Crítica: Mantenha Fora do Alcance do Bebê


 

mantenha fora do alcance do bebê 1

Por Renato Mello.

Após uma passagem bem-sucedida em São Paulo, o espetáculo “Mantenha Fora do Alcance do Bebê” chegou ao Rio de Janeiro para uma curtíssima temporada que se encerra no próximo dia 30 de agosto.

Com direção de Eric Lenate a partir de um texto escrito por Silvia Gomez, o espetáculo segundo sua própria sinopse oficial conta a história de “Uma mulher (Débora Falabella) está diante de uma assistente social (Anapaula Csernik) enfrentando uma entrevista como parte do processo de adoção de um bebê. A certa altura, porém, as coisas fogem um pouco do controle e, como medida emergencial, Rubens (Jorge Emil), o marido da entrevistada, é convocado a comparecer ao local. Enquanto isso, um lobo selvagem (Diego Dac) acompanha, em silêncio, o desenrolar da situação”.

A carpintaria dramatúrgica concebida por Silvia Gomez possui uma complexidade que abre caminho para leituras de distintas camadas propostas em seu texto. O desenvolvimento de sua história cria uma tensão que vai gradativamente tomando conta de toda a ambientação ao mesmo tempo que as informações vão sendo disponibilizadas aos poucos, enquanto tentamos decifrar as razões pelas quais vamos sentindo um exalar de cheiro de pólvora por toda a atmosfera à medida que somos sufocados pela sequência das reações que se sucedem em cena, num local que inicialmente parecia propício apenas para um mero procedimento burocrático.

Eric Lenate utiliza com enorme habilidade a variedade de opções que a dramaturgia lhe disponibiliza para compor um embate psicológico de alto grau de complexidade, sabendo elevar o tom na medida correta, inclusive nos momentos mais agudos. Elabora sua construção cênica através de uma estética limpa, com uma ambientação que circula suavemente pelo cenário em contraste com a movimentação por vezes febril dos protagonistas, conseguindo inclusive através do silêncio alcançar uma desestabilização coletiva. Um sensível entendimento do texto, numa direção bem cuidada e que atinge o ponto alto com a direção de atores.

O elenco é formado por Débora Falabella, Anapaula Csernik, Jorge Emil e Diego Dac. São diferentes registros e necessidades para cada personagem, porém um nível de atuação uníssono. Débora Falabella tem uma das melhores atuações da cena teatral de 2015, compondo um personagem inicialmente robotizado que no decorrer da apresentação se deixa aflorar por uma humanização advinda de uma erupção que vai se exteriorizando à medida que se sente pressionada, para finalmente revelar seu verdadeiro “eu” interior. Sua intepretação está igualmente calcada nos pequenos detalhes para compor um todo, seja no jeito de andar, nas pausas, na tonalidade vocal empregada, no ritmo com que dita cada palavra em diferentes momentos e situações.  Anapaula Csernik realiza um excelente jogo cênico com Falabella, atingindo um patamar de atuação similar em sua complexidade. Atriz forte, presença e personalidades marcantes em cena, realizando uma inquisição burocrática que aos poucos vai saindo do script que está acostumada, sendo obrigada a abandonar sua zona de conforto e a barreira de proteção que a resguarda. Jorge Emil, que é chamado à cena em busca de uma estabilidade naquele estranho processo de adoção, mantém o bom nível de atuação do elenco e se expressa com bastante vitalidade através da força do seu olhar.  Diego Dac tem a tarefa ingrata de passar o espetáculo inteiro sob uma máscara de lobo, despindo-se das vaidades típicas que compõem a armadura de um ator e sem poder utilizar a força das expressões faciais e vocais, instrumentos tão importantes para um ator. Porém o ator utilizou as limitações como um desafio e consegue eficientemente demonstrar inequívoca qualidade de seu jogo corporal, além de com seu personagem contribuir bastante para manter a atmosfera sombria.

Necessário fazer ainda mais um destaque ao trabalho de Diego Dac. Segundo informações que me chegaram, a máscara utilizada limita consideravelmente sua visão em cena. O ator, em todas as apresentações chega com 2 horas de antecedência para “marcar” as distâncias do palco e mentalizar sua movimentação nele. Quem assistir verá que essa sua movimentação é parte importante da condução da dramaturgia do espetáculo.

Tecnicamente “Mantenha Fora do Alcance do Bebê” mantém as mesmas qualidades de sua criação artística. A cenografia assinada pelo próprio diretor Eric Lenate se destaca. Um telão ao fundo, ambiente clean e impessoal, que em conjunto com a iluminação de Aline Santine, que desenhou uma luz baixa em sua intensidade com um cromatismo puxado para o azulado, deixam uma permanente adrenalina para atmosfera cênica.

Belos figurinos e adequados aos perfis dos personagens, por  Rosângela Ribeiro.

Depois das várias indicações ao prêmio APCA, “Mantenha Fora do Alcance do Bebê” surge como uma das principais apostas para várias outras premiações relevantes do eixo Rio-São Paulo. Qualidades tem de sobra.

FICHA TÉCNICA
Texto | SILVIA GOMEZ
Direção | ERIC LENATE
Elenco | DÉBORA FALABELLA, ANAPAULA CSERNIK, JORGE EMIL & DIEGO DAC
Assistência de Direção | JANAÍNA AFHONSO
Figurinos e Adereços | ROSÂNGELA RIBEIRO
Cenografia e Adereços | ERIC LENATE
Assistência de Cenografia | SAULO SANTOS
Iluminação e Adereços | ALINE SANTINI
Assistência de Iluminação e Operação de Luz | GUILHERME TRINDADE
Trilha Sonora, Sonoplastia e Engenharia de Som | L. P. DANIEL
Direção de Palco | DIEGO DAC & SAULO SANTOS
Mascareiro | FÁBIO PINHEIRO
Projeto Gráfico e Vídeos | LAERTE KÉSSIMOS
Fotos de Cena, Vídeos e Documentação | LEEKYUNG KIM
Direção de Produção | RICARDO GRASSON
Produção Executiva | CÍCERO DE ANDRADE & RICARDO GRASSON
Assistência de Produção | FRANN FERRARETTO & FELIPE COSTA
Coordenação Administrativa | JOÃO NORONA (DEARO)
Assessoria de Imprensa | SILVANA CARDOSO (PASSARIM COMUNICAÇAO & MARKETING)
Realização e Produção | GELATINA CULTURAL PRODUÇÕES ARTÍSTICAS
Idealização | SOCIEDADE LÍQUIDA

SERVIÇO:
Espetáculo: Mantenha Fora do Alcance do Bebê
Estreia: 13 de agosto de 2015 (5ª feira)
Local: Espaço Sesc | Arena | Copacabana
Até: 30 de agosto de 2015
Temporada: De quarta a domingo
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana – RJ
Telefones: (21) 2548-1088 | 3816-6200
Horário: Quarta à sexta às 20h30; sábado às 18h e 20h30h; domingo às 19h
Preço: R$ 20,00 (inteira) | R$10,00 (meia) | R$5,00 (Associado SESC)
Lotação do teatro: 99 lugares
Duração do espetáculo: 60 minutos
Classificação etária: 14 anos
Horário da bilheteria: De terça à domingo, de 15h às 21h
Vendas antecipadas: Somente na bilheteria do teatro


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