Crítica: João Goulart, uma Biografia


 

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3-estrelas-valendoJoão Goulart, uma Biografia”, escrita pelo professor de história da UFF e pesquisador do CNPq Jorge Ferreira é uma obra relevante  nesse momento em que o Golpe Militar de 1964 completa seu cinquentenário.

É importante ressalvar que o livro, um tijolo de 711 páginas editado pela Civilização Brasileira, não é um trabalho oportunista aproveitando a data “comemorativa” ou os trabalhos da Comissão da Verdade. O Livro na verdade, foi lançado há 2 anos atrás e o Botequim Cultural se penitencia por só agora fazer uma análise desse trabalho.

É absolutamente impossível compreender os acontecimentos do Golpe Militar sem estudarmos com alguma profundidade a vida, a personalidade e todo o panorama em torno de João Goulart, o Jango, presidente deposto por aquele deplorável movimento. Além de um profundo levantamento da vida de Jango desde seu nascimento, sua vida familiar e sua formação política, Ferreira analisa toda a conjuntara político-econômica-social do período, fruto de longuíssima pesquisa aonde utilizou-se de documentos oficiais, jornais da época, estudos de outros historiadores e jornalistas, além do depoimento de inúmeras pessoas que conviveram com Jango. Em tom de questionamento o autor relaciona o excesso de trabalhos sobre o período e muitos poucos com o foco no então presidente, justamente de um dos mais importantes e decisivos da história do Brasil, demonstrando que o esquecimento imputado a Jango foi na verdade  uma política deliberada.

Analisando sua personalidade, Ferreira o qualifica como um enigma tão bem guardado mesmo para aliados mais próximos, revelando por trás do mito alguém extremamente fechado, reservado, mas ao mesmo tempo dócil e afetivo. Acaba por deixar no seu leitor o questionamento do porquê alguém com tais características acabou gerando ódios tão extremados.

Uma característica que o autor demonstra é um certo encantamento pela sua figura. Até certo ponto natural, afinal sem essa fascinação e curiosidade não haveria razão para se lançar em tarefa tão árdua como constituir uma biografia de quem quer que fosse. O problema é que ao longo do livro Ferreira deixa a sensação de querer absolver Jango das acusações e características que lhe foram imputadas tanto durante sua vida quanto após a sua morte. Mas o próprio autor não deixa de fazer referências a outros estudiosos que tem pontos de vista divergentes em relação a sua figura, não escusando de citar alguns historiadores ou jornalistas que possuem um tom mais crítico.

Citado por Ferreira, o historiador Marco Antonio Villa qualifica o ex-presidente como “fraco”, “conciliador”, Inconsequente”. Curioso o uso do termo “conciliador”, tratado aqui por Villa como algo pejorativo, termo igualmente usado por inúmeros desafetos. O mesmo termo é empregado por outros estudiosos e personalidades no sentido justamente oposto, como uma característica elogiosa.

O autor do mais importante panorama sobre a ditadura militar, o jornalista Elio Gaspari, igualmente citado por Ferreira, também não tem palavras muito elogiosas à respeito Jango:

sua biografia raquítica fazia dele um dos mais despreparados e primitivos governantes da história nacional. Seus prazeres estavam na trama política e em pernas, de cavalos, ou de coristas…Condicionantes de classe interferem na conduta dos homens públicos, podendo leva-los da temeridade à vacilação e dela ao imobilismo, mas no caso de João Goulart, independente da classe em que estivesse, ele seria sempre um pacato vacilante”.

“Vacilante” é uma palavra que a mim, pessoalmente, parece-me muito adequada para determinadas ações(ou falta de), principalmente no ápice do episódio em que, nas palavras do próprio Gaspari,  “O exército dormiu janguista…e acordou revolucionário”.

Na visão de Ferreira, podemos enxergar um Jango desprovido de ambições pessoais e evitando misturar a política com seus interesses pessoais. Opinião distinta da que podemos ler no recente livro escrito por Marco Antonio Villa, “Ditadura à Brasileira”(que já foi analisado AQUI no Botequim Cultural). Segundo Villa:

“…numa conjuntura radicalizada, esperava-se do presidente da República um ponto de equilíbrio político. Lego engano. João Goulart articulava sua permanência na presidência – a reeleição era proibida…Sinalizava que tinha apoio nos quartéis para, se necessário, impor pela força a reeleição. Organizou um dispositivo militar que ‘cortaria a cabeça’ da direita”

