Crítica: Lugar Nenhum


 
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Foto: Sérgio de Carvalho

Por Renato Mello

É sempre um prazer receber as novas proposições teatrais da Companhia do Latão, que como no ano passado, volta a ocupar o Teatro III do CCBB com seu novo espetáculo, “Lugar Nenhum”, apresentando mais uma vez ao palco discussões sobre o arcabouço estrutural brasileiro, mas diverso do que comumente encontramos, percorrendo reflexões distantes dos lugares comuns que pautam o cotidiano nacional,  sem enclausurar-se em suas convicções, ao contrário, abrindo-as  ao complemento externo.

Não intenciono abrir este texto tecendo comparações, mas é interessante o limiar de um tempo similar ao seu espetáculo anterior, “O Pão e a Pedra”, que mergulhava nas entranhas do movimento sindical do ABC paulista com uma visão crítica de dentro para fora, que tal como “Lugar Nenhum” talvez ajudem a compreender o vazio do pensamento profundo de um Brasil que encontramos atualmente, se colocarmos a virada dos anos 70 para os 80 como um marco zero, um momento de perspectivas utópicas(indistintamente), com uma plena consciência de se vivia ali uma mudança de página da vida nacional, o início de uma ruptura de rumo para um novo destino. Só faltava um entendimento para que lado esse vento iria soprar e a compreensão da paralisia em que iríamos desaguar.

Lugar Nenhum” se estrutura a partir de textos de Tchekhov, inspirando uma dramaturgia escrita por Sérgio de Carvalho, com colaboração do elenco. A história se passa numa fazenda colonial onde uma família de artistas intelectualizados se encontra para a comemoração do aniversário do filho. Uma reunião de opostos delimitados num mesmo espaço físico. Um cineasta decadente, uma atriz de sucesso que encena uma peça de Ibsen, um músico preso durante a ditadura militar e um jornalista liberal formam o alicerce de mundos desencontrados, com demais personagens transitando como catalisadores involuntários de debates ideológicos em que uma dicotomia entre utopia e realidade se mistura aos estragos sentimentais sofridos por aqueles que exibem uma maior fragilidade. Sérgio de Carvalho explora esse sentimento de “não pertencimento” que de alguma forma acaba por atingir a todos os personagens, perdidos em suas próprias contradições e martírios, gradualmente dimensionando a atmosfera cênica, em que os questionamentos pessoais acabam sutilmente exteriorizados.

Sérgio de Carvalho ergue sua concepção sobre um tablado, alguns poucos objetos cenográficos, se destacando 2 bancos que cumprem diferentes funções cênicas, diante de um grande painel representando metaforicamente essa grande contradição que cerca o indivíduo de um período muito específico da história nacional, num mundo cercado pela opressão da mata cerrada incrustrada na Serra do Mar com a infinitude libertária do oceano em um lado oposto, na qual os personagens se encontram no meio do caminho em busca de um rumo. Os personagens restam à margem do tabuleiro armado pelo diretor na medida que as cenas avançam em subdivisões e ocupam seu espaço numa ação que vai sendo desenhada pela dramaturgia, utilizando-se da música como elemento que agrega à atmosfera pequenos impulsos íntimos aos acontecimentos, em especial de compositores marcadamente “malditos” como Sérgio Sampaio e Walter Franco, acentuando mais incertezas que convicções.

Não me pergunte/Não me responda/Não me procure/E não se esconda/Não diga nada/Saiba de tudo/Fique calada/Me deixe mudo/Seja num canto/Seja num centro/Fique por fora/Fique por dentro/Seja o avesso/Seja a metade/Se for começo/Fique à vontade

Assim como os áudios e vídeos contribuem para uma maior situação cronológica dos fatos, com ênfase no fatídico episódio da bomba do Riocentro.

Foto: Sérgio de Carvalho

Foto: Sérgio de Carvalho

O elenco é composto por Helena Albergaria, Ney Piacentini, Érika Rocha, Beatriz Bittencourt, João Filho e Ricardo Teodoro, além da atuação e parte musical conduzidas por Cau Karam e Nina Hotimski, com uma atuação coesa e em boa parte já decorrente de trabalhos anteriores da Cia do Latão, mas há que se destacar a excelente interpretação de Helena Albergaria, um atriz de muita força cênica, com capacidade de nuances e em questão de instantes modificar por completo a temperatura da cena numa personagem que de alguma forma todos os conflitos acabam por lhe respingar. Embora bem-sucedida profissional e economicamente, revela a dor d’alma do ofício cotidiano no set da grande novela nacional, como se cada dia ali vivido fosse um tiro na própria testa e ao mesmo tempo desconstruir o que supostamente seria sua essência quando afirma que “arte é um negócio repressivo pra burro”. Assim como Ney Piacentini, que encontra algo de melancólico e até mesmo patético por trás do humor e ironia que permite aflorar o fracasso artístico e intelectual do seu personagem.

Embora seja uma proposta bem distinta de “O Pão e a Pedra”, mesmo no seu alcance de dimensionar a discussão da construção dos alicerces de uma nação contemporânea, “Lugar Nenhum” alcança um relevante patamar artístico ao vasculhar na profundidade dos personagens uma reflexão sobre em que momento nos perdemos de nossas trajetórias, como cidadãos ou como indivíduos.

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SERVIÇO
Temporada de 28 de junho a 6 de agosto.
De quarta a domingo, às 19:30.
INGRESSO: R$20 (inteira) e R$10 (meia)
DURAÇÃO: 1h30.
CENSURA: 16 anos
LOCAL:  Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro
ENDEREÇO: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro.

FICHA TÉCNICA COMPLETA
Elenco: Helena Albergaria, Ney Piacentini, Beatriz Bittencourt, Érika Rocha, João Filho e Ricardo Teodoro.

Música e atuação: Cau Karam e Nina Hotimsky
Cenário: Valdeniro Paes
Figurinos: Carlos Escher
Iluminação: Sérgio de Carvalho
Assistência de Pesquisa: Mauricio Battistuci
Assistência de Direção: Maria Lívia Goes
Produtora associada: Natália Salles
Produção: João Pissarra
Dramaturgia e Direção: Sérgio de Carvalho


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