Crítica: Infância, Tiros e Plumas


 

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Por Renato Mello.

Jô Bilac é um daqueles dramaturgos que chegou no estágio em que nem precisamos saber do que se trata o seu espetáculo. Se é um “novo Jô Bilac”, então é obrigatório e ponto! Cabe a quem acompanha de perto a cena teatral o prazer de assistir, discutir e avaliar, como é o caso agora de “Infância, Tiros e Plumas”, que acaba de estrear no Sesc Ginástico numa temporada que terminará no dia 17 de maio. Com essa nova estreia, Jô Bilac monopoliza atualmente os teatros da Av Graça Aranha, lembrando que seu excelente texto “Conselho de Classe” se encontra em cartaz na outra extremidade da mesma avenida, no Sesi Centro.

O espetáculo conforme sua sinopse oficial, “fala da decadência humana a partir de trajetos que se cruzam, gerando uma série de incidentes envolvendo crianças. Tudo se potencializa no ar, de maneira irreversível, modificando para sempre a vida daquelas pessoas, que em comum, só têm o desejo de vingança e a vontade de terem uma outra vida”.

Infância, tiros e Plumas” tem a direção de Inez Viana e um processo de criação particular, num longo trabalho do autor com a participação direta dos membros da Cia. OmondÉ, concebendo a dramaturgia de modo coletivo a partir da percepção pessoal de Bilac durante os meses de ensaio com os integrantes da Cia. Desses encontros foi-se costurando uma dramaturgia a partir dos elementos da memória afetiva dos próprios atores, mas sem que se transformasse num espetáculo traçado de uma linha biográfica. Como a própria sinopse revela, Jô Bilac cria através do ambiente fechado de um avião uma metáfora do caos e da perversidade interior contidas na alma humana, que num espaço físico bastante delimitado, espelha uma sociedade dividida em castas com personagens se utilizando da truculência(das mais diversas formas) para impor seus interesses, desejos e frustrações. A podridão e o caos afloram e se potencializam na altitude, levando seus personagens ao limite máximo da exasperação. Jô Bilac com enorme sensibilidade vai criando uma sucessão de situações, levando conscientemente seus personagens beirar o patético da condição humana através de uma carpintaria sólida, eloquente e acima de tudo com diálogos mordazes e contundentes, que mesmo no limite da explosão, jamais perde o humor.

São histórias paralelas que se desenvolvem num mesmo plano e que vão interagindo entre si, mas com independência. Tudo enquanto o avião cruza os céus da América rumo à Disney, o lugar em que “os sonhos se tornam realidade”.

Em companhia do filho Júnior(Luis Antonio Fortes), o casal Marín(Débora Lamm) e Henrique(Leonardo Brício), discute os termos da separação. Ela, bipolar e viciada em remédios tarja preta. Ele, um médico bem sucedido que inventou um antidepressivo que cura os traumas de infância e tem um caso com a aeromoça do voo(Juliana Bodini).

Num outro núcleo, Suzaninha(Carolina Pismel), Miss Mirim, mimada e filha de um dos homens mais influentes do país, viaja para um torneio de tiro em companhia do segurança(Iano Salomão), valente e destemido, mas durante o voo demonstra sua fragilidade.

O elenco se completa com os empregados da companhia aérea Pitil(Zé Wendell) e Fernando(Junior Dantas), que utilizam o pequeno Juanito(Jefferson Schroeder), um menino de 4 anos, como mula para transportar drogas.

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No longo trabalho em conjunto de concepção de “Infância, Tiros e Plumas” fica notória uma coesão das atuações, ocorrendo interação permanente dos distintos universos postos num único ambiente. O resultado final é um perfeito domínio das situações propostas, da movimentação e do jogo coletivo. Cada um dos elementos sabe exatamente sua função em cada momento e qual a sua representatividade, mesmo nos momentos em que cada ator se encontra num 2º plano. Mas é necessário tecermos algumas considerações individuais em meio a uma excelente coletividade. Débora Lamm: inegavelmente uma das atrizes mais representativas do nosso teatro. Assistir Débora Lamm representar é um grande prazer. Poucos atores tem um domínio como o Débora no humor, com um timing único e ao mesmo tempo explora muito bem o limite do drama, com um trabalho corporal muito bem feito e com a utilização perfeita da técnica vocal com suas várias nuances, tonalidades e intenções. Junior Dantas chama muito a atenção, principalmente quando trabalha num registro próximo do humor. Carolina Pismel como a mimada Suzaninha também merece um destaque adicional, pelo trabalho corporal e o modo como trabalha o ritmo de sua entonação.

A diretora Inez Viana tem o importante trabalho de costurar em cena as mais diversas situações, com as idas e vindas de cada uma das histórias particulares e transformando tudo num único universo. Intercala as ações de modo competente, sabendo expor a ênfase correta para cada cena, trabalhando num ambiente de enorme diversificação de ações, mas sempre no ritmo adequado e puxando no momento pertinente os personagens que se encontram em posição de retaguarda para a frente de cena. Homogeniza o tom das loucuras que habitam nos distintos personagens, para que todos estejam em pé de igualdade construindo uma mesma peça.

A iluminação de Renato Machado e Ana Luiza de Simoni tem papel importantíssimo na atmosfera criada por Inez para um universo que vai se transformando num enorme caldeirão prestes a explodir, dando o enfoque necessário para cada momento e realçando de modo sóbrio a estética da diretora e a cenografia de Mina Quintal. Cenografia essa com relevância fundamental para o êxito dramatúrgico do espetáculo, criando um espaço cênico funcional e dentro do contexto pedido, nos qual os atores podem desenvolver seus fantasmas interiores.

Os figurinos de Flavio Souza ajudam de maneira construtiva a identificação dos personagens, suas origens e funções. Adequada e sem procurar algo que seja mais do que o necessário.

Infância, Tiros e Plumas”, mesmo que não seja um dos melhores textos de Jô Bilac, ainda assim está acima da média com grande qualidade e méritos, que com um elenco com a perfeita noção da história que está contando e com uma diretora que sabe explorar cada intenção do roteiro que tem às mãos, acaba resultando numa interessante viagem à insanidade do ser humano.

FICHA TÉCNICA
Texto: Jô Bilac
Direção: Inez Viana
Direção de Produção: Claudia Marques – Fábrica de Eventos
Elenco/Cia OmondÉ: Carolina Pismel, Debora Lamm, Iano Salomão, Jefferson Schroeder, Juliane Bodini, Junior Dantas, Leonardo Bricio, Luis Antonio Fortes e Zé Wendell
Cenário: Mina Quental
Figurino: Flavio Souza
Iluminação: Renato Machado e Ana Luzia de Simoni
Direção Musical: Marcelo Alonso Neves
Direção de Movimento: Dani Amorim
Assistente de Direção: Marta Paret
Produtores Executivos: Rafael Faustini e Jéssica Santiago
Assistente de Produção: Maíra Zago
Programação Visual: Felipe Braga
Assessoria de Imprensa: Ney Motta

SERVIÇO
Local: Teatro SESC Ginástico. Av. Graça Aranha 187, Centro do RJ. Tel. 2279-4027
Capacidade de público: 513 lugares
Estreia: 9 de abril, quinta-feira, às 20h.
Temporada: 10 de abril a 17 de maio. De quinta a domingo, às 19h.
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 80 minutos
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 5,00 (associado Sesc)
Gênero: Drama no ar
Página do espetáculo: www.facebook.com/infanciatiroseplumas

foto © Cabéra


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