Crítica: Getúlio 1945 – 1954, da volta pela consagração popular ao suícidio


 

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Por Renato Mello.

5-estrelas1Com o 3º volume de sua biografia de Getúlio Vargas recém lançada pela Companhia das Letras, Lira Neto põe um ponto final na tarefa que se propôs, retratar a vida do mais controverso e importante presidente da história brasileira. Quando se fecha uma trilogia dessa dimensão, que o Botequim Cultural acompanhou com entusiasmo desde o primeiro volume, é difícil fazer uma análise específica apenas do encerramento. No final das contas, acabamos por fazer um balanço do trabalho como um todo. Sem dúvida o último volume aborda temas e momentos dos mais marcantes da história nacional, mas é necessário contextualizarmos a importância de todos esses 5 anos de trabalho empenhados pelo autor. Ao cotarmos neste post “Getúlio 1945 – 1954, da volta pela consagração popular ao suicídio” como “excelente”, nossa referência vai mais além do que nos é apresentado pelo último volume, é importante levarmos em consideração a relevância da trilogia “Getúlio” em sua totalidade para qualquer estudioso que no futuro queira se debruçar sobre a vida nacional da 1ª metade do século XX.

13458_ggNinguém sintetizou melhor que o próprio autor, nas páginas finais, a linha de trabalho que seguiu para tentarmos compreender o homem por trás do mito:

Amado e odiado com simultânea violência, venerado e satanizado com idêntico ardor, Getúlio segue a dividir opiniões, provocar contendas, gerar reações passionais. Por certo, o melhor caminho para compreendê-lo, em perspectiva histórica, não é o da devoção sincera ou o da negação irrestrita. Em algum ponto equidistante entre uma e outra margem, entre a adoração e o repúdio, deve estar a melhor maneira de se perceber e decifrar o mito”.

Ao final de todo esse trabalho podemos concluir que Lira Neto foi extremamente bem sucedido em seus objetivos. Não é a primeira biografia sobre Getúlio, que já suscitou incontáveis estudos e teses ao longo desses últimos 60 anos. Lira Neto teve o tempo a seu favor, ele ajuda os biógrafos modernos a retratar o biografado sem paixão ou ódio. Basta pensar no nível de acusações e baixarias que suscitaria se alguém, por mais imparcial ou bem intencionado que fosse, resolvesse escrever uma biografia completa de Lula ou Fernando Henrique Cardoso. O fato de Getúlio nunca ter tido uma biografia de perfil mais jornalístico, imparcial e priorizando as fontes primárias sempre inquietou o autor, ao mesmo tempo que assustou outros “candidatos” a projeto de tal envergadura. É sabido nos bastidores do mercado editorial que antes de Lira Neto, dois outros autores recusaram anteriormente o desafio proposto pela editora Companhia das Letras. Um deles, Fernando Morais. Sobre Vargas há uma enchente de edições em qualquer livraria, mas a maioria são estudos de uma época, um aspecto específico de sua trajetória ou meros perfis biográficos. Faltava uma biografia isenta, completa, atualizada e moderna. Algo estranho em se tratando do mais controverso e longevo presidente da conturbada república brasileira. Se bem, basta lembrar, que só recentemente Portugal lançou uma biografia dessa dimensão sobre Salazar.

Um período tratado no 3º volume e pouco explorado anteriormente, que nunca mereceu mais que míseras linhas em qualquer matéria ou reportagem é o seu “exílio” em São Borja, fase que durou entre sua deposição em 1945 até seu retorno triunfal pelas vias eleitorais em 1950. O que talvez seja um erro, pois é ali, fora dos palcos principais e atuando nos bastidores que podemos compreender um pouco melhor o raciocínio de uma velha raposa, de um animal essencialmente político. Certa vez ouvi nos bastidores políticos a seguinte frase, que nunca me esqueci: “nunca diga em política que alguém está morto”. Foi dali que Getúlio partiu para sua “ressurreição” e que tão pouco conhecemos. Recentemente, “por tabela” tive um pouco mais de conhecimento sobre essa fase de São Borja através do belo trabalho de Jorge Ferreira no seu livro “João Goulart, uma biografia”(que foi tratado AQUI). Lira Neto traz a luz um riquíssimo acervo de 1562 páginas de correspondência entre Vargas e sua filha Alzira, a grande maioria relativa a esse período. O diálogo missivo e direto entre pai e filha clarifica as negociações, maquinações políticas e o cotidiano de Vargas no interior gaúcho, em que é possível compreender os movimentos traçados no grande tabuleiro da política nacional. Todo esse rico material se encontra arquivado na Fundação Getúlio Vargas. Graças a ele Lira Neto escreve quase 190 páginas em que entramos um pouco no pensamento do mais temido e adorado político de tempos tão turbulentos.

