Crítica: Hoje é Dia de Rock


 
Foto: Vitor Dias

Foto: Vitor Dias

Por Renato Mello

Em tempos sombrios por insensibilidades que devastam culturalmente o Rio de Janeiro, uma inspiração soprada dos ventos paranaenses demonstra apreço e reverência à história teatral brasileira. Respeitosa em sua evocação, mas com coragem para “subverter a própria subversão”, louvando a diferença, mas sem desraigar-se dos ditames dos povos das Gerais.

Com 13 atores originários do TCP – Teatro de Comédia do Paraná, numa montagem do Teatro Guaíra e sob direção de Gabriel Villela, eis que “Hoje é Dia de Rock” revive o ápice da celebração teatral acolhendo no mesmo espaço físico o arrebate de outro espaço de tempo, igualmente no Teatro Ipanema que em 1971 instigou multidões de entusiasmos durante os dois anos que por lá ficou em cartaz. Desta vez sua passagem pela casa de Ivan de Albuquerque e Rubens Côrrea será breve, somente até 19 de março.

Escrita por José Vicente, dramaturgo que como poucos retratou a rebeldia e a poesia da contracultura em plenos anos de chumbo, a peça conta a história dos 5 filhos de Pedro Fogueteiro, moradores de uma cidade do interior de Minas Gerais que tentam sobreviver numa capital movida a consumo. Pedro Fogueteiro é um músico sonhador que busca descobrir uma clave musical jamais inventada, enquanto a mãe, Adélia, vê na fuga para a metrópole a chance de uma vida melhor para sua prole. Entre o sonho patriarcal e o realismo matriarcal, a busca pela identidade num momento de transformação de valores e hábitos sociais com o rock invadindo a cultura nacional.

O espetáculo conta com uma trilha sonora que embora com algum ecletismo em gêneros, ainda assim se arraiga de uma temática do pertencimento nas montanhas de Minas Gerais em contraponto com a fascinação do desbravamento rumo ao mar distante, com forte influência das canções do Clube da Esquina, algo do cancioneiro caipira, Villa Lobos, passando mesmo por Mercedes Sosa, até chegar aos músicos norte-americanos responsáveis pela revolução comportamental dos anos 50, como Little Richard ou Elvis Presley, com direção musical de Marco França

Dessa dicotomia entre o arraigar e o desbravar, a direção de Gabriel Villela consegue justamente criar a síntese num sentido mais amplo, sobrepujando a própria história que conta pela maneira como reinventa o espetáculo, dando-lhe um caráter pungente e de alto teor emocional. Isso se dá tanto pela forma como faz as marcações e a criação das cenas, numa abordagem que possibilita um melhor afloramento da sensibilidade para a exploração de um diferente inconsciente narrativo escavado nas entranhas do texto. Contribui para isso toda uma concepção, já característica dos trabalhos de Gabriel Villela, que se amoldam adequadamente nas especificidades desse processo. É equivocado compartimentar um espetáculo de Gabriel Villela, em que se faz necessário enxergar um todo em que os vários elementos se misturam para compor sua hibridez característica. Sendo assim, toda a concepção do visagismo, do figurino e cenografia se somam como afluentes que irão desaguar no grande rio da sua representação, assomando-se ao belo desenho de luz de Wagner Côrrea, que dão um formato para “Hoje é Dia de Rock” que penetra nas sensibilidades dispostas pelo texto de José Vicente.

Necessário destacar os atores do Teatro de Comédia do Paraná, Rosana Stavis, Arthur Faustino, Cesar Mathew, Evandro Santiago, Flávia Imirene, Helena Tezza, Kauê Persona, Luana Godin, Matheus Gonzáles, Nathan Milléo Gualda, Paulo Henrique dos Santos, Pedro Inoue e Rodrigo Ferrarini pela forma como dispõe de forma apropriada dos seus recursos técnicos, encontrando uma mesma linguagem interpretativa, que nas mãos de Gabriel Villela lhes exige algumas especificidades e que em nenhum momento extrapolam a tonalidade dentro da ambientação que o encenador propõe. Mesmo nas mãos de um diretor que tem seu caráter teatral bem definido, o jogo coletivo é praticado ao longo de toda representação, sem espaços para personalismos desnecessários ou sobre tons. Encanta o seu conjunto pela diversidade em diversas técnicas, principalmente a comunicação corporal e a expressividade.

Sob a égide das muradas do Teatro Ipanema, despejando mitos imaginários(ou reais) de José Vicente, o príncipe asteca, a cigana, o seminarista sem vocação ou a filha cega, assim como na busca pelo inatingível, a clave de cinco notas ou o moto-contínuo, “Hoje é Dia de Rock” retorna, mesmo que provisoriamente, para soprar ventos poéticos sem apelar para lirismos meramente nostálgicos, reinventando-se como um bravíssimo espetáculo teatral pelas mãos de Gabriel Villela.

AS MÚSICAS DA PEÇA
As Mocinhas da Cidade (Nhô Belarmino)
Bola de Meia, Bola de Gude (Milton Nascimento e Fernando Brant)
Caçador de Mim (Sergio Magrão & SÁ)
El Condor Pasa (Daniel A. Robles / Jorge Milchberg)
Encontros e Despedidas (Milton Nascimento, Fernando Brant)
Fé Cega, Faca Amolada (Milton Nascimento)
It’s Now Or Never (Elvis Presley)
Let It Be (Lennon & McCartney)
Love Me Tender (Elvis Presley/Vera Matson)
O Trem Azul (Lô Borges; Ronaldo Bastos)
Panis Angelicus (César Franck)
Queremos Deus (Adaptação De Milton Nascimento e Túlio Mourão)
San Vicente (Milton Nascimento, Fernando Brant)
Trenzinho Caipira (Heitor Villa Lobos)
Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira)
Tutti Frutti (Little Richard)
Um Gosto de Sol (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

FICHA TÉCNICA
Texto | JOSÉ VICENTE
Direção, Cenografia e Figurinos | GABRIEL VILLELA

Elenco | Rosana Stavis, Arthur Faustino, Cesar Mathew, Evandro Santiago, Flávia Imirene, Helena Tezza, Kauê Persona, Luana Godin, Matheus Gonzáles, Nathan Milléo Gualda, Paulo Henrique dos Santos, Pedro Inoue, Rodrigo Ferrarini

Diretor Assistente | IVAN ANDRADE
Direção Musical, Arranjos e Preparação Vocal | MARCO FRANÇA
Aderecista e Assistente de Figurinos | JOSÉ ROSA
Iluminação | WAGNER CORRÊA
Fotografia Vitor Dias
Projeto Gráfico | JOSÉ VITOR CIT
Arranjo de Trenzinho Caipira/Desenredo | Ernani Maletta
Produção | Áldice Lopes, Daniel Militão e Diego Bertazzo
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – Joao Pontes e Stella Stephany


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