Crítica: Josephine Baker, a Vênus Negra


 

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Por Renato Mello

O legado artístico e de vida de Josephine Baker ganha montagem teatral em temporada até o dia 28 de maio no Teatro Maison de France.

Vítima de uma América racista, excludente e repressora, Josephine Baker(Freda Josephine McDonald 1905 – 1975), após galgar lentamente algum espaço na Broadway, descobre todo um novo mundo a partir da sua estreia no Théâtre Champs-Elysées, encantando o público francês com o erotismo de sua dança, exibindo-se praticamente nua em cena. A França abre as portas não somente para sua arte, mas para o despertar de uma integração social, em que o respeito é adquirido pela sua capacidade artística, independendo de questões sociais ou raciais. Membro da resistência francesa, torna-se uma das artistas mais admiradas da França e paulatinamente percebe a relevância do seu papel na sociedade para levantar bandeiras sobre questões das quais foi vitimada em vida.

Com direção de Otavio Muller para texto de Walter Daguerre, “Josephine Baker, a Vênus Negra” busca traçar um painel da carreira da vedete, optando por não amarrar uma dramatúrgia aprofundada, construindo uma narrativa cronológica e frouxa, indefinindo-se entre a biografia e o viés documental.

Quando utilizo a expressão “frouxa”, que a princípio pode soar extremamente pejorativa, creio ser importante ressaltar que no caso de “Josephine Baker, a Vênus Negra” possui não somente aspectos negativos, mas também positivos para o resultado final. A força do espetáculo reside acima de tudo na forma como Aline Deluna conduz a apresentação e o diálogo direto que propõe, em que o diretor Otavio Muller busca(e encontra) na espontaneidade e carisma de sua atriz um fio condutor bem ajustado que permite uma fluência tanto narrativa quanto cênica, ao mesmo tempo que a dramaturgia fragilizada não possibilita uma maior expansão de uma história com capacidade de ir mais além.

A forma como Aline Deluna desmistifica a construção física do seu personagem diante do público tem um resultado bastante empático. A atriz atinge por meio de um ótimo trabalho de composição física, direção de movimentos(méritos para Marina Salomon), técnica vocal e expressividade, a essência de um personagem complexo e repercute pela ambientação tanto a profundidade, quanto a sinceridade de sua atuação.

Outro aspecto positivo é a interação entre Aline de Luna e os músicos que lhe acompanham no desvendar de Josephine Baker, mais além de meros aspectos musicais, em que o diretor Otavio Muller apropria-se da experiência cênica e personalidade de Dany Roland(bateria e percussão), como de Christiano Sauer(contrabaixo e violão) e Jonathan Ferr(piano), que mesmo sem  procurar atuar ou  se aprofundar efetivamente em algum dos personagens no entorno da cantora, elevam aspectos que complementam a proposta cênica do diretor, além da notória competência do trio no preenchimento musical do espetáculo.

O repertório utilizado compartimenta as passagens por gêneros tão distantes e por vezes díspares, passando pela tradução do sentimento da música negra americana; pela canção francesa(“Sous Le Ciel de Paris”, “J’ai Deux Amours”);  música contemporânea(sem nenhum acréscimo dramatúrgico ou maior efetivação na ação cênica) com “Like a Prayer”, e incluindo suas passagens pelo Brasil(“Tem Francesa no Morro”, “O Que é que a Baiana Tem?”, “Chiquita Bacana” e “Aquarela do Brasil”). Um retrato da eclética combinação de elementos que resultam num ícone multifacetado, que não se permitia prender à rótulos ou preconcepções.

O figurino de Marcelo Marques e o visagismo de Guto Leça tem papel preponderante para a verdade cênica alcançada pela interpretação de Aline de Luna. A cenografia de Marcelo Marques despe o palco e revela aspectos orgânicos da ambientação dos bastidores de um mundo que arte e experiência de vida se fundem na composição de uma vida única.

Josephine Baker, a Vênus Negra” apesar de suas irregularidades, ainda assim demonstra-se capaz de expor o desbravar artístico da  primeira grande estrela negra das artes cênicas.

FICHA TÉCNICA

Texto: Walter Daguerre
Direção: Otavio Muller
Direção Musical: Dany Roland
Direção de Movimento: Marina Salomon

Elenco: Aline Deluna / Atriz
Dany Roland – Músico (bateria e percussão)
Christiano Sauer – Músico (contrabaixo, violão e guitarra)
Jonathan Ferr – Músico (piano e escaleta)

Cenografia e Figurinos: Marcelo Marques
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Projeto de Som: Branco Ferreira
Preparação Vocal: Débora Garcia
Visagismo: Guto Leça
Assistência de Dramaturgia: Fabrício Branco
Assistência de Direção e Produção: Luísa Reis
Programação Visual: Cacau Gondomar
Fotografia: Lucio Luna
Mídias Sociais: Leo Ladeira
Direção de Produção: Alice Cavalcante e Ana Velloso
Produção Executiva: Alice Cavalcante, Ana Velloso e Vera Novello
Realização: Sábios Projetos e Lúdico Produções Artísticas
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany


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