Crítica: Guanabara Canibal


 
Foto: Julio Ricardo

Foto: Julio Ricardo

Por Renato Mello

Depois do tamanho da repercussão alcançada por “Caranguejo Overdrive”, Aquela Cia apresenta seu novo trabalho cercada por expectativas com mais uma investigação sobre as fundações estruturais do Rio de Janeiro, penetrando pelas entranhas de uma história feita a base da brutalidade. “Guanabara Canibal”, em temporada até o dia 15 de outubro no Teatro III do CCBB.

Sob direção de Marco André Nunes e texto de Pedro Kosovski, “Guanabara Canibal”, segundo apontamentos de sua sinopse, “…Guanabara, Maracanã, Ipanema, carioca, além de palavras de origem tupi, o que mais restou de registro da presença dos índios no Rio de Janeiro? Em 1567, a Batalha de Uruçumirim, liderada por Mem de Sá, exterminou as tribos indígenas que ali viviam”.

Além de sua proposta dramatúrgica, que abordarei mais abaixo, apresenta-se paralelamente como uma impactante experiência cênica, com todos os méritos e consequências que isso pode ocasionar. Na antessala recebemos máscaras com a informação que a apresentação se dá sob terra batida, levantando enorme poeira na ambientação. O público é divido ao meio, cada parte senta em lado oposto ao outro. Telas separam a instalação cênica(concebida por Marco André Nunes e Marcelo Marques) do público. As telas criam uma sensação de interferência,  dando uma diferente perspectiva e quase que uma distorção da movimentação física. No meu caso particular, ocorreu um problema: sentei numa cadeira localizada na extremidade, em posição diagonal. Por isso não consegui ler os textos e visualizar adequadamente as imagens projetadas na tela. Pelo mesmo problema de localização diagonal, via o palco numa proporção de 1/3 sem a tela e 2/3 através tela. Resumindo, não tive a mesma experiência cênica e sensorial que os demais espectadores. Fica um lamento por existirem lugares(mesmo que ínfimos) que segregue alguns de aproveitar as mesma percepção do demais espectadores.

Foto: Julio Ricardo

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 “Guanabara Canibal” é aquele tipo de espetáculo que não é apropriado emitir teses ou opiniões sem um espaço entre a experiência vivida e o tempo reflexivo. Senti a necessidade de alguns dias para digerir a profusão emocional que me capacitasse afirmar aspectos que sobrepassem os mais pueris da análise crítica, como “gostei” ou “não gostei”. A forma como Kosovski estabelece um alinhamento de intenções, jorrando pela cena uma concepção visual e física levadas ao limite, demonstram plena capacidade em gerar sentimentos profundos no espectador. Se o espetáculo traz em sua essência uma pretensão, ela se justifica pela qualidade do seu texto e sua implementação em cena, sem a menor hesitação em caminhar por cima do risco ao longo de toda a sua trilha. Mas seu maior problema decorre do excesso de informações que enxameiam alegoricamente, algumas brilhantes e outras enclausuradas em hermetismos, impedindo a abertura de um canal de comunicação mais claro para suas absorções.

Há composições cênicas que surpreendem, deixando ainda mais potente o grito que submerge das linhas narrativas de Kosovski, algumas em que a doçura se reveste por um cinismo atroz, como um menininho com um singelo balão(que me invadia a mesma sensação de uma angústia  suspensa em expectativas de “M, O Vampiro de Dusseldorf”), ou a forma com que uma canção tão bela como “Valsa de uma Cidade” soa desnuda dentro de uma interpretação sarcástica. Assim como a Voz do Brasil ou a locução de uma batalha “épica” do século XVII com o mesmo pendão patriótico, típico dos cinejornais de tempos totalitários mais próximos, nos desperta para o ridículo das nossas epopéias heroicas.

A entrega dos atores ocorre numa intensidade que alcança a altura dramática da concepção de Marco André Nunes, comovendo o despudor de Carolina Virguez, Matheus Macena, Reinaldo Junior, João Lucas Romero e Zaion Salomão, com um poder interpretativo raro, não somente na intenção exposta, mas no extremo uso do trabalho corporal e mesmo pelos não ditos expressos na profundidade do olhar de Carolina Virguez.

A ambientação proposta ganha amplificação na direção musical de Felipe Storino, que preenche um sentimento de inquietação, composto metaforicamente pelas emissões de notas musicais ou andamentos que pesam na ambientação. A iluminação de Renato Machado cria em conjunto com a direção de Marco André Nunes uma dinâmica estética que apropria inteiramente uma sensação turbulenta, complementando esteticamente os elementos necessários ao jogo cênico desenhado. Um dos mais belos e adequados desenhos de luz da temporada teatral.

Guanabara Canibal” é um espetáculo que provavelmente não agradará todos os públicos, mas não permite um legado de indiferença ao seu redor. Forte e pulsante, expõe a violência no processo de formação do Rio de Janeiro, não somente de maneira física, mas pela forma como nos faz sentir integrantes diretos de uma história marcada pelo que de pior o ser humano é capaz de produzir.

Foto: Julio Ricardo

Foto: Julio Ricardo

FICHA TÉCNICA
Direção: Marco André Nunes
Texto: Pedro Kosovski

Atores: Carolina Virguez, Matheus Macena, Reinaldo Junior, João Lucas Romero e Zaion Salomão

Direção Musical: Felipe Storino
Iluminação: Renato Machado
Instalação Cênica: Marco André Nunes e Marcelo Marques
Figurino: Marcelo Marques
Visagismo: Joseff Cheslow
Produção Executiva: Aline Mohamad | MS Arte & Cultura
Produção Geral: Núcleo Corpo Rastreado
Realização: Aquela Cia.


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