Crítica: Maia – A Lenda da Menina Água


 
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Foto: Lúcia Tavares

Por Renato Mello.

Se notabilizando nesses 10 anos por uma consistente dedicação ao teatro infantil, a Trupe do Experimento apresenta no Teatro do CCFJ(Centro Cultural da Justiça Federal) seu mais novo trabalho nesse segmento, “Maia – a Lenda da Menina Água”, sob a direção de Marco dos Anjos, em temporada até o dia 12 de junho.

Nesse novo espetáculo, a Trupe do Experimento realiza um mergulho na cultura ribeirinha para contar a história da menina Maia, cuja família tem na pesca o seu sustento. Porém, em decorrência da degradação ambiental no seu entorno, com a poluição crescente pelos dejetos despejados no rio, a cada dia a pesca se torna mais escassa, obrigando a buscas mais longínquas pelo sustento diário. Até que abruptamente o rio seca definitivamente, não tendo o pai da pequena Maia como retornar ao lar pois não há águas para navegar. Maia empreende então uma busca através dos mitos e lendas da cultura caiçara para que o rio volte ao seu estado natural e que possa reencontrar seu pai.

Maia a Lenda da Menina água (Maia e Jaci) Foto Marco dos Anjos

Uma das principais virtudes deste trabalho é o processo de desenvolvimento coletivo comandado por Marco dos Anjos com o seu grupo para que se alcançasse um resultado expressivo. Por vezes tal proposta corre o risco de caminhar por vias anárquicas caso não tenha uma supervisão presente, que só o afloramento de um processo de amadurecimento como Companhia Teatral permite a coesão do resultado final, como a intervenção continuada nesses anos de existência da Trupe do Experimento. Esse aspecto coletivo com 9 meses de imersão da equipe é percebido em “Maia” por distintas maneiras ao longo da apresentação, começando pela criação da dramaturgia, que na própria ficha técnica leva a assinatura de “Marco dos Anjos(em processo colaborativo com o elenco durante a pesquisa)”, assim como na confecção das máscaras e mesmo na direção musical.

A dramaturgia orientada por Marco dos Anjos tem a capacidade de absorver a atmosfera do universo ribeirinho, explorando sua existencialidade através de uma condução narrativa bem desenvolvida, com o acréscimo em cena de elementos musicais e sonoplásticos para a construção do seu esteio, que aproxima o público infantil com uma toada coerente às lendas e aos mitos desse universo, além de abordar temas urgentes sem utilizar-se de didatismos ou lições de moral. Justamente a partir dessa base dramatúrgica Marco dos Anjos pôde realizar com sua habitual competência a construção cênica, unindo verdade e fantasia em níveis equitativos e conduzindo seu elenco a um produtivo processo.

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O elenco é formado por Nina Krieger(Maia), Felipe Valle(Jaci), Muriel Vieira(Mãe e Iara), Samuel Paes de Luna(Pai e Boto), Stain Canidi(Uirapuru) , João Guesser e Thava Ribeiro(pescadores) , com o personagem título bem defendido por Nina Krieger, a figura central pela qual os demais personagens gravitam e  cruzam ao longo do seu percurso. A coletividade já abordada tem no processo de interpretação seu ponto culminante, com o elenco abrindo mão das vaidades inerentes ao ofício do ator em prol da construção do todo e permitindo o equilíbrio narrativo à concepção e ocupando os espaços narrativos necessários, além do suporte necessário para que Nina Krieger percorra com segurança a jornada de sua personagem. Para a complementação do processo de composição dos diversos personagens foram utilizadas máscaras confeccionadas pelo elenco, sob orientação do Atelier Gavulo, para a caracterização de personagens como o Boto, o Uirapuru, Jaci. Um aspecto importante a ser considerado na trajetória da Trupe do Experimento, é o trabalho desenvolvido por Fabricio Ligiero que em “Maia – a Lenda da Menina Água” fica ainda mais evidente, com uma direção de movimento que contribui bastante ao processo interpretativo do elenco. O elenco utiliza-se no processo de composição dos personagens o uso de máscaras confeccionados igualmente pelo elenco sob orientação do Atelier Gavulo.

Fica muito claro a aproximação dos departamentos e da maturidade coesa da Maia a Lenda da Menina água (Uirapuru)proposta, como na observação da cenografia e adereços, que levam a assinatura da própria Trupe do Experimento, complementando com significação a atmosfera criada, através da utilização de construções em tábuas, confecções em rendas e mesmo um enorme tapete construindo a ambientação com os necessários espaços imaginativos para a criação do universo caiçara, assim como os figurinos orientados por Carol Barros, que igualmente tem relevância na concepção da atmosfera, tanto na caracterização de uma realidade local, quanto para compôr um imaginário.

Um aspecto que tem me chamado bastante a atenção em vários musicais infantis é o enorme divórcio da trilha sonora com a dramaturgia, em que a música absolutamente nada acrescenta à narrativa. Porém quando se ter alguém do talento de Daniel Carneiro assinando a direção musical, as expectativas mantêm-se em níveis elevados. Mais uma vez Daniel Carneiro realiza um trabalho de extrema competência, com composições e execuções musicais que complementam significativamente a dramaturgia, assim como tem papel preponderante para que a ambientação avance em busca da essência do universo da peça. Ressaltando-se igualmente, que o elenco também contribuiu para a criação musical da apresentação.

Maia – A  Lenda da Menina Água”  é mais um espetáculo que passa a fazer parte do repertório de um dos mais prolíficos grupos de teatro infantil da cena carioca, mantendo o nível de qualidade e exigência que sempre caracterizaram a Trupe do Experimento.

Maia – A Lenda da Menina Água
Centro Cultural Justiça Federal (142 lugares). Avenida Rio Branco, 241, Centro, Cinelândia. → Sábado e domingo, 16h. R$ 40,00. Bilheteria: a partir das 14h (sáb. e dom.). Até 12 de junho.


Palpites para este texto:

  1. Veronica Lucena -

    Maravilhoso o trabalho de todos e a Nina eu nem preciso falar nada, ela é a extensão da Mamãe kkk amo as duas atrizes maravilhosas.

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