Crítica: Getúlio


 


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2-estrelas2A proposta do diretor João Jardim para o filme “Getúlio” é à princípio interessante. Ao invés de enveredar pelos caminhos daquelas chatíssimas cinebiografias, aonde passa-se uma vida inteira em duas horas com 2 ou 3 atores se revezando no mesmo papel, optou por um recorte dos últimos dias de Getúlio Vargas e de seu governo. O resultado final foi um filme com altos e baixos. Pena! João Jardim tinha um material e tanto para fazer um filme épico.

O filme retrata os bastidores da enorme crise política gerada pelo atentado ao jornalista Carlos Lacerda e que resultou na morte do Major da aeronáutica Rubens Vaz, tudo pelo ponto de vista da intimidade do Palácio do Catete, passando pela investigação e as conspirações para destituir Getúlio Vargas da presidência do Brasil.

Um dos aspectos mais interessantes do filme é sua reconstituição da vida e do cotidiano do interior de um governo que agonizava, com uma direção de arte que conseguiu por momentos fazer o espectador se sentir dentro daquele ambiente aonde se desenrolou alguns dos fatos mais importantes da história da República. Embora em determinados momentos, deu-se a impressão que a fotografia de Walter Carvalho se deslumbrava em excesso com todo aquele cenário, com takes desnecessários e exagerados por trás dos lustres de cristal ou da fachada do velho palácio.

Mas o grande problema do filme está no seu roteiro. Não existe nada pior do que um roteiro que subestima a inteligência do espectador, aonde tem a necessidade de explicar todos os detalhes da trama para que o público saiba cada por menor do que está acontecendo, naquilo que passei há alguns anos a intitular como “roteiro explicativo”. É um tipo de roteiro que Sérgio Rezende virou um especialista aqui no Brasil e pelo visto fez escola, aonde, entre outros recursos, coloca o contexto de determinada situação na boca dos personagens em forma de diálogo, gerando um resultado de artificialismo ímpar. João Jardim foi mais além, chegou ao cúmulo de colocar legendas no meio das cenas identificando o nome dos personagens. Quem não sabe que foi Carlos Lacerda, Afonso Arinos, Tancredo Neves, provavelmente não terá interesse em comprar ingresso para esse tipo de filme, optando por gêneros mais, digamos, leves.

À princípio a escolha de Tony Ramos para personificar “Getúlio” soa um tanto estranha, mas esse é um dos pontos positivos do filme. Com um belíssimo trabalho de maquiagem e expressão corporal do ator, Tony Ramos conseguiu que víssemos em sua figura o ex-presidente, o que muitas vezes costuma ser um problema com a transposição para a tela de figuras tão marcantes. Assim como Alexandre Borges consegue repetir todo o histrionismo tão característico de Carlos Lacerda. Outros destaques a serem mencionados são Drica Moraes como Alzira Vargas, sua filha, secretaria, braço direito e Michel Bercovitch, irreconhecível como Tancredo Neves. Mas algumas escalações parecem equivocadas, como Marcelo Médici como Lutero Vargas, Jackson Antunes como Café Filho e mesmo um ator tão brilhante como Leonardo Medeiros fica um tanto apagado. Para o papel de Gregório Fortunato, um personagem por vezes tão originalmente caricatural, é muito difícil imaginar um outro ator que não Tony Tornado para interpretá-lo, de tão marcante que foi sua atuação na minissérie “Agosto”. Mas o tempo passa e Tony Tornado não tem mais idade para o personagem. A escolha de Thiago Justino se mostrou acertada

O recorte de um momento de tanta intensidade como foi o ocorrido naquele agosto de 1954 poderia ter gerado um belíssimo thriller político no melhor estilo de um Costa-Gavras. Mas o filme de João Jardim se perde num drama existencial sem conseguir atingir a profundidade que poderia. Por vezes lembra uma mera reconstituição no melhor estilo “Linha Direta Justiça” e por outras dá para notar alguns cacoetes de documentarista que João carrega, terreno aonde ele é inegavelmente dos melhores o Brasil.


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