Crítica: Janis


 
Foto: Manuela Abdala

Foto: Manuela Abdala

Por Renato Mello

Um recorte que busca o entendimento da complexidade de um mito como Janis Joplin é a proposta do espetáculo que se apresenta até o dia 16 de julho no Oi Futuro Flamengo.

Com direção de Sergio Módena e dramaturgia de Diogo Liberano, “Janis”, segundo seus próprios apontamentos oficiais “mistura aspectos biográficos e ficcionais e texto entremeado de canções, em que a atriz(Carol Fazu) vai à essência e às emoções do personagem”.

Antes de começar a me ater ao espetáculo propriamente, quero dispor aqui da máxima sinceridade e me expor afirmando que nunca tive uma relação de serenidade com vida e obra de Janis Joplin. Diria mesmo que todo o universo em seu entorno me causa um sentimento depressivo que gera angústia e incômodo, me fazendo mudar o canal ou a página em ralos instantes de sua presença. Nunca lhe fui indiferente, assim como não tenho uma explicação lógica e racional para meu desconforto. Não significa que me escape a percepção de uma autêntica manifestação artística de alto grau de intensidade, mas que nunca se coadunou com minha (in)sensibilidade pessoal.

Dito isso, o primeiro questionamento que me fiz antes mesmo de assistir ao espetáculo é como faria um julgamento honesto sobre aquilo que se confronta com meu gosto pessoal. Deixando os eufemismos que escrevi acima de lado e traduzindo de maneira clara: de algo que detesto. Recordei-me de um depoimento que escrevi recentemente como contribuição para um trabalho acadêmico de um amigo sobre a função do crítico de teatro, no qual entre outras coisas afirmei: “…Cabe ao crítico teatral primeiramente despir-se de seus próprios preconceitos, permitindo-se abrir um canal de comunicação para qualquer tipo de proposta, seja ela qual for. Toda proposta teatral é válida em seus princípios originários, Deve ser analisada com frescor no olhar e deixando à margem qualquer interferência de ideias preconcebidas…”.

Me preparei para assistir ao espetáculo de maneira inteiramente oposta a que costumo fazer. Normalmente faço uma pesquisa quando não tenho um conhecimento mais aprofundado sobre a proposta do espetáculo, de Janis Joplin nada busquei. Procurei zerar-me de meus pré-conceitos, “revirginar” meu olhar para me conectar com “Janis” e tentar descobrir novos horizontes para minhas percepções. Compareci na sala do Oi Futuro Flamengo com o mais genuíno desejo de gostar do espetáculo, mas ainda com o receio de ter que passar por 90 torturantes minutos de apresentação pelo aprisionamento de minhas escolhas de vida.

Quando se abre uma nova janela para se mirar um mesmo quadro, uma sensação de indescritível felicidade costuma me invadir. “Janis” me proporcionou isso.

O texto de Diogo Liberano, a partir da idealização da própria protagonista Carol Fazu, é preponderante para o alcance atingido pela proposta. Muito distante da construção careta que normalmente o teatro brasileiro tem apresentado nas biografias levadas aos palcos, Liberano alça um entendimento do personagem a partir de fragmentos permeando sua narrativa com canções do repertório de Janis Joplin que complementam um inconsciente motivacional da artista. Sua construção dramatúrgica é sólida e permite ao espetáculo levar-se de maneira fluída ao longo de sua representação, com textos que ganham real significação na interpretação de Carol Fazu e consolidam o espectro da representação artística de Joplin.

