Crítica: Mas de tal modo se aprende a viver com o tanto que falta


 

21728105_1619368781435995_5471873288846081661_n

Por Renato Mello

Em cartaz no Teatro Café Pequeno, o espetáculo “Mas de tal modo se aprende a viver com o que tanto falta”, com texto e direção de Alessandra Gelio, entra em sua fase final de temporada com encerramento previsto para o próximo dia 27 de setembro.

Representa a 3ª parte de uma trilogia que se iniciou com “Da Carta ao Pai – Ou tudo aquilo que eu queria de dizer” e posteriormente “Se eu fosse Sylvia P”, com propostas que embora independentes, se interligam pelo permear tanto ficcional quanto confessional pela maneira como cria dessa simbiose, um híbrido dramatúrgico pessoal. Inspirado em Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e Anais Nin, “Mas de tal modo se aprende a viver com o tanto que falta”, trata das relações humanas a partir do encontro de duas mulheres, despindo ao público regiões extremamente íntimas da afetividade que vão mais além que a sugestão de sua sinopse oficial: “fragmentos de diferentes histórias são revelados, enquanto uma mulher tenta sobreviver a uma doença crônica que pode levá-la à morte”.

A dramaturgia de Alessandra Gelio enverga uma amplitude experimental desmembrada, porém  intensa, em diferentes possiblidades: mãe e filha, autora e personagem, faces conflitantes e complementares de um reflexo no espelho. Seu universo autoral vasculha a complexidade dos pequenos atos e ações inconscientes dos personagens a partir da perda ou sua mera possibilidade, com o dilaceramento d’alma diante das limitações de se conviver com o vazio e de certo modo, revelando a dimensão existente na fragilidade humana, mas sempre optando pelo enfrentamento dos desvãos emocionais. Longe de se fechar em hermetismos, a dramaturgia de Alessandra Gelio pede do espectador uma predisposição para absorver as intenções com que desenha as palavras e os gestos, sempre com sutileza para o encontro de uma ternura mesmo quando situa-se em zonas mais ásperas.

O primeiro aspecto que chama a atenção na direção de Alessandra Gelio é o apuro estético com que preenche cenicamente a narrativa, algo que também esteve muito presente em “Se eu Fosse Sylvia P”. Sem esterilidade na sua concepção, espaços bem demarcados formando composições que aprofundam as significações dramatúrgicas por uma cenografia(assinada por Daniel de Jesus) que reparte o ambiente físico por persianas, como que abrindo possibilidades ou mesmo ocultando-as na iluminação de Renato Machado e na geometria “aceptiva” do figurino(Tiago Ribeiro). Ainda dentro do processo de concepção cênica, a participação da violoncelista Maria Clara Valle contribui positivamente na gradação de intenções implícitas no roteