Crítica: Madame Bovary


 

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Por Renato Mello.

Um dos maiores clássicos da literatura universal recebe no Mezanino do Teatro Sesc Copacabana uma nova versão teatral. “Madame Bovary”, que conta com adaptação, tradução assinadas por Bruno Lara Resende.

Madame Bovary” é um texto que mesmo após 150 anos de sua publicação encanta e desperta a ambição de criadores de leva-lo para outras formas de comunicação artística. Muitos filmes e peças já foram feitas dessa obra, mas não há dúvida que a força dessa história continuará a desafiar outros tantos artistas a transpor e recriar uma história que tanto fascina. Como já e conhecimento geral, a história gira em torno de Emma. Jovem provinciana criada no interior da França, educada em colégio de freiras e apaixonada por livros. Iludida pelos romances, sonha uma vida com as mesmas paixões que lhe arrebatam a alma em suas leituras. Ao conhecer o médico Charles Bovary, acredita ter encontrado a chance que necessitava para realizar seus sonhos e casa-se com ele. Charles é na verdade um homem simples e sem ambições. Apaixonado por Emma, atende todos os caprichos da esposa para vê-la feliz. Emma percebe que Charles não se enquadra com a imagem que projetava para o marido sonhado e cai em profunda depressão. Passa então a procurar outros meios de viver aventuras e envolve-se com outros homens.

Logo após seu lançamento, “Madame Bovary” foi considerado imoral pelo governo francês e Flaubert processado por ofender a moral pública. O autor acabou absolvido na Corte Francesa, mas não pelos críticos puritanos de sua época. Dizem que Flaubert teria se inspirado em um romance que teve com Louise Collet, casada e mãe de uma adolescente. Quando questionado, limitou-se a responder: “Madame Bovary, c’est moi”.

2_Madame Bovary_Crédito Milton Montenegro

A adaptação de Bruno Lara Resende é bastante fiel ao texto original, optando por criar um roteiro em que a narrativa tem papel destacado. “O Argumento pode ser considerado banal, os personagens são medíocres. A força do livro não está na história. O que faz a diferença é a qualidade do texto de Flaubert – e eu decidi trazer a narrativa para o primeiro plano, para além dos diálogos”, disse Bruno no release que recebi. Essa opção na prática tem 2 lados: pelo positivo, mesmo se utilizando de elementos atemporais, consegue alcançar a atmosfera e o clima original da obra. O negativo é que esses excessos narrativos quebram um pouco o ritmo do espetáculo, deixando o texto muito explicativo e com pouco espaço para o público exercer sua capacidade imaginativa.

A concepção do espetáculo criada por Bruno e Rafaela Amado tem um tablado retangular para o desenvolvimento da história, com poucos elementos cenográficos, como duas longas mesas que vão ganhando diversas formas. Nos cantos do cenário se localizam os guarda roupas em que os atores realizam as trocas de vestuário e de personagens, local também em que os atores que não fazem parte da cena representada naquele momento ficam sentados, na condição de espectadores. Lembrou-me um pouco a concepção cênica de um belo espetáculo que vi esse ano, “A Visita da Velha Senhora”, dirigido por Silvia Monte. Mas no caso de “Madame Bovary”, utilizou um expediente similar, mas de modo diferente. “A Visita da Velha Senhora” explorava as quinas do retângulo central em que se desenrolava a encenação numa busca por ganhar mais espaço. Já nesse, Bruno e Rafaela trabalharam com as laterais, o que foi adequado em função do próprio texto e do espaço cênico mais generoso, sendo determinante para a boa movimentação em cena dos atores, com importante contribuição de Marcia Rubin, realizada com dinamismo e com um enorme ganho ao resultado final da peça.

1_Madame Bovary_Crédito Milton Montenegro

O elenco é composto por Raquel Iantas, Joelson Medeiros, Alcemar Vieira, Lourival Prudêncio e Vilma Melo. Com exceção de Raquel Iantas(Emma) e Joelson Medeiros(Charles), os demais personagens se desdobram em diversos personagens. A atuação coletiva do elenco é bem realizada, sem desníveis e mesmo os atores que interpretam vários papeis, conseguem manter uma coesa e criação bem delineada para cada um deles. Mérito do bom trabalho de Bruno Lara Resende e Rafaela Amado na direção de atores. Mesmo em face do bom trabalho coletivo, podemos destacar Joelson Medeiros. Tenho comigo que esses personagens que nada de interessante nos trazem são justamente os mais difíceis. Joelson interpreta um personagem como Charles Bovary, que em si não desperta maiores brilhos, o que acaba se tornando um interessante desafio para o ator, que encontra um tom adequado para um personagem desajeitado e limitado, resultando numa ótima atuação. Lourival Prudêncio também merece um destaque, com belas interpretações para seus diversos personagens, chamando sempre a atenção quando se encontrava em primeiro plano e com um trabalho vocal de extrema força.

O cenário de Marcelo Lipiani é composto, como já citado, por 2 mesas e com um painel ao fundo que com o ótimo trabalho de iluminação de Renato Machado vai ganhando novas cores e dando uma sensação de aumento na dimensão do espaço cênico. A boa criação musical de Antônio Saraiva tem importância na construção de várias cenas. Patricia Lambert merece também um destaque pelo risco na questão da criação dos figurinos e que são importante elemento para a atmosfera atemporal proposta.

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Montar “Madame Bovary” é sempre um enorme desafio, mas a montagem de Bruno Lara Resende e Rafaela Amado é bem realizada e mesmo que com algumas pequenas ressalvas, consegue perpetuar a força e a beleza desse texto.

Fotos: Milton Montenegro.

MADAME BOVARY
Do livro de Gustave Flaubert
Idealização, tradução e adaptação: Bruno Lara Resende
Direção: Bruno Lara Resende e Rafaela Amado
Colaboração artística: Marcio Abreu e André Lepecki

Com Raquel Iantas, Joelson Medeiros, Alcemar Vieira, Lourival Prudêncio
e Vilma Mello

Cenário: Marcelo Lipiani / Figurinos: Patricia Lambert
Iluminação: Renato Machado / Direção de movimentos: Marcia Rubin
Música: Antonio Saraiva
Direção de produção: Isabel Themudo e Cristiana Lara Resende
Produção executiva: Roberta Brisson

MEZANINO DO ESPAÇO SESC
Espaço Sesc – Rua Domingos Ferreira, 160 – 65 lugares
Copacabana – Rio de Janeiro – (21) 2547 0156

De 2 a 26 de abril – de quinta a sábado, às 21h; domingos, às 20h
Duração: 110 minutos

Na sexta, 17/4, após o espetáculo, haverá um bate-papo de Bruno com a plateia

Ingressos R$ 20 (inteira); R$ 5 (associados do Sesc) e R$ 10 (jovens de até 21 anos, maiores de 60 anos, estudantes e classe artística)

Horário da Bilheteria: de 15 às 19h para venda antecipada. Depois desse horário, venda somente para os espetáculos do dia.

Classificação etária: 12 anos – acesso para deficientes
OBS: menores de 18 anos só poderão assistir aos espetáculos acompanhados do responsável legal e com documentos de ambos.

Assessoria de imprensa VERBO VIRTUAL
Luciana Medeiros e Paula Catunda
lucianamedeiros@verbovirtual.com.br
paula.catunda@gmail.com


Palpites para este texto:

  1. Ótima crítica! Também achei inevitável a comparação com A Visita da Velha Senhora.Só que mais “classuda”,devido aos cenário e figurinos minimalistas e contemporâneos.

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