Crítica: Incêndios


 

Por Renato Mello.

Um dos mais exitosos espetáculos teatrais montados nos últimos anos no Brasil está encerrando uma temporada popular do Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Após longa permanência no Teatro Poeira, seguiu posteriormente para São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Pernambuco e diversas cidades Brasil afora, sempre com enorme repercussão por onde passou.

Escrita pelo dramaturgo libanês Wadji Mouawad, “Incêndios” teve na sua montagem brasileira tudo que se deseja quando um projeto é idealizado: sucesso de crítica, teatros lotados e muitos prêmios.

Em relação aos prêmios, a lista é longa. Inclui o Prêmio Shell de Melhor Diretor(Aderbal Freire-Filho), APTR de Melhor atriz(Marieta Severo), cenografia(Fernando Mello da Costa) e Atriz Coadjuvante(Kelzy Ecard), entre outros tantos, os quais podemos incluir(modestamente) o nosso Prêmio Botequim Cultural, como Melhor Peça Drama/Comédia, Melhor Atriz(Marieta Severo) e Melhor Ator(Isaac Bernat).

Gestado pelo ator Felipe de Carolis, que adquiriu os direitos da peça, traduziu e começou a colocar de pé o espetáculo quando trouxe para o projeto os produtores Maria Siman e Pablo Sanábio, além de Marieta Severo e do diretor Aderbal Freire-Filho. Estava formado o núcleo que faria desse espetáculo o sucesso que se tornou.

A peça faz parte do que ficou denominado como a tetralogia “O Sangue das Promessas”, que inclui os espetáculos “Litoral”, “Incêndios”, “Florestas” e “Céus”, conhecida como uma longa viagem da escuridão ao encontro da luz. As demais peças permanecem inéditas no Brasil, porém “Céus” ganhará em breve uma montagem, graças novamente a Felipe de Carolis, que estava desenvolvendo o projeto com o mesmo grupo que realizou “Incêndios”.

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Confesso que apesar da enorme repercussão e de ter sido premiado por meu próprio blog(num processo de votação direta), imperdoavelmente eu não havia assistido ao espetáculo. Aproveitando da temporada no teatro Carlos Gomes procurei me redimir para não restar-me a frustração de tal pecado. Sim, alguém que ama o teatro não ter assistido a essa montagem de Aderbal Freire-Filho é realmente um verdadeiro e inexplicável pecado, pois trata-se de um espetáculo que se apresenta no mais alto grau das possibilidades que o teatro pode oferecer ao seu público.

Incêndios” aborda em sua linha dramatúrgica o passado misterioso de uma mulher, imigrante de origem libanesa, que em seu testamento faz uma estranha e aparentemente absurda exigência para os seus filhos gêmeos: que seu sepultamento não seja completo até que duas cartas sejam entregues. Uma, para um irmão que os filhos gêmeos desconheciam existir. A segunda para o pai, que eles pensavam estar morto. Em meio a essa questão, o espetáculo vai e volta no tempo abordando a questão da origem através do passado de uma mulher revolucionária durante a guerra civil libanesa.

Não é propriamente uma peça sobre a guerra, embora ela esteja sempre presente, desde o passado até suas consequências atuais. É uma peça sobre as tentativas desesperadas na busca por um consolo tardio, em que se procura manter a humanidade em meio a um contexto insano. A maneira como Mouawad desenvolve a estrutura do texto tem a capacidade de perturbar de tal modo que transcende a questão histórica ou política, atando e desatando os nós que ligam os protagonistas ao filho, numa tragédia com conotações edipianas. Os personagens acabam sendo tragados por questões tão íntimas e profundas que acabam exacerbando sentimentos extremados dimensionando a tragédia e o horror, silenciando seus personagens graças a questões colocadas de modo tão contundente como o amor, a morte ou esquecimento. A base do texto de Mouawad é de uma força tão absoluta, que resulta num espetáculo que pode ser visto de tão distintas camadas, com uma riqueza de ações e tempos que após a apresentação o espectador fica com um sentimento de enorme arrebatamento.

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Aderbal Freire-Filho aproveita cada linha da dramaturgia que tem em mãos para conceber um espetáculo de rara beleza. Apesar da força e densidade do texto, não é tão simples o seu desenvolvimento para um palco. São várias as passagens no tempo, com trocas de ambientações grandes, realizado com enorme unidade, sem quebra de ritmo, com uma movimentação cênica exemplar e sem que alguma das várias pequenas histórias embutidas na grande história seja inferior a outra. O elenco que conduziu possui o tom correto para não resvalar no dramalhão, mas que ao mesmo tempo consegue dar a dimensão da tragédia que está sendo contada.

O elenco formado por Marieta Severo, Felipe de Carolis, Keli Freitas, Marcio Vito, Kelzy Ecard, Flávio Tolezani, Isaac Bernat e Fabianna de Mello e Souza, é uma das mais completas e perfeitas composições que vi nos últimos tempos no teatro brasileiro, atores capazes de transmitir toda a força dramática e com uma verdade rara de se ver no teatro, com nenhum dos seus elementos com um nível inferior a um excelente conceito. São atores experimentados, com múltiplas capacidades, independente de diferenças geracionais. Apenas uma observação: Na sessão em que assisti, Felipe de Carolis foi substituído por Thiago Marinho.