O tratamento dado ao atentado a Carlos Lacerda é um exemplo típico da honestidade e noção de responsabilidade do autor com a sua história. Lira Neto não se sentiu no direito e na autoridade de expor suas convicções pessoais sem as devidas provas concretas, diante de um episódio que até os dias atuais se encontra envolvido numa enorme nébula. É muito comum nesse tipo de situação o biógrafo e sentir tentado a abraçar uma tese. Ajuda inclusive a repercutir e consequentemente vender mais livros. Como Lira Neto demonstra, várias versões foram apresentadas nesses 60 anos, inclusive por uma das vítimas, Carlos Lacerda, que deu ao longo do tempo versões desencontradas. Lira Neto lembra que Lacerda nunca apresentou sua arma à polícia e o seu próprio prontuário, com os raios X e todos os outros exames médicos sumiram do Hospital Miguel Couto e nunca foram encontrados, ajudando a se manter um certo mistério sobre como se desenrolou o acontecimento histórico na porta do edifício Albervânia na rua Tonelero.

Sobre o episódio derradeiro do governo Vargas, Lira Neto declarou em recente entrevista ao jornal “O Globo”:

“O suicídio não foi uma medida desesperada, nem o gesto de um depressivo. Em situações-limite, Getúlio várias vezes tomou e perspectiva o sacrifício pessoal. Os escritos íntimos dele são como a crônica de uma morte anunciada. Sempre teve a consciência de que não se permitiria passar à história como alguém derrotado em situação vexatória, desonrado”

Daí a importância de analisarmos o trabalho de Lira Neto nos seus 3 volumes, em que temos todos os elementos para compreender que tal gesto não foi de forma alguma impensado ou imprevisível. O fatalismo era um traço de sua personalidade. Se seu suicídio foi recebido com assombro pela população que desceu às ruas para defender seu legado e por consequência, impediu um golpe de estado(adiado por 10 anos), Lira narrou ao longo da sua trajetória autoral com a vida de  Getúlio, uma série de bilhetes, mensagens, e anotações registradas pelo ex-presidente em momentos extremos e capitais de sua vida, tal como no eclodir da Revolução de 30 ou na Revolução constitucionalista de 32. Para um estudioso dos documentos deixados por Getúlio, seu suicídio não foi algo tão improvável.

Mais uma vez Lira Neto não se permitiu elucubrar sobre o momento derradeiro, não caindo na tentação de imaginar os passos de um homem à beira de um ato extremo na solidão de seu aposento. Optou corretamente por:

“…o barulho seco de um tiro ecoou do palácio…”

Lira Neto em recente palestra na Casa do Saber, entre nossos livros autografados

Lira Neto em recente palestra na Casa do Saber, entre nossos livros autografados

Após a leitura de seu livro anterior, o ótimo “Padre Cícero, Poder, Fé e Guerra no Sertão” e ao analisamos aqui no Botequim Cultural o 1º volume da trilogia, escrevemos que “Getúlio” era um degrau que fazia Lira Netoascender a um outro patamar, passando a fazer parte  integrante daquele seleto grupo de jornalistas/escritores em que será obrigatório ficarmos atentos sobre que tema está debruçado naquele momento, como um Fernando Morais, um Ruy Castro“.  Passados 2 anos, ratificamos todas as vírgulas. Lembramos que com o 2º volume, concedemos ano passado o prêmio Botequim Cultural de Melhor Biografia de 2013.  Resta-nos a expectativa sobre qual trabalho Lira Neto vai se debruçar a partir de agora, lógico que depois de merecidas férias.

Réplica da estatueta do Prêmio Botequim Cultural, recebida por Lira Neto.


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