Crítica: Heisenberg – A Teoria da Incerteza


 

 

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Por Renato Mello

Apesar de não contarmos mais com o privilégio da presença de uma das mais emblemáticas atrizes de nossa cena teatral, Solange Badim nos legou a idealização e tradução para os palcos cariocas do espetáculo “Heisenberg – A Teoria da Incerteza”, texto do autor inglês Simon Stephens, que se encontra em cartaz até o dia 26 de agosto no Teatro Poeira, sob direção de Guilherme Piva.

O título remete ao princípio identificado pelo físico alemão Werner Heisenberg em 1927 que dispõe da impossibilidade de medir a posição e o momento de duas partículas simultaneamente com precisão absoluta. Simon Stephens recebeu recentemente no Brasil uma eficiente montagem de outro texto de sua autoria, “O Estranho Caso do Cachorro Louco”, com direção de Moacyr Góes.

Heisenberg – A Teoria da Incerteza” estreou originalmente no circuito off-Broadway em 2015, com seus personagens defendidos por Mary-Louise Parker e Denis Arndt, que foi indicado ao Tony por sua performance. A montagem nacional é protagonizada por Bárbara Paz e Everaldo Pontes. O texto trata da improvável relação de uma mulher de 42 anos e um homem de 75  a partir de um encontro numa estação de trem, abordando a necessidade humana de fugir de um círculo solitário diante da multiplicidade de alternativas disponibilizadas pela vida nos momentos mais inesperados, possibilitando a gestão de sentimentos profundos independente das disparidades, desde as mais aparentes até aquelas que encontramos apenas quando permitimos deixar-nos escavar o interior pelo próximo. Não é uma proposta dramatúrgica simples de se desenvolver num texto que tem 80 minutos de duração, dividido por 6 cenas, mas que de maneira sensível o autor constrói progressivamente pontes de sustentação para uma história que aprofunda o choque e amálgama de 2 corpos estranhos, em que o fator idade é apenas um dos elementos de propostas de mundo díspares.

Numa visão mais aparente, o personagem Alex(Everaldo Pontes)  trabalha mais aspectos interiorizados de sua personalidade, enquanto Sol(Bárbara Paz) é mais tangível na superfície, não significando necessariamente que isso o torne mais complexo que ela, que justamente sob sua suposta exteriorização percebe-se uma camada de proteção. Dois indivíduos que no fundo resguardam-se, cada qual com suas armas. Alex ordinariamente comum, em que o efeito do tempo ativa o entusiasmo de Sol. Sua busca por Alex não se relaciona diretamente com um mero jogo de poder, como um joguete em suas mãos. Ela supõe estar sendo o tempo todo julgada pelos silêncios e olhares de Alex, mas defensivamente julga mais. Uma narradora de suas próprias desgraças pessoais, sobre quem as perguntas ficam soltas no ar sobre quem de fato ela é, no que diz a verdade e no que mente. Apesar de sua eloquência, muito de si é um enigma. Ela eleva seu ímpeto para converter a dor passada em um futuro ameno e identifica em Alex o elemento variável de sua complementaridade, um ponto essencial na sua travessia. Sua afeição não é redentora, mas não deixa de simbolizar que o final segue em aberto, até que de fato realmente acabe. Stephens não entrega tudo facilmente, os sentimentos acumulam-se no calor do desejo dos personagens e o anseio sexual os impulsiona além deles mesmos, encontrando na intimidade do outro o alento para os vazios d’alma num terreno psicológico interessante em que os diálogos sustentam a estrutura rítmica.

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A concepção cênica de Guilherme Piva tem a capacidade de pontuar as demarcações propostas por Stephens, extraindo de seus atores sentimentos sem que seja necessário verbaliza-los, nos pequenos não-ditos, na sustentação do olhar e no jogo corporal da dupla Paz e Pontes, sobrenomes representativos da busca de seus próprios personagens. O diretor alcança com êxito as subdivisões dramatúrgicas com poucos elementos e movimentos, expondo os diferentes contextos de tempo e espaço sem intervenções bruscas.  A opção cenográfica de Sergio Marimba contribui com o processo conduzido por Piva, com um despojo que resulta eficientemente, com um enorme banco que adquire diferentes significações e painéis ao fundo, impedindo uma interferência rítmica e possibilitando uma leveza na movimentação pelo ambiente físico, que o desenho de luz de Beto Bruel acentua os clímaces, em especial na construção do momento derradeiro da representação.

A dicotomia presente entre Sol e Alex encontra bastante solidez no processo conjunto de criação dos atores. Bárbara Paz e Everaldo Pontes localizam uma complementaridade que dita a ambivalência pela atmosfera da sala de teatro, mesmo se há por parte Bárbara Paz em alguns momentos uma ligeira acentuação que penderia melhor com uma pequena suavizada, ainda assim atinge pontos de autenticidade de seu personagem pela visceralidade como os seus sentimentos são expostos e penetrando assim zonas emocionais em aberto. Everaldo Pontes busca nas sutilezas o equilíbrio dos pequenos gestos como forma de expor seus elementos internos e dessa forma avivando um personagem que se caracteriza justamente pela ausência de uma maior contundência perante a vida.

Os figurinos de Antonio Rabadan contribuem para o processo de entendimento dos personagens, assim como permitem praticidade nas várias trocas necessárias aos distintos momentos dramatúrgicos.

Heisenberg – A Teoria da Incerteza” é uma ótima oportunidade para nos remetermos à imensa entrega de Solange Badim para o processo de construção teatral em suas diferentes possibilidades.  Além disso, trata-se de um espetáculo potente, com personagens extremamente bem construídos e atuações comovedoras.

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Heisenberg – A Teoria da Incerteza
Temporada: de 13 de julho a 26 de agosto
Local: Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104 – Botafogo – RJ. Tel.: 2537-8053)
Horário: quinta a sábado, às 21h | domingo, às 19h
Ingressos: R$70,00 (inteira) | R$35,00 (meia)
Duração: 80 minutos
Classificação: 16 anos
Gênero: comédia dramática
Horário de funcionamento: terça a sábado, das 15h às 21h | domingo, das 15h às 19h
Vendas online: http://www.tudus.com.br/
Site: www.teatropoeira.com.br

Ficha Técnica
Autor: Simon Stephens
Tradução e adaptação: Solange Badim
Direção: Guilherme Piva
Elenco: Barbara Paz e Everaldo Pontes
Direção de Movimento: Marcia Rubin
Iluminação: Beto Bruel
Cenografia: Sérgio Marimba
Direção Musical: Marcelo H
Figurino: Antonio Rabadan
Programação visual: Cubículo
Assessoria de Imprensa: Daniela Cavalcanti
Coordenação Artística: Valencia Losada
Produção Executiva: Thiago Miyamoto
Assistente de Produção: Eduardo Alves
Direção Geral: Verônica Prates
Produção: Quintal Produções


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