Crítica: Justa


 
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Foto: João Caldas

Por Renato Mello

Uma tentativa de criar uma alegoria cênica do esgotamento ético que estamos mergulhados”, assim o diretor Carlos Gradim, define o espetáculo “Justa“. Se autonomeando como uma “peça manifesto”, cumpre temporada no Teatro III do CCBB do Rio de Janeiro até o dia 19 de novembro.

Com texto assinado por Newton Moreno, desenvolve-se dramaturgicamente como um romance policial em que uma série de assassinatos de políticos corruptos leva o investigador policial, interpretado por Rodolfo Vaz, à buscar um assassino serial entranhado num cenário de degradação do sistema político brasileiro mesclado com uma rede de  prostituição que presta serviços para as mais poderosas autoridades da nação.

O principal entrave para uma maior fluidez do espetáculo reside numa dramaturgia que se alonga em demasia sem apontar com precisão o caminho que pretende seguir, indefinindo-se no tatear de diferentes sentidos sem preencher suas lacunas. Na irresolução entre uma trama policial nos meandros da prostituição e um desabafo contra a corrupção, acaba no meio do caminho entre uma e outra. Embora pretenda construir um painel endêmico da amoralidade da vida nacional para atingir uma reflexão desde as pequenas corruptelas cotidianas às grandes negociatas no coração do poder, sua linha narrativa policialesca previsível amortece seus impactos, mesmo nas revelações dramáticas, pela utilização da narrativa em 1ª pessoa no decorrer de todo espetáculo, empobrecendo e impedindo um aprofundamento das intenções, além de entorpece-la emocionalmente. Mesmo algumas conceituações e alegorias, dentre as quais a mais pautada é o  Hino de Ninar(interpretado por Laila Garin), pouco acrescentam.

A direção de Carlos Gradim se mostra inventiva e em parte consegue amenizar alguns problemas dramatúrgicos, encontrando boas soluções que permitem um bom desenvolvimento cênico pela forma como explora as superfícies do cenário. Compõe uma estética original, com contribuição da boa cenografia de André Cortez, que ainda conseguem suscitar um interesse e uma atmosfera que dão algum fôlego narrativo. Nesse processo apenas destoa a utilização insistente de um fundo musical que busca aguçar, mesmo que com alguma ironia, um sentimento de  suspense, mas que acaba se revelando como um recurso que justamente expõe a fragilidade do texto.

O grande problema no percurso interpretativo de Rodolfo Vaz, mais uma vez resvala nas opções narrativas de Newton Moreno, que confesso não ter compreendido as motivações que levaram a compor um protagonista que age sob uma narração em 1ª pessoa. A ausência de diálogos impede o personagem de trabalhar nuances. Tudo é dito, nada sentido ou expressado num personagem que tem uma construção linear. Uma pena! Pois trata-se inegavelmente de um ótimo ator prejudicado pelo desenvolvimento que lhe foi idealizado. Yara de Novaes tem atuação contundente, explorando vigorosamente diversas camadas dos personagens que interpreta, com forte presença física, expressividade, bom trabalho corporal e bastante eficiência na maneira como gradua as variações vocais, conseguindo demarcar vários personagens sem necessitar uma composição, bastando o bom uso de seus instrumentos técnicos para mais a competente representação de uma atriz que é sem dúvida dos grandes destaques da atual temporada carioca, como no seu brilhante desempenho em “Love Love Love” no início do ano.

O cenário de André Cortez cria uma consistência física que acrescenta bastante à proposta de Carlos Gradim, com uma enorme mesa, televisões acopladas, que através das suas projeções fixam determinadas intenções narrativas. Os figurinos de Fabio Namatame se apresentam de acordo com a proposta e acrescenta bastante principalmente na construção feita por Yara de Novaes. O bom design de luz de Telma Fernandes atua numa linha congruente com a direção de Carlos Gradim, conseguindo ampliar todo um conceito cênico.

Ficha técnica:
Texto: Newton Moreno.
Direção: Carlos Gradim.
Elenco: Yara de Novaes e Rodolfo Vaz.
Direção Musical: Morris Picciotto
Cenografia: André Cortez
Produção Executiva: Ana Luiza Lima
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: 18 anos

Serviço:
Justa – Peça-manifesto
Local: CCBB Rio – Teatro III
Ingressos: R$ 20 inteira / R$ 10 meia – eventim.com.br
Horários: de quarta a domingo, das 19h às 21h
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro do Rio de Janeiro
Temporada de 21 de outubro a 19 de novembro

Assessoria de Impressa
Cintia Magalhães


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