É desnecessário tecer maiores comentários sobre o talento e capacidade de Marieta Severo, já é de conhecimento público. Mas não é possível qualificar sem enormes superlativos a sua atuação. Interpreta o mesmo personagem em diversas idades e em nenhum momento duvidamos do que ela nos apresenta. Nawal, um personagem de construção extremamente complexa, com distintas facetas num mesmo ser.

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Os filho gêmeos são vividos por Keli Freitas e originalmente Felipe de Carolis(como já mencionado, substituído por Thiago Marinho). A atuação de Keli Freitas é milimétrica, perfeita e emocionante. Keli é uma atriz que sua presença em cena é permanentemente notada, mesmo quando se coloca num segundo plano. Nesse 1º semestre Keli Freitas foi, pessoalmente para mim, um enorme destaque no cenário teatral tanto por sua atuação em “Incêndios”, quanto pelo ótimo texto que escreveu para a surpreendente peça “Consertam-se Imóveis”. Thiago Marinho substituindo numa peça de tal nível de complexidade e num dos papeis mais importantes do espetáculo, aquilo que poderia ser a famosa “roubada”. Não tenho ideia do modo como foi preparado para substituir, mas o ator esteve muito bem em cena, sabendo “jogar” permanentemente, seja no conflito ou na cumplicidade com o personagem de Keli Freitas.

Isaac Bernat com a estatueta do Prêmio Botequim Cultural, por "Incêndios".

Isaac Bernat com a estatueta do Prêmio Botequim Cultural, por “Incêndios”.

Isaac Bernat interpreta diversos papeis. Desenvolve distintas personalidades e todas com características muito bem definidas. Assistir Isaac Bernat em cena é praticamente uma aula de interpretação, com tantos recursos que apresenta e o modo como aparenta estar sendo tudo muito simples, quando sabemos que existe ali uma enorme sofisticação na sua técnica. Isaac Bernat transmite um enorme prazer para o espectador em ver como um grande ator que ele é faz de seu ofício uma arte superior.

Marcio Vito interpreta o tabelião amigo e guardião dos desejos post mortem de Nawal. Tem um personagem com a função de criar um fio condutor para o desenvolvimento da história e também por conferir um tom de leveza para um ambiente que em determinados momentos fica sufocante, característica muito bem desempenhada pelo ator.

Kelzy Ecard e Fabianna de Mello e Souza fazem parte do núcleo que se refere basicamente ao passado de Nawal, embora mais adiante Fabianna interpretará outros papeis em momentos distintos da vida da protagonista. O que dizer dessas duas atrizes excepcionais em cena? Além dos papéis principais, “Incêndios” ainda conta com atrizes dessa qualidade. Kelzy interpreta a amiga de Nawal, que a apoiará no momento crucial da sua vida. Fabianna tem seus grandes momentos quando se desdobra entre a avó e a mãe de Nawal, alternando ternura e incompreensão com a mesma força cênica e na composição correta para cada uma delas.

Flavio Tolenzani fecha o elenco com personagens vibrantes e de enorme vitalidade, contribuindo de modo fundamental para os momentos críticos da peça.

O cenário de Fernando Mello da Costa tem papel importante para a atmosfera e ambientação do espetáculo, mesmo que em diferentes planos de ação. São três enormes painéis, com telas de arames, num tom puxado para o alaranjado e que ao mesmo tempo possuem boa funcionalidade para a entrada e saída tanto de personagens, quanto de objetos que moldarão a cena seguinte.  Ao mesmo tempo consegue passar a sensação da opressão e da angústia que toma conta do universo em cena, além de ser bem sucedido em não marcar aspectos espaciais e temporais. Esse cenário acaba adquirindo uma expressividade maior graças também ao excelente trabalho de iluminação de Luiz Paulo Nenen.

Outro aspecto a ser ressaltado é o belo trabalho na criação dos figurinos, por Antonio Medeiros. Com cada personagem perfeitamente identificado com o figurino proposto, no caso de Nawal isso fica ainda mais latente em virtude dos saltos no tempo e nas distintas localizações geográficas do seu personagem.

Incêndios” é uma experiência teatral de enorme impacto e que lamento muito por ter demorado tanto tempo em tê-la assistido. “Incêndios” é acima de tudo TEATRO de verdade, com um texto potente, uma encenação excelente e atuações irretocáveis. Ficará muito tempo na minha memória, espero que para sempre.

Ficha técnica
Texto: Wajdi Mouawad
Tradução: Angela Leite Lopes
Direção: Aderbal Freire-Filho
Diretor assistente: Fernando Philbert
Elenco: Marieta Severo, Felipe de Carolis,
Keli Freitas, Marcio Vito, Kelzy Ecard,
Flávio Tolezani, Isaac Bernat e Fabianna de Mello e Souza.

Luz: Luiz Paulo Nenen
Cenário e objetos: Fernando Mello da Costa
Figurino: Antônio Medeiros
Trilha sonora: Tato Taborda
Direção de movimento: Marcia Rubim

Idealização do projeto: Felipe de Carolis
Produtores: Felipe de Carolis, Maria Siman e Marieta Severo
Produtor associado: Pablo Sanábio
Produtor executivo e administrador: Luciano Marcelo
Direção de produção: Maria Siman
Realização: E_Merge e Primeira Página Produções


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