Crítica: Madrugada Suja, de Miguel Sousa Tavares


 

Conheci o trabalho de Miguel Sousa Tavares através do seu primeiro livro editado no Brasil, “Equador”. No tempo em que eu ainda escrevia em outras paragens, fiz um texto sobre esse livro falando do tamanho do prazer que ele havia me proporcionado e cheguei a mencionar o belo filme que daria. Passei a acompanhar com uma lupa Miguel Sousa Tavares, assistindo suas entrevistas, seu trabalho como jornalista e vá lá…seus romances com nossas mulheres enquanto andava por aqui.

Miguel Sousa Tavares é uma figura interessante, além de polêmica. Como comentarista político da SIC, uma das principais emissoras de Portugal, nunca fugiu da controvérsia devido a suas opiniões contundentes. Sua última polêmica que chegou aos meus ouvidos foi quando chamou o presidente português Cavaco Silva de “palhaço”, o que lhe causou alguns dissabores e inclusive um recuo posterior.

Em relação a “Equador”, cabe ressaltar que se não virou um filme, tal como sonhei, virou uma minissérie na TV portuguesa que pasmem… foi exibida aqui pela Rede Brasil dublada!  Eu que sempre achei um assinte ver filmes do Manoel de Oliveira exibidos com legendas, o que dizer de uma minissérie portuguesa exibida no Brasil com dublagem?

Após o êxito, em todos os sentidos, de “Equador”, Miguel Sousa Tavares lançou “Rio das Flores”, um bom livro, mas sem o mesmo encanto de “Equador”. Agora a Companhia das Letras lançou no mercado seu último romance “Madrugada Suja”.

Madrugada Suja” começa de maneira impactante. Três universitários e uma jovem numa madrugada em Évora regada a muito álcool e que termina numa enorme tragédia. O livro gira em torno de como o fantasma de uma noite que deveria ser varrida para debaixo do tapete volta anos depois para assombrar Filipe, o protagonista dessa história. Girando em torno de Filipe, desde miúdo numa aldeia alentejana de Medronhais da Serra, Sousa Tavares desenvolve um romance evoluindo em círculos, que vão e voltam, traçando paralelamente à vida de Filipe um painel do desenvolvimento português desde a Revolução dos Cravos em 1974 chegando aos dias atuais, mergulhando no submundo da política e da corrupção governamental, mostrando a podridão dentro da máquina burocrática de uma pequena cidade até a grande política nacional.

Madrugada Suja” soa um pouco esquemático, pronto para se tornar uma nova minissérie da SIC e a maneira como avança e recua no tempo em forma circular faz lembrar um pouco a estrutura narrativa utilizada com enorme êxito por Mario Vargas Llosa em “A Festa do Bode”, mas sem a mesma força por não conseguir despertar o mesmo interesse de forma uniforme por todos os lados e tempos narrados.

O livro é dividido e 2 partes, subdivididas em capítulos que se relacionam com os fenômenos naturais da luminosidade de um dia, como a “aurora”, o “crepúsculo”, a “alvorada”, a “noite”. Apresenta uma certa irregularidade, sendo que fatos narrados na primeira parte por vezes se tornam enfadonhos e até  mesmo desnecessários. Mas a partir do “show time” o livro ganha novo ritmo, fôlego e interesse, mesmo que por vezes algumas situações pareçam um tanto inverossímeis e que dificulta ao leitor dar crédito no que Sousa Tavares tenta lhe fazer crer.

A procuradora Maria e seu comportamento é o exemplo maior dessa inverossimilhança, com suas atitudes e comportamento facilmente contestáveis não só pelo senso do leitor, mas por qualquer rábula que se apresente(apesar de Sousa Tavares ser formado em Direito).

São os bastidores da corrupção e do submundo da política portuguesa que fazem o livro ficar por vezes eletrizante. Natural, nesse campo Sousa Tavares se sente bem à vontade e dentro do seu habitat.

Ao mencionar parágrafos acima a altercação de Sousa Tavares com o Presidente de Portugal, não houve como não me divertir com alguns um parágrafos que podem passar desapercebidos por boa parte dos leitores não afeitos à política portuguesa. Dr Luís Moraes recebe um telefonema do presidente da República:

“Ele esperou uns segundos até ouvir a voz oblíqua do presidente. Imaginou os movimentos torcidos da boca dele, enquanto falava…via-o como um enfatuado, que se referia a si próprio como ‘o presidente’, e que gostava de se demarcar dos seus pares e afirmar-se como um homem sério, face à miséria endógena dos ‘políticos’ – muito embora a sua ascensão ao topo tivesse sido toda ela feita de manobras, conspirações e jogadas meticulosamente calculadas da mais banal política. Subira sem jamais se prestar aos combates de risco, cultivando uma imagem de homem íntegro, diferente, sem vícios nem fraquezas…o presidente nunca se misturara, nunca se arriscara, nunca vira nada, nunca soubera de nada. E, quando seus próximos caíam  na lama, virava a cara para o lado e fazia um ar pesaroso, de amigo enganado”.

Apesar da irregularidade narrativa, são nessas horas que Miguel Sousa Tavares faz valer seu livro.

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