Crítica: Gisberta


 
Luis Lobianco em --Gisberta-- foto © Elisa Mendes - 21

Foto: Elisa Mendes

Por Renato Mello

Explicar a enorme afluência de público que lota suas sessões e a repercussão midiática de “Gisberta” apenas pela espuma da notoriedade de seu ator ou a sua temática forte seria de um reducionismo extremo. Para o bem da arte teatral, seu sucesso se deve à consistência de sua estrutura narrativa, sinceridade da proposta e principalmente, uma brilhante atuação de Luis Lobianco.

Gisberta” se encontra em cartaz na Sala III do CCBB para uma temporada prevista até o dia 30 de abril.

gisberta 1Com direção de Renato Carrera e dramaturgia assinada por Rafael Souza-Ribeiro, concebido no formato de monólogo, aborda a vida de Gisberta, brasileira, vítima de transfobia na cidade do Porto em fevereiro de 2006. Soropositiva, sem-abrigo e transexual que residia há 25 anos em Portugal, estava muito doente quando foi espancada por um grupo de jovens durante vários dias e atirada no poço de um prédio em obras, onde acabou por morrer afogada. Os menores foram condenados por maus tratos a penas entre 11 e 13 meses de internação, pois o Ministério Público português não aceitou a tese de homicídio em virtude da autópsia não ter comprovado que as lesões foram a causa da morte. A decisão motivou críticas extremadas por parte das organizações de defesa dos gays, lésbicas e transexuais de Portugal que consideram se tratar de um crime de ódio com uma pena muito aquém da gravidade da agressão. O legado do drama de Gisberta foi a criação da Lei de Identidade e Gênero, que desde 2011 permite naquele país gisberta correio da manhãa alteração de nome e sexo sem a necessidade de se recorrer a um tribunal, bastando ter 18 anos e apresentar um diagnóstico de perturbação de “identidade de gênero”, apesar de ainda não estender o benefício para imigrantes.

O tratamento dramatúrgico de Rafael Souza-Ribeiro opta por contar sua história com uma linguagem documental. A partir do depoimento de pessoas próximas ao convívio de Gisberta, o espectador traça um retrato de sua vida desde a infância, o despertar da sexualidade, as primeiras experiências profissionais na noite paulistana, a transição para a Europa, o processo de degradação física e psíquica. Rafael Souza-Ribeiro tem bastante êxito na formatação desse painel, utilizando-se da emoção e do extremo humor em doses que despejam uma dicotomia de sentimentos pela ambientação e que encontram no ator Luis Lobianco a força condutora dessa tragédia.

Renato Carrera elabora uma concepção cênica que permite uma plena fluência da narrativa de Rafael Sousa-Ribeiro, com valiosa contribuição da cenografia de Mina Quental, que a iluminação de Renato Machado vai revelando suas nuances ocultas, com os músicos(Lúcio Zandonadi no piano e voz, Danielly Sousa na flauta e voz, e Rafael Bezerra com clarineta e voz) surgindo detrás de painéis de maneira efetiva para a dinâmica imposta pelo diretor. Mas a maior virtude da direção de Renato Carrera é a maneira como conduz Lobianco, se apropriando de forma inteligente de seus predicados e sem pudor em romper alturas, que com um ator de menor capacidade poderia desembocar num desastre. Carrera deu-lhe corda suficiente para subverter-se em cena.

Luis Lobianco apresenta a melhor atuação masculina que presenciei nesse primeiro trimestre da temporada teatral de 2017 na cena carioca.  O ator demonstra um vasto domínio de todas as situações, fragmentando-se em díspares personagens, cada um com verdades explicitadas com força, emoção e humor. Utiliza com rara habilidade todo um repertório corporal e principalmente, total domínio da modulação vocal, graduando e ritmando conforme a linha evolutiva da dramaturgia. Lobianco encanta em díspares situações, seja numa reprodução de seu personagem interpretando canções de Fafá de Belém, Vanusa, Daniela Mercury(em ritmo de fado), Amália(com perfeição na prosódia e mesmo na incompreensão proposital dos versos proferidos). Sua carga vocal e composição corporal, seja interpretando personagens de classe média baixa paulistana ou de um homossexual português transporta verdade muito em razão da forma como Rafael Sousa-Ribeiro organiza o texto, permitindo ao ator sobrepor-se para ganhar voo próprio.

Não tem sido tarefa fácil comprar ingressos para ver “Gisberta”. A procura é grande e há uma fila paralela de pessoas esperançosas pela desistência alheia. Mas esse bom combate é plenamente recompensado por um espetáculo de alto teor artístico, que toca os pontos nevrálgicos dessa tragédia por aspectos que vão do prosaico à contundência, sempre na dosagem adequada.

Ficha técnica
Patrocínio: Banco do Brasil
Atuação: Luis Lobianco
Texto: Rafael Souza-Ribeiro
Direção: Renato Carrera
Direção de Produção: Claudia Marques
Músicos em Cena: Lúcio Zandonadi (piano e voz), Danielly Sousa (flauta e voz), Rafael Bezerra (clarineta e voz)
Pesquisa Dramatúrgica: Luis Lobianco, Renato Carrera e Rafael Souza-Ribeiro
Investigação: Luis Lobianco e Rafael Souza-Ribeiro
Trilha Sonora e músicas compostas: Lúcio Zandonati
Iluminação: Renato Machado
Cenário: Mina Quental
Figurino: Gilda Midani
Preparação Vocal: Simone Mazzer
Direção de Movimento: Marcia Rubin
Programação Visual: Daniel de Jesus
Fotos de divulgação: Elisa Mendes
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Produção: Fabrica de Eventos
Idealização: Luis Lobianco

Serviço
“Gisberta”
com Luis Lobianco
Texto: Rafael Souza-Ribeiro
Direção: Renato Carrera
Direção de Produção: Claudia Marques
Centro Cultural Banco do Brasil  (Teatro III)
Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro

Informações: 21 3808-2020
Temporada: 2 de março a 30 de abril. Quinta a domingo, às 19:30h
Venda na bilheteria de quarta a segunda, das 9h às 21h ou pelo site www.ingressorapido.com.br
Ingresso: 20,00 (inteira) e 10,00 (meia)
Classificação 14 anos
70 minutos
Drama

Atendimento à imprensa
Ney Motta | contemporânea comunicação
assessoria de imprensa
21 98718-1965 e 2539-2873


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