Determinadas sentenças de Ferreira parecem querer absolver o herói de seu livro:

“Outra questão importante para o desmerecimento de João Goulart são as denúncias sobre as relações, nem sempre pautadas pela ética, entre suas bases de apoio político e as oficiais. As acusações não são destituídas de fundamento, mas criou-se uma imagem distorcida do tema, como se o fisiologismo, o empreguismo e o uso da máquina estatal com fins políticos fossem tradições inauguradas por Vargas e tivessem atingido seu apogeu com Goulart…Mas do que o autoritário Vargas, muito mais do que Jânio e Goulart, Juscelino distribuiu favores e empregos, e trilhou os caminhos da negociação política nos termos tradicionais da classe política brasileira. Cartórios, nomeações, promoções eram armar prediletas para cooptação”

Analisando pela ótica de Ferreira, fica-se a impressão que o crime e costumes não republicanos realizados por outras figuras histórias atenuam a sua prática realizada por Jango.

Um dos pontos que considero dignos dos maiores elogios ao trabalho é em relação a morte de Jango, tratada por Ferreira de maneira extremamente conscienciosa:

“É preciso tratar a morte de Jango com equilíbrio e ponderação. Ao historiador não interessa o sensacionalismo. Ao historiador interessa documentos e testemunhos que fundamentem sua argumentação. Como vimos em vários depoimentos Jango era um homem cardíaco. Em 1962, no México, teve seu primeiro acidente cardiovascular, desmaiando em solenidade oficial. Em 1969, sofreu um infarto. Sua alimentação era à base de carnes gordurosas, ricas em colesterol. Fumava muito, consumia bebidas alcoólicas regularmente. Seu estilo de vida era sedentário. Padecia de um processo depressivo visível par quem convivesse com ele…Jango tinha sérios problemas no sistema cardiovascular e os medicamentos que tomava garantem a afirmação”.

…Todas as evidências, portanto, conduzem à tese de que Jango morreu de infarto agudo do miocárdio. Pode-se, no entanto, fazer tal afirmação com absoluta precisão? Não, porque não houve autópsia. Mas todas as provas e indícios nos permitem chegar, com segurança, à conclusão de que faleceu devido a causas naturais”.

Como um profundo estudioso da vida do ex-presidente esse ponto de vista de Ferreira é bastante relevante em virtude de inúmeras especulações e teorias conspiratórias à cerca de sua morte, principalmente a estapafúrdia história levantada pelo ex-agente dos serviços de segurança uruguaia Mário Neira Barreiro, que criou a formulação de que em 1976 teria saído da Presidência da República ordens para matar Jango, dizendo que seus comprimidos e caixa de remédios haviam sido trocadas. Cabe ressaltar que Neira Barreiro foi condenado por roubo e posse ilegal de armas pela justiça brasileira e o governo uruguaio pede sua extradição por outros crimes.

Em recente artigo na “Folha de São Paulo” e “O Globo”, Gaspari demonstrou ter opinião similar:

“Cardiopata, ele já tivera dois infartos e morreu na sua fazenda argentina, ao lado da mulher. Os restos mortais do presidente estão sendo examinados por uma equipe de legistas. Será deles a última palavra. Uma coisa é certa: Neira Barreiro é um delinquente”.

Porém Ferreira é corajoso ao assumir uma especulação sobre o que poderia ter sido o futuro do ex-presidente:

Se Jango tivesse algum tempo a mais de vida, não duvido que sofreria um atentado. Se continuasse residindo na Argentina ou no Uruguai, muito certamente seria assassinado. E creio que os homens da operação Condor não utilizariam recursos complicados, como troca de remédios. Se, em setembro de 1976, Orlando Letelier sofre atentado à bomba em plena Washington DC por homens do serviço secreto chileno, o que impediria um comando militar de invadir a fazenda de Jango e mata-lo a tiros?

Apesar de algumas ressalvas, “João Goulart, uma Biografia” é um livro fundamental para entendermos não só o golpe militar de 1964, mas todo um período da vida nacional desde o segundo mandato de Vargas até a primeira década da ditadura militar, por alguém que esteve permanentemente no centro do furacão.


Palpites para este texto:

  1. “Analisando pela ótima de Ferreira, fica-se a ” .

    Não seria ótica, ao invés de ótima?

  2. Jango um democrata é o melhor delírio histórico que conheço.

    Melhor mesmo até que guerrilha marxista que teria lutado pela atual democracia.

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