Crítica: Ludi na Revolta da Vacina


 

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Por Renato Mello.

Como a presença de Renata Mizrahi faz bem ao teatro infantil! Foram 3 anos desde seus últimos trabalhos nesse segmento, “O Jardim Secreto” e “Coisas que a Gente Não Vê”. Esse período serviu para escapar do rótulo de “autora de teatro infantil” e se consolidar como uma das mais relevantes dramaturgas do teatro nacional com uma sequência ininterrupta de ótimos espetáculos, como “Silêncio”, “Galápagos” e “War”. Renata faz bem para qualquer teatro, seja infantil, seja adulto.

O entusiasmo que me expresso é consequência do que foi apresentado na estreia neste fim de semana no Sesc Ginástico de “Ludi na Revolta da Vacina”, adaptação escrita e dirigida por Renata Mizrahi do livro homônimo de Luciana Sandroni, cuja temporada seguirá até o dia 8 de maio

Ludi é a protagonista de uma série de livros de Luciana Sandroni que se iniciou em 1989 com “Ludi Vai à Praia”, passando por “Ludi na TV” e “Ludi: na Chegada e no Bota-Fora da Família Real”. “Ludi na Revolta da Vacina” foi escrito em 1999. Luciana Sandroni é uma das mais importantes escritoras do universo infantojuvenil, tendo ganho inclusive o Jabuti em 1998 por “Minhas Memórias de Lobato”. Não é a primeira vez que “Ludi na Revolta da Vacina” ganha uma adaptação teatral, tendo sido montado em 2010 com direção de Augusto Madeira cujas referências que me chegaram por aqueles que assistiram são bastante positivas.

Segundo sua própria sinopse oficial “conta a história da menina Ludi e de sua família que, num passeio pelo Centro, vão parar no Rio de Janeiro do início do século XX, quando a cidade enfrenta uma campanha de vacinação contra febre amarela, transmitida pelo Aedes aegypti. No decorrer da trama, personagens históricos como Oswaldo Cruz, Pereira Passos e Machado de Assis são apresentados ao público.”

Entre os aspectos mais fascinantes do texto que Renata Mizrahi transpôs com enorme êxito para o palco teatral está o seu diálogo com a cidade, a capacidade de envolver o público na fantasia de uma viagem no tempo para despertar a curiosidade sobre eventos históricos ocorridos numa região bem próxima do próprio teatro, dos personagens da época e da própria geografia do Rio de Janeiro. Assim como expõe nossas mazelas no espiral do tempo em questões que incrivelmente permanecem na ordem do dia, como a revolta da vacina contra a febre amarela de Oswaldo Cruz e o bota-abaixo da reforma urbanística do então prefeito Pereira Passos que imediatamente nos remetem ao atual surto da Zika e as obras espalhadas pela cidade. Como numa sentença que recordo dos tempos de escola: “a história é um grande profeta com os olhos voltados para trás”, é através do seu conhecimento que poderemos planejar a construção de uma sociedade consciente, desde que tenhamos aprendido suas lições. Caso contrário a História permanecerá com seu movimento circular e continuaremos condenados aos mesmos erros.

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A dramaturgia de Renata Mizrahi tem uma enorme eficácia no seu objetivo, mantendo uma clareza nos diálogos que possibilita uma fluidez constante ao longo de toda a encenação. Como diretora, Renata impõe uma direção dinâmica, segura, construindo toda uma atmosfera que encanta os apaixonados pela história do Rio(como eu) e desperta a curiosidade do pequeno público(como observei com minha filha).

Dois elementos contribuem decisivamente para o êxito narrativo da apresentação:

O primeiro é a utilização das projeções com as imagens do Rio Antigo, que dá vigor e verdade para a fantasia que está sendo contada.

O segundo é o elemento musical. Quero me alongar um pouco nesse tema. Tem me chamado a atenção em vários espetáculos infantis uma necessidade que por vezes é gratuita de inserir-se como “musical”, mesmo em se tratando de histórias célebres e de domínio público. Porém quase a totalidade do que tenho acompanhado possui um resultado prático nulo, com a inserção de canções que absolutamente nada acrescentam à linha narrativa e sem nenhum tipo de empatia. Justamente a criação musical de “Ludi na Revolta da Vacina” mostra a força e a grande utilidade de canções que complementam o espaço dramatúrgico e preenchem conscientemente as lacunas narrativas. A direção musical de Ricco Vianna, com canções assinadas pelo próprio em conjunto com Renata Mizrahi, enriquece o espetáculo não somente pela beleza, mas também pela capacidade de comunicação.

O elenco é composto por Isabella Dionisio, Marcelo Guerra, Lucas Gouvêa, Thaís Tedesco, Sérgio Medeiros e Larissa Siqueira. Existe uma homogeneidade na qualidade das atuações e um equilíbrio na divisão dos personagens, mesmo no caso de Sérgio Medeiros e Larissa Siqueira que tem a tarefa, que considero ingrata, de interpretar diversos papeis, o que fazem com total competência e graça. Isabella Dionísio demonstra bastante carisma para viver a personagem do título, Ludi, trabalhando bem os aspectos físicos e gestuais de sua adolescente. Marcelo Guerra tem destacada atuação, com expressividade, utilizando a sua presença corporal com personalidade. Thaís Tedesco tem adorável atuação, responsável por alguns dos melhores momentos de humor. Lucas Gouvêa, como o pai e professor de história, tem a função de contextualizar os acontecimentos sem didatismos desnecessários.  Importante destacar o excelente trabalho de Priscila Vidca na direção de movimentos, contribuindo determinantemente para a composição de todo um quadro cênico do espetáculo

A cenografia de Carla Berri tem a função de buscar a junção dos Rios(antigos e contemporâneo), realizado com correção e permitindo uma movimentação cênica e narrativa coerente com as necessidades da proposta.

Os figurinos de Joana Bueno de acordo com as necessidades dos personagens, marcando com acerto a dicotomia temporal presente na narrativa. Daniela Sanchez assina uma boa direção de luz que destaca-se na criação da atmosfera proposta por Renata Mizrahi.

Ludi na Revolta da Vacina” foi um espetáculo que me trouxe enorme felicidade ao seu final e que possibilitou manter minha crença na importância de um trabalho infantil de excelência. Como Renata Mizrahi faz bem ao teatro infantil!

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Serviço:
Ludi na Revolta da Vacina
Data: 9 de abril a 8 de maio, sábados e domingos, às 11h
Local: Teatro Sesc Ginástico – Av. Graça Aranha, 187
Classificação livre
Telefone: 21-2279 4027

Apresentações exclusivas para escolas públicas (agendamento prévio)
Datas: 13, 20 e 27 de abril (quartas-feiras). Sessões às 14h e 16h


Palpites para este texto:

  1. Sai super entusiasmada e feliz!
    Amei!

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