Crítica: Kiss me, Kate!


 


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Por Renato Mello.

Kiss me, Kate! – O Beijo da Megera”, o último espetáculo da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho que se encontra atualmente em cartaz no Teatro Bradesco, traz para essa parte final da temporada teatral mais do que meramente um lindo e delicioso espetáculo, é acima de tudo uma montagem da mais elevada qualidade artística presenciada em palcos cariocas neste ano.

Essa perfeição alcançada é o resultado de um espetáculo dramaturgicamente irretocável a partir do texto de Sam e Bella Spewack com letras e músicas de um dos momentos mais inspirados de ninguém menos que Cole Porter, que ganharam em sua montagem nacional uma construção cênica em que todos os departamentos de uma produção teatral parecem ter alcançado uma sintonia tão rara que fizeram de “Kiss me, Kate!” um trabalho que terá lugar num dos patamares mais elevados da extensa contribuição que Möeller e Botelho já depositaram na história do teatro contemporâneo brasileiro nesses últimos 25 anos.

O espetáculo aborda os bastidores de uma encenação em Baltimore de “A Megera Domada”, de William Shakespeare, através de um conflito entre Fred Graham(José Mayer), ator e dono da companha teatral e sua ex-esposa Lili Vanessi(Alessandra Verney),  a estrela do espetáculo. Na apresentação do texto do bardo inglês, Fred interpreta Petruchio, enquanto Lili Vanesi dá vida para a irascível Kate.  Todos os incidentes que ocorrem nos bastidores acabam por força de circunstâncias implicando diretamente na encenação que realizam. Há ainda um romance secundário entre a personagem Lois Lane(Fabi Bang) e seu namorado Bill(Guilherme Logullo)  que se vê envolvido numa dívida de jogo com a máfia que acaba trazendo as ameaças para o centro da companhia e gerando uma série de inusitados acontecimentos.

Kiss me, Kate!” tem em sua dramaturgia a estrutura da peça dentro da peça, utilizando-se da metalinguagem de um modo absolutamente encantador e que desrespeita(no melhor sentido da palavra) toda a rigidez exigida numa montagem tão clássica de um texto de Shakespeare, praticamente desconstruindo-o através de um atmosfera do mais puro humor e utilizando-se de músicas repletas de malícia.

Quando me referi no início deste texto sobre o grau de excelência técnica alcançado por “Kiss me, Kate!” é fundamental que comecemos tratando pela transposição realizada para o português por Claudio Botelho para essa versão brasileira, um efetivo esteio a partir do qual todos os demais departamentos puderam desenvolver suas soluções. “Traduzir é trair”, costumam dizer os puristas. Sem dúvida, trair é absolutamente necessário para a realidade da prosódia de cada idioma.  É preciso uma grande habilidade de quem versa o texto para flexibilizar o difícil equilíbrio entre o espírito e intenção da obra original com a necessidade fonética de uma língua tão peculiar quanto a nossa, e em se tratando de música há ainda a questão da métrica para que as canções subam ao palco de modo que o canto flua aprazível e leve. Deste modo, é perfeito que Claudio Botelho no programa oficial da peça se apresente como responsável pela “versão brasileira” e não pela “tradução”, o que é uma diferença significativa.

A partir dessa base montada com grande competência por Botelho, criou-se um espaço necessário para que técnicos de áreas tão distintas e de enorme reconhecimento pudessem equacionar as questões que se impunham para a concepção final dessa obra, através de objetivos muito claros definidos por uma dupla como Möeller e Botelho que possuem a perfeita noção do que querem colocar em prática e do caminho a percorrer para dar uma vida real para suas ideias e projetos.

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Começando pela escolha do elenco, com um equilíbrio absoluto para as necessidades que essa peça pede, justamente o que, em minha opinião, foi um ponto vulnerável na montagem do espetáculo anterior da dupla, “Nine”. José Mayer, o protagonista, vivendo Fred Graham e Petruchio, demonstra uma enorme segurança na composição de seu cínico e astuto personagem. Grande carisma e uma técnica vocal preparada para sustentar em cena a altura das notas que lhe eram exigidas e que resultou numa bela atuação por parte de José Mayer. Alessandra Verney, Lili Vanesse e Kate, com dois personagem que em dado momento unificam o comportamento e temperamento, mas que com uma composição bastante requintada por parte de Verney, fica muito evidente em que ponto termina Vanesse e começa Kate(e vice-versa). Alessandra Verney é um capítulo importante do teatro musical brasileiro dos últimos anos e é impressionante a sua dimensão em cena novamente sob a orientação de Möeller e Botelho. Embora tenha gostado de sua participação em “Alô Doly”!, penso que algumas opções posteriores estavam aquém da sua estatura artística. Portanto, assistir Verney, uma estupenda atriz e cantora na plenitude de um personagem como Kate, foi acima de tudo um enorme sentimento de prazer. Fabi Bang, sem dúvida uma atração à parte. Uma caracterização remetendo uma pin-up típica dos anos 40/50, com uma inspiração em Marilyn. Fabi utiliza sua técnica vocal para compor uma voz bem marcada e que contribui para traçar um perfil de sua personagem, carregando nas tintas para trilhar uma linha (propositalmente) caricata, mesclando sedução e ingenuidade. Uma atriz de grande expressividade e que em cena torna-se impossível tirar os olhos de suas ações.

