os detalhes de como se organizou o grande movimento que sepultou em definitivo a República Velha e o levou ao Palácio do Catete; neste 2º volume o problema é justo o contrário: como sintetizar em cerca de 500 páginas período tão rico e dinâmico. Aqui encontramos o relato em pormenores do seu período de vida mais conhecido e público, mas isso não quer dizer que tenha sido tarefa mais fácil, pois embora ocorra um vasto material de pesquisa é preciso lembrar que os 15 anos da 1ª passagem de Vargas pelo poder central foi quase toda sua totalidade passada por uma forte censura à imprensa e à liberdade de expressão, com breves momentos de distensão. Portanto, duas das principais fontes de pesquisa, o diário de Vargas e o relato dos jornais ajudam a elucidar o pensamento e o modus operandi apenas do ponto de vista oficial e do biografado. É preciso ter uma visão permanentemente crítica e acima de tudo um sentido arguto e de eterna desconfiança para poder melhor apurar a realidade daquele momento.

Se nos 2 volumes Lira Neto nos ajuda a decifrar a personalidade dessa esfinge que foi Getúlio Vargas, seu real pensamento, sua habilidade política, seu modo de agir permanentemente dúbio e sua sagacidade política em saber prever com antecedência o movimento das peças no tabuleiro político, senti um pouco de falta nesse volume de um maior aprofundamento sobre a máquina repressiva montada no seu governo. Não que Lira Neto seja omisso nesse quesito, ele menciona a forte repressão, a censura, a máquina de propaganda estatal e as torturas no porão, principalmente após a intentona comunista e a instauração do Estado Novo, mas gostaria de um maior aprofundamento de como rodava essa engrenagem nos seu bastidores, como por exemplo fez Elio Gaspari nas  sua série das “Ilusões Armadas” sobre o golpe de 1964. Poderia-se dizer que tal aprofundamento poderia tirar o foco do que realmente interessava ao autor, que era seu biografado, mas acho que ajudar-nos-ia a entender melhor esse período, até porque não existe tão vasto material ao acesso do grande público e depoimentos sobre a repressão da era Vargas como existe da ditadura militar. Nesse aspecto, os 2 grandes relatos que permaneceram para a posteridade até nossos dias provavelmente sejam o brilhante livro de Graciliano Ramos “Memórias do Cárcere” e a biografia “Olga”, de Fernando Morais sobre a companheira de Luís Carlos Prestes, presa e entregue aos nazistas pelo governo Vargas.

No período abraçado por esse volume, o Brasil viveu sua mais profunda transformação em meio a uma turbulência de inúmeras crises políticas. Foi o período em que o país deixou de ser um país meramente agrícola exportador basicamente de café e borracha para começar seu processo de industrialização, principalmente com a siderurgia, quase que uma obsessão de Getúlio, com bem descreve o livro. Assim como é bastante minucioso descrevendo a revolução constitucionalista paulista de 1932, a intentona comunista de 1935, o putsh integralista de 1938 e implantação do Estado Novo.

 Lira Neto manteve nesse 2º volume a honestidade e a coerência que fez na 1ª parte dessa vasta biografia, deixando claro que seu objetivo não era julgar o biografado, mas acima de tudo compreendê-lo, assim como todo o universo que o cercava.

Lógico, que não está livre de críticas, como as que recebeu recentemente de Paulo Henrique Amorim em seu blog “Conversa Afiada”, que considerou “Getúlio 2” com uma “irrefreável inclinação udenista/tucana”. É preciso relativizarmos o que escreve Paulo Henrique Amorim, a quem na minha percepção pessoal reputo como um dos mais escrotos e antiéticos jornalistas da grande imprensa e que nos últimos anos se especializou em ser condenado por danos morais em ações judiciais propostas por colegas de profissão afetados por sua ferina língua. Embora, de maneira menos contundente que PHA, também penso que Lira Neto poderia ter se debruçado mais na questão da engenharia política e diplomática de Getúlio durante a 2ª guerra.

Mas o trabalho de Lira Neto tem grandes qualidades, a principal delas se refere a um tema que tanto já falamos aqui no Botequim Cultural,que é o inestimável serviço que os jornalistas tem prestado(não sem polêmica) de levar ao grande público fatos importantíssimos na história do Brasil, com uma linguagem mais palatável e menos acadêmica. Nesse caso específico, de um ponto de vista neutro, sem o amor ou o rancor que cercam as obras sobre a vida de grandes líderes políticos, seja para o bem, seja para o mal.

Agora resta-nos aguardar o 3º e último volume da biografia de Vargas, que irá de 1945 até 1954 e espero não estar sendo indiscreto e nem estraga prazeres ao revelar que sei qual é o final de nosso “herói”: se suicida no fim.

 


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