Crítica: Maria!


 
Foto: Elisa Mendes

Foto: Elisa Mendes

Por Renato Mello

Singelo e sincero, entendo como os mais adequados adjetivos para definir o tributo a uma das mais emblemáticas figuras da cultura brasileira, personagem fundamental para se entender o significado de uma cidade idílica num espaço de tempo, vista por dentro de um território muito específico, quase um protetorado particular.

Nome: Antônio Maria Moraes de Araújo. Estado civil: cansado. Sinais particulares: cardispliscente. Nacionalidade: brasileiro. Profissão: esperança.

Maria!”, com dramaturgia e atuação de Claudio Mendes, direção de Inez Viana, encerrando sua temporada no mezanino do Sesc Copacabana no próximo dia 6 de maio.

MARIA-fotos-ElisaMendes-1Original de Pernambuco, Antônio Maria passou a maior parte de sua vida de Rio de Janeiro habitando  em Copacabana, testemunhando intensamente tudo o que acontecia nos seus bares, boates e restaurantes numa onipresença da boemia  que então se praticava, por sua presença na rádio e televisão, nas suas composições e na força de sua coluna de jornal, capaz de derrubar e construir reputações. Uma vida que se refletia no centro do poder, ditando o gosto da época e se tornando sinônimo do sofrer com canções que falavam dos amores proibidos, das paixões impossíveis, traições e esperas ao longo de noites sem fim. Não há como desassociar a Copacabana dos anos 50 de Antônio Maria. Reverencia-lo ajuda a entender um lugar e uma época.

 “Da guarita do Forte do Leme à guarita do Forte de Copacabana, de sentinela a sentinela, são 121 postes de iluminação, formando o ‘colar de pérolas’, tantas vezes invocado em sambas e marchinhas…cada edifício tem uma média de 50 janelas, por trás das quais se escondem, estatisticamente, três casos de adultério, cinco de amor avulso e solteiro, seus de casal sem bênção e dois entre cônjuges que se uniram, legalmente, no padre e no juiz. Por trás das 34 janelas restantes, não acontece nada, mas muita coisa está por acontecer. É só continuar comprando os jornais e esperar: eles falarão de tiroteios, assassínios, roubos, desquites e suicídios. E como se não bastasse, falta água”.

A proposta idealizada por Claudio Mendes e implementada na direção de Inez Viana não busca um trabalho de composição por parte do ator, apesar de uma leitura feita em primeira pessoa, mas uma evocação do seu significado de vida e do legado, tanto sentimental, quanto cultural de um período em que o Brasil parecia ser um lugar destinado a dar certo. Sozinho em cena, a representação de Claudio Mendes é direta, gestos simples, sem se utilizar de efeitos ou distracionismos, apenas de uma bandeja típica dos garçons dos bares cariocas como objeto cenográfico, ganhando em cena diferentes sentidos, mas principalmente a busca d’olhar e cumplicidade do espectador, como se juntos pudessem trazer para a ambientação algo de Maria, através de seus textos, suas canções e  de sua personalidade, contados como na cronologia de um dia que amanhece num quarto e sala de Copacabana, perpassando sua vida desde o colégio Marista do Recife, a chegada ao Rio, a Lapa dos anos 40 e as pessoas notáveis com que dividia suas mesas pelo Le Roind Point ou o Sacha’s, como Vinicius de Moraes, Maysa, Di Cavalcanti e a representação do trauma que a ausência repentina de Dolores Durán deixou na noite da cidade.

Foto: Elisa Mendes

Foto: Elisa Mendes

Dentro do contexto que propunha o espetáculo, o resultado é positivo. Observando como um gênero que já mostra sinais de exaustão por uma fórmula narrativa careta de biografar, “Maria!” tem o grande mérito de criar uma dramaturgia que procura outros escaninhos. Embora apresente algumas das suas canções, não se classifica como um musical, creio que “uma crônica de Maria” seja a forma mais adequada para defini-lo, em que as músicas entram como elementos que definem o caráter do personagem(“a música me desvendará durante algum tempo. A poesia explicará o mistério”), entrando em cena de diversas maneiras e prismas, como “Valsa de uma Cidade”, “Menino Grande”, “Se Eu Morresse Amanhã de Manhã”, “Frevo nº 1 do Recife”, “Carioca 1954”, “Ninguém me Ama”, “Manhã de Carnaval” e ainda a inclusão do clássico de Dolores Durán, “A Noite do Meu Bem”, sendo importante ressaltar a participação do violoncelo de Maria Clara Valle.