Um dos maiores achados do elenco é a presença de Chico Caruso, no papel de um gangster e que faz uma dupla divertida com Will Anderson. Bastava sua entrada para pressentirmos que teríamos cenas engraçadas, à beira do absurdo, utilizando toda a eloquência de sua voz grave e sua expressão corporal fruto de uma absoluta espontaneidade cênica. Destaque também para Jitman Vibranovski, numa composição do pai de Kate, com perfeito domínio técnico das necessidades do papel. Assim como Rubens Gabira igualmente merece ser mencionado por uma boa atuação.

Poucas peças tem linhas musicais tão bem escritas como as composições que Cole Porter realizou para “Kiss me, Kate!”, utilizando bastante o contracanto e com um arranjo vocal desenhado com bastante qualidade pela direção musical Marcelo Castro, que juntamente com um coro misto formado por atores/cantores/bailarinos atinge o equilíbrio nas notas mais agudas e com um trabalho de polimento no timbre de voz. Arranjos de muito bom gosto e uma orquestra vibrante, dando a tonalidade adequada para o desenvolvimento musical. Composta por 12 músicos, mas com uma preocupação na lapidação da sonoridade e que passa uma sensação de uma maior grandiosidade.

Assim como a coreografia desenhada por Alonso Barros tem a capacidade de ritmar o espetáculo e dá-lhe um importante dinamismo para o desenvolvimento cênico das intenções, sabendo dosar com competência um elenco que tem bailarinos profissionais, atores com noção de dança e outros nem tanto assim, sem que haja um sentimento incômodo ou destoante, pelo contrário, sabe tirar proveito da qualidades e limitações de cada um.

Os figurinos de Carol Lobato! É impactante a beleza e a originalidade da criação de Carol Lobato. Um trabalho pensado artesanalmente, mas que teve que ser concluído em ritmo industrial para vestir 22 atores em cena e com total adequação para a composição de cada personagem. Os figurinos de Carol Lobato chamam a atenção não somente pela beleza, mas igualmente nota-se uma qualidade no acabamento de cada peça, com funções muito bem marcadas. Há sempre uma assinatura particular nos trabalhos de Carol, mas sem que sua marca pessoal em cada veste se sobreponha sobre a necessidade dramatúrgica do espetáculo.

A cenografia de Rogério Falcão se impõe pela grandiosidade, funcionalidade na troca das ambientações, harmonia e que facilita o desenvolvimento narrativo do espetáculo, juntamente com a qualidade da luz assinada por Paulo Cesar Medeiros, que consegue realizar uma marcação acertada de cada momento dramático e realçando as intenções cênicas.

Charles Möeller comandou uma equipe com alguns dos maiores profissionais do nosso teatro e realizou uma direção artística que concebeu um espetáculo alegre, divertido, bonito e tecnicamente perfeito. Considero “Kiss me Kate!” um dos grandes momentos de Charles Möeller e Claudio Botelho, diante do histórico genial de ambos, isso não é pouca coisa.

Fotos de divulgação

Serviço:
“Kiss Me, Kate – O Beijo da Megera”
Música e letras de Cole Porter
Libreto de Sam e Bella Spewack
Um espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho
Temporada de 30 de outubro a 13 de dezembro
Sextas, às 21h30. Sábados, às 21h. Domingos, às 20h.
Teatro Bradesco / Shopping Village Mall
Ingressos a R$ 150 (Plateia baixa), R$ 120 (Plateia alta), R$ 100 (camarotes), R$ 80 (Balcão nobre) e R$ 50 (frisas).

Ficha Técnica
Elenco: José Mayer, Alessandra Verney, Fabi Bang, Guilherme Logullo, Chico Caruso, Will Anderson, Léo Wainer, Jitman Vibranovski, Ruben Gabira, Ivanna Domenyco , Igor Pontes, Leo Wagner, Marcel Octavio, Beto Vandesteen, Augusto Arcanjo, Giselle Prattes, João Paulo De Almeida, Lana Rhodes, Mariana Gallindo, Patricia Athayde, Thiago Garça e Tomas Quaresma.

COLE PORTER:Música e letras
SAM E BELLA SPEWACK:Texto

MARCELO CASTRO:Direção Musical
ROGÉRIO FALCÃO:Cenário
CAROL LOBATO:Figurinos
ALONSO BARROS:Coreografia
MARCELO CLARET: Design de Som
PAULO CESAR MEDEIROS:Iluminação
CLAUDIA COSTA e CLAUDIO BOTELHO:Tradução dos diálogos
BETO CARRAMANHOS:Visagismo
MARCELA ALTBERG:Produção de Elenco
CRIS FRAGA:Diretora Residente
BEATRIZ BRAGA:Direção de Produção
CARLA REIS:Gerência de Produção
EDSON MENDONÇA:Produção Executiva
TINA SALLES:Coordenação Artística
CHARLES MÖELLER: Direção
CLAUDIO BOTELHO:Versão Brasileira / Supervisão Musical

Realização
MÖELLER & BOTELHO

Orquestra: MARCELO CASTRO (Regência); KELLY DAVIS (Violino 1), LUIZ HENRIQUE LIMA (Violino 2), SAULO VIGNOLI (Cello), ZAIDA VALENTIM (Teclado 1), GUSTAVO SALGADO (Teclado 2), RAPHAEL NOCCHI (Piccolo, Clarineta, flauta e sax alto), GILSON BALBINO (Clarineta e sax alto), WHATSON CARDOZO (Clarone, clarineta e sax barítono), MATHEUS MORAES (Trompete e Flügel) VÍTOR TOSTA (Trombone), OMAR CAVALHEIRO (Contrabaixo) e MARCIO ROMANO (Bateria e percussão).


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Kiss me, Kate é encantador e absolutamente perfeito! Parabéns pela crítica

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