Crítica RJ: Ludwig/2


 

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Por Renato Mello.

Concebido durante a residência que Henrique Gonçalves e Gustavo Bicalho realizaram na Alemanha, o público brasileiro teve finalmente a oportunidade de assistir “Ludwig/2” durante a ocupação que a Artesanal Cia de Teatro realizou no mês de setembro no Espaço Sesc, em Copacabana, pela comemoração dos seus 20 anos de existência e dedicação plena ao teatro.

A espera não foi em vão e foi possível constatar finalmente os motivos das calorosas críticas recebidas nos palcos alemães. O que pôde ser visto foi uma manifestação artística de alto nível e requinte intelectual.

Importantes referências quando se trata de teatro infantil, embora não tenha sido a primeira incursão da Artesanal Cia de Teatro no dito “teatro adulto”, Henrique e Gustavo comprovam com “Ludwig/2” serem artistas superiores à mero rótulo de “diretores de teatro infantil”. São acima de tudo artistas na plenitude criativa. No caso específico de “Ludwig/2”, com importante contribuição de Daniel Belquer para sua construção.

Ludwig, apresentado por sua própria sinopse oficial “foi um rei alemão, conhecido mundialmente pelos castelos que construiu e que hoje são grande atração turística para o estado da Baviera. Um homem visionário e pacifista, viveu atormentado pela sua homossexualidade. Foi noivo de sua prima Sophie-Charlotte (irmã mais nova da imperatriz Sissi da Áustria), mas o casamento nunca foi consumado, uma vez que durante seu noivado conheceu Richard Hornig, chefe da cavalaria, e, provavelmente, o grande amor de sua vida. Um apaixonado pela música, foi patrono de Richard Wagner, por quem tinha verdadeira admiração. De personalidade excêntrica, o rei foi deposto aos 40 anos de idade sob alegação de insanidade, morrendo, em seguida e de forma misteriosa, afogado numa parte rasa do lago Starnberg.”

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A descrição acima pode fazer supor que se trata de um espetáculo sobre a sua vida. Só que “Ludwig/2” vai mais além disso, nos leva a penetrar em sua alma e tentarmos compreender quem foi “rei que construía castelos”.  Um mergulho profundo nas turvas águas que levaram esse homem ao encontro de sua tragédia pessoal.

No princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo...”, o gênesis no prólogo do espetáculo já nos dá importantes pistas do que teremos dali em diante a partir da figura de um homem  inerte sobre uma mesa circundado pela dualidade do seu percurso de vida representados nas figuras de Sophie-Charlotte e Hornig. Sua salvação, sua perdição, suas possibilidades.

A elaboração cênica e dramatúrgica de Gustavo Bicalho abre mão de ludwig2_por_jackeline_nigri_16qualquer tipo de amarras para realizar seu percurso pelos seus tormentos e angústias, passando bem longe do realismo e da linearidade, concebendo a partir dos pequenos detalhes a totalização de uma ambientação absolutamente primorosa e fascinante. Desde a utilização de uma trilha sonora que vai a Wagner e vem até Lenine e música Techno, pontuando primorosamente as intenções de cada momento, assim como os recursos multimídia, como projeções, câmeras, efeitos de luz. Porém tais elementos não realizam qualquer papel distracionista do que realmente importa, jamais se perde a densidade ou a profundidade da encenação, notando-se claramente a maneira como cada gesto ou intenção em cena foram pensados lucidamente para contextualizar a narrativa e com um foco muito bem direcionado.

O espetáculo é interpretado parte em alemão(com legendas) e parte em português sem que ocorra qualquer tipo de interferência pela repentina mudança da língua, ocorrendo de modo tão natural que mal percebemos tal transição e nem precisamos entender o alemão ou nos socorrer das legendas para percebermos cada intenção. As legendas ajudam, mas não são necessariamente obrigatórias graças à clareza do desenvolvimento cênico.

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No elenco 2 atores brasileiros e 1 ator alemão convidado. Manoel Madeira(Ludwig), Suzana Castelo(Sophie  Charlotte) e Andreas Mayer(Hornig) formam um excelente elenco, com caminhos por vezes distintos que no jogo cênico complementam-se e alimentam-se permanentemente. Manoel Madeira foi para mim uma revelação do mais alto grau, com uma das melhores atuações deste ano e daquelas que raramente temos a oportunidade de presenciar. Uma entrega em cena absoluta, intenso e visceral, conseguindo utilizar todos os recursos para expressar a complexidade de sentimentos do seu personagem, seja através do corpo, da modulação da voz, mas muito também pela força do olhar. É comovedor o modo como o ator se joga das cordas permanentemente sem se preocupar se existe rede de proteção. Não se pode definir sua atuação com algo menor que brilhante! Suzana Castelo e Andreas Mayer conseguem se equilibrar eficientemente diante da magnificência do personagem desenvolvido por Manoel Madeira, o que por si só é uma tarefa dificílima. Se falhassem, correriam o risco de se construir um abismo. Se exagerassem transformariam a ambientação em algo quase irrespirável. Ambos conseguiram encontrar a correção do tom que se ajusta adequadamente à proposta cênica. Suzana Castelo, uma atriz que já trabalha desde 2012 com a Artesanal Cia De Teatro, deu-me igualmente a oportunidade de colocar um foco maior em sua atuação e observar a qualidade dos recursos expressivos e corporais com que se desenvolve em cena.

Como mencionado inicialmente, os detalhes de “Ludwig/2” são fundamentais para a construção de uma obra desse porte, em que cada departamento exerce seu papel  e nada escapa na construção final do todo.

Elemento primordial é a excelente iluminação desenhada por Rodrigo Belay. Mais que mera beleza estética, desempenha importante papel dramatúrgico, descortinando a ambientação lateralmente através de lâmpadas que despencam sobre o palco e criando um clima onírico de onde surge o refúgio para os sonhos e inconsciente afetivo do protagonista. Preciso também no foco e na temperatura correta modulada para cada momento, realçando ação dramática. Em minha opinião, o mais belo e contextualizado desenho de luz do ano, juntamente com aquela desenhada por Aurélio de Simone para “Meu Saba”. Chama a atenção igualmente a interação da iluminação com a cenografia proposta, aonde um fundo preto, uma mesa e uma cadeira com sua estrutura à mostra fazem parte da ambientação e responsável pelo êxito justamente da ambientação onírica e densa desenvolvida na apresentação.

Os figurinos seguem a proposta narrativa, mesmo que bem contextualizados, não se prendem a uma temporalidade previsível. Além do bom gosto estético, tem papel de contribuição para o desenvolvimento dos personagens. Mais um trabalho de referência da Artesanal, num terreno que Henrique Gonçalves domina como poucos.

A sensação ao após a apresentação de “Ludwig/2” é que fomos testemunhas de um momento teatral importante do ano, de termos presenciado acima de tudo uma manifestação teatral em toda sua pureza de espírito.

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Fotos: Jackeline Nigri.

LUDWIG/2
Dramaturgia e texto: Gustavo Bicalho
Elenco: Manoel Madeira, Suzana Castelo e Andreas Mayer (ator convidado)
Direção Artística: Gustavo Bicalho, Henrique Gonçalves e Daniel Belquer.


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