Em relação a ficha técnica, confesso que não compreendi bem a significação do figurino, uma sandália estilo “franciscano”, uma calça algo frouxa com um cordão e camisa social. Embora, como já referi, não buscar gestos e imagens de Maria e mesmo por sua origem nordestina, pelas referências que tenho, não consegui identifica-lo com seu universo. A iluminação de Paulo César Medeiros é precisa no sentido de uma contribuição para a exploração das nuances proposta na dramaturgia de Claudio Mendes e na direção de Inez Viana. A direção musical de Ricardo Góes alcança a amplitude de intenções e mantém-se na altura adequada da atmosfera imposta.

Maria!” é um espetáculo despretensioso, que abre mão de artificialismos para criar um eficiente canal de comunicação na busca por um tempo de nostalgias, mesmo para quem não os viveu.

UPDATE 29/04/2018 – 20:25.

Em relação ao meu questionamento sobre a opção do figurino, deixo as explicações mais que fundamentadas expostas por Claudio Mendes, deixando expresso meu agradecimento.

...tomo a liberdade de te copiar dois pequenos trechos da biografia do Maria escrito pelo Joaquim Ferreira dos Santos – que aliás é leitura deliciosa e imperdível pra quem curte Maria – onde ele descreve duas situações do Maria em que nos baseamos para decidir sobre o figurino:
“Antonio Maria, com as calças amarradas por um barbante, cumprimenta Didu de Souza Campos, um dos dez mais elegantes da alta sociedade,”

“O fato de estar de alpargatas e o colarinho seboso eram detalhes de somenos. Todos queriam estar ao lado de sua conversa viva, charmosa. Maria vestia London Taylor’s no papo.”

Estes dois trechos definem muito sobre a personalidade do Maria, sua irreverência, sua personalidade muito livre e debochada. A escolha da roupa se define por aí, mas também porque o Flávio Sousa, nosso figurinista, é também ator e clown (faz um trabalho precioso junto aos Doutores da Alegria) e viu nesta irreverência um quê de clownesco. Achei ótima essa compreensão: “O clown é por definição a exposição do ridículo e das fraquezas de cada um. Logo, ele é um tipo pessoal e único. O clown não representa, ele é. Não se trata de um personagem, ou seja, uma entidade externa a nós, mas da ampliação e dilatação dos aspectos ingênuos, puros e humanos de nosso próprio ser. François Fratellini, membro de tradicional família de clowns europeus, dizia: “No teatro os comediantes fazem de conta. Nós, os clowns, fazemos as coisas de verdade.”

Espero ter esclarecido a você nossa opção pelo figurino.

P.S.: Mais que esclarecido, Claudio. Muito obrigado!

 

Ficha Técnica
Autor: Antônio Maria
Dramaturgia: Claudio Mendes
Direção: Inez Viana
Elenco: Claudio Mendes
Instrumentista: Maria Clara Valle
Assistente de Direção: Marta Paret
Direção Musical: Ricardo Góes
Iluminação: Paulo César Medeiros
Figurino: Flavio Souza
Produção: Barbara Montes Claros
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Programação Visual: Silvana Andrade
Fotos e Vídeo: Elisa Mendes
Mídias Sociais: Rafael Teixeira
Realização: J.R. Mac Niven Produções Ltda.

Serviço
Local: Mezanino do Sesc Copacabana – Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro
Informações/tel.: 2547-0156
Temporada: 12 de abril a 6 de maio
Dias: Quinta a sábado às 21h e domingo às 20h
Ingressos: R$ 7,50 (Associados do SESC) e R$ 30,00 (casos previstos em lei pagam meia)
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 70 minutos
Lotação: 80 pessoas

Atendimento à Imprensa
Ney Motta | contemporânea comunicação
assessoria de imprensa


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