Crítica: Marrom – Nem Preto, Nem Branco?


 
Foto: Arthur Vianna

Foto: Arthur Vianna

Por Renato Mello.

A conjunção de acertos em seus diversos elementos fazem de “Marrom – Nem Preto, Nem Branco?” uma grata opção de teatro infantil na atual temporada. O espetáculo está em cartaz na arena do Sesc Copacabana até o dia 14 de agosto.

Com direção de Marcelo Alonso Neves a partir de texto escrito por Renata Mizrahi, “Marrom – Nem Preto, Nem Branco?”  é um projeto idealizado por Piéterson Duderstadt e Vilma Melo, inspirado na experiência pessoal de Lorena de Melo Schaefer. Conta a história de Linda(interpretada pela própria Vilma Melo), filha de pai alemão(Leandro Castilho) e mãe negra(Ana Paula Black), investigando suas próprias referências a partir da miscigenação oriunda de suas origens raciais e culturais. Sua sinopse desenvolve-se a partir dos apontamentos desconcertantes vivenciados pela protagonista, que foge de casa e também de seus conflitos internos em busca de um mundo onde consiga inserir-se. Porém, como toda fuga, muitas aventuras espreitam seu percurso.

Um dos grandes trunfos do espetáculo reside no desenvolvimento original de como aborda a questão da pluralidade cultural e racial, sem precisar apelar para “psicologismos” ralos desde que a palavra “bullying” passou a fazer parte ativa de nosso vocabulário nos anos 90 e se tornou uma temática monocórdia no teatro infantil(basta abrir o Rio Show na 6ª feira e verificar nas sinopses dos espetáculos infantis a quantidade de peças que se utilizam dessa expressão).

Após 3 anos de ausência, o ano de 2016 volta a ter a presença de uma das mais destacadas criadoras desse segmento. Depois de “Ludi na Revolta da Vacina” no 1º semestre, Renata Mizrahi traz com “Marrom – Nem Preto, Nem Branco?” uma composição narrativa fluída, abordando com leveza, mas sem perder o aspecto agudo, questões presentes no nosso entorno. São pequenas cenas cotidianas inseridas na dramaturgia que dão contornos que, talvez para quem a temática racial não toque diretamente, não tenha o dimensionamento de como situações às vezes ditas com aparente despretensão tenham um efeito profundo. São cenas que todos de algum modo já testemunhamos de gestos racistas que se manifestam em movimentos rotineiros. Com sutilizas Renata Mizrahi consegue aprofundamento e comunicabilidade direta com o público alvo da peça, atingindo zonas sensíveis de uma discussão necessária para um público que está em plena formação dos valores que nortearão suas vidas. Mas a autora igualmente não abre mão de elementos que valorizam o resultado final, explorando a fantasia e todo o aspecto lúdico de sua narrativa.

Posso estar equivocado na informação, mas me parece ser o primeiro trabalho de direção de Marcelo Alonso Neves. Trata-se de um dos mais competentes diretores musicais de nossa cena teatral, que somente entre os trabalhos mais recentes podemos citar “Entregue Seu Coração no Recuo da Bateria”, “Como me Tornei Estúpido” e “Amargo Fruto”. Léguas de ser um neófito em teatro infantil, basta lembrar ótimos espetáculos como “A Pequena Vendedora de Fósforos” e “O Pequeno Autor”, Marcelo Alonso Neves assume uma direção que aproveita com bastante competência as oportunidades esparramadas ao longo do texto de Renata Mizrahi para compor boas cenas e ilustrar a narrativa com soluções interessantes que preenchem o espaço da dinâmica narrativa. Constrói uma boa movimentação no espaço físico do teatro de arena e acima de tudo, explora com grande competência o excelente elenco que tem à sua disposição.

Um dos aspectos mais encantadores do espetáculo reside exatamente no seu elenco formado por Vilma Melo, Maycon Marcondes, Ana Paula Black, Leandro Castilho e Maíra Kestenberg. Vilma Melo é responsável pelo papel protagônico, exprimindo com acerto tanto a crise de identidade e as buscas interiores de Linda, quanto a zona de humor, sabendo equilibrar as diferentes necessidades inerentes a sua personagem, resultando numa atuação de muito bom nível. A mera presença de Leandro Castilho já é garantia para qualquer espetáculo, trata-se de um admirável ator e multi-instrumentista. Explora com enorme acerto sua capacidade corporal e humorística. Maíra Kestenberg já havia me impressionado positivamente em um outro espetáculo infantil, “A Casa Bem Assombrada”. Mas uma vez encantou-me sua atuação, demonstrando grande expressividade e presença de cena. Ana Paula Black representando a mãe tem atuação correta e contextualizada dentro das necessidades dramatúrgicas. Maycon Marcondes, em similitude com o registro de Leandro Castilho, também se destaca pela expressão corporal e a exploração do humor.

A direção musical de Marcelo Alonso Neves tem a capacidade de complementar e contribuir para o desenvolvimento narrativo, dando um real acréscimo dramatúrgico.

Cenografia e figurinos tem assinatura de Carlos Alberto Nunes, que explora e brinca com os contrastes das cores, bem contextualizados dentro da proposta. A iluminação de Binho Schaefer atua com correção dentro das necessidades dramatúrgicas.

Marrom – Nem Preto, Nem Branco?”, mais um texto de qualidade assinado por Renata Mizrahi e que ganha com a direção de Marcelo Alonso Neves uma montagem consistente e competente. Mais além de um ótimo espetáculo, é absolutamente oportuno.

Serviço
MARROM – NEM PRETO, NEM BRANCO?
Arena do Teatro Sesc Copacabana
End. Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana – Rio de Janeiro – RJ
Tel.: 2548-1088 | 2547-0156
Funcionamento da bilheteria: Terça a domingo, 15h às 21h
Estreia dia 16 de julho
Temporada até 14 de agosto
Sábados, às 11h e às 16h | Domingos, às 11h
Classificação: Livre
Recomendado para crianças a partir de 6 anos de idade
Lotação: 250 lugares
Duração: 60min
Ingressos: R$20,00 (inteira) | R$10,00 (meia) | R$5,00 (associados do Sesc)

FICHA TÉCNICA
Texto: Renata Mizrahi
Direção: Marcelo Alonso Neves
Direção de Movimento e Assistente de direção: Ana Paula Bouzas
Elenco: Vilma Melo, Maycon Marcondes, Ana Paula Black, Leandro Castilhos e Maíra Kestenberg
Consultoria de Conteúdo: Cristina Lopes
Iluminação: Binho Schaefer
Direção Musical: Marcelo Alonso Neves
Cenógrafo e Figurinista: Carlos Alberto Nunes
Cenógrafa e Figurinista Assistente: Arlete Rua
Confecção de Cenário: Marco Souza e Patricia Rodrigues
Pintura de Arte: Derô Martin
Confecção de Figurinos: Kátia Salles, Suely Gherard e Nilssy Maldonado
Programação Visual: Alexandre Muner
Fotografia: Arthur Vianna
Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação
Direção de Produção: Piéterson Duderstadt
Elaboração de Projeto: Janaína Santos, Piéterson Duderstadt e Vilma Melo
Gestão Administrativa e Financeira: Pedro Almeida e Naiara Cavalheiro
Equipe de Produção: Piéterson Duderstadt, Naiara Cavalheiro, Maycon Marcondes e Vilma Melo
Idealização: Piéterson Duderstadt e Vilma Melo
Realização: Cia da Cidade


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