Minha ausência de aprofundamento com a personagem título me impede de usar aqueles clichês tão típicos de nós críticos para afirmar algo como “Carol Fazu incorpora Janis Joplin”. Embora tenha ouvido tais afirmações e pelo que posteriormente li no release do espetáculo nem era essa a proposta da atriz, “Sem reproduzir nem imitar a cantora”. Minha busca em Carol Fazu se residiu no processo de composição do seu personagem, bem diferente, por exemplo do que afirmei sobre um espetáculo de uma figura que tenho uma relação mais próxima como é o caso de Cartola, em que escrevi que “Flavio Bauraqui encontrou a essência e verdade de Cartola”. Talvez igualmente um clichê, mas aliviado que nas buscas em meus textos anteriores não me flagrei na expressão de que “o ator X incorporou o personagem Y”. Liberto desse tipo de amarra, encontrei no desempenho de Carol Fazu uma interpretação brilhante, configurando a melhor atuação feminina de um espetáculo musical no cenário teatral carioca de 2017 até o presente momento. Carol Fazu em cena é a mais pura exposição de um talento composto por sua forte presença de palco, carisma, comunicação corporal, para não deixar de mencionar o dimensionamento extraordinário de sua capacidade vocal, revelando uma daquelas interpretações que durante o espetáculo nos deixam ali, parados na cadeira na contemplação da mais bela beleza artística.

A direção de Sergio Módena é exata, sem desvirtuar-se por extremos desnecessários, caminhando com simplicidade por zonas complexas, incorporando a enfâse dos pontos centrais da escalada dramatúrgica de Liberano para erguer um espetáculo sensível, forte e envolvente, numa altura exata do medir de cada palavra utilizada.

A direção musical de Ricco Viana modula-se nas intenções dramatúrgicas e libertam Carol Fazu a expor sua explosão cênica, acompanhada com uma banda formada por Marcelo Muller (baixo), Arthur Martau (guitarra), Eduardo Rorato (bateria), Gilson Freitas (saxofone) e Antônio Van Ahn (teclado). No roteiro musical composto por 14 canções constam: “Ball and Chain”, “Cry Baby”, “Kozmic Blues”, Little Girl Blue”, “Maybe”, “Me & Bobby McGee”, “Mercedes Benz”, “Move Over”, “On Night Stand”, “Piece of My Heart”, “Summertime”, “Tell Mama”, “Try” e “Trust Me”.

Os figurinos com que Marcelo Marques compõe Carol Fazu e os músicos que a acompanham apresentam um bom trabalho de pesquisa comportamental da época do auge da cantora, recortada para seu universo particular, complementando exitosamente a proposta final e causando, no caso da protagonista, um impacto visual positivo.

Destacável desenho de luz criado por Fernanda e Tiago Mantovani, ambientando com delicadeza todo um aprofundamento interior da personagem e ao mesmo tempo potencializando o dimensionamento ensejado na proposição de Sergio Módena.

Talvez outras pessoas com a mesma sensibilidade estreita que possuo para recepcionar o mundo que Janis Joplin viveu se questionem, tal como fiz, se seriam capaz de apreciar “Janis”. Caso se permitam ampliar seus canais de recepção, apreciarão muito o espetáculo. Quanto a mim, meus pós-conceitos tentam compreender a razão de durante tantos anos ter-lhe virado as costas.

Obrigado, Carol Fazu, Sergio Módena e Diogo Liberano pela lição que recebi.

Ficha Técnica
Idealização e interpretação: Carol Fazu
Dramaturgia: Diogo Liberano
Direção geral: Sergio Módena
Direção musical: Ricco Viana
Cenografia e figurinos: Marcelo Marques
Iluminação: Fernanda Mantovani & Tiago Mantovani

Banda: Marcelo Muller (baixo), Arthur Martau (guitarra), Eduardo Rorato (bateria), Gilson Freitas (saxofone) e Antônio Van Ahn (teclado)

Programação visual: Cacau Gondomar e Bruno Sanches
Direção de produção: Alice Cavalcante e Ana Velloso
Produção executiva: Alice Cavalcante, Ana Velloso e Vera Novello
Produção e Realização: Sábios Projetos e Lúdico Produções

Serviço
Espetáculo: “Janis” – monólogo musical com Carol Fazu
Dramaturgia: Diogo Liberano
Direção: Sergio Módena
Local: Teatro Oi Futuro Flamengo (Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo/RJ- Tel.: (21) 3131-3060)
Estreia: 25 de maio de 2017, quinta-feira
Temporada: de 26 de maio a 16 de julho de 2017, de quinta a domingo às 20h
Preço: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)
Duração: 80 minutos
Capacidade: 63 lugares
Classificação: 14 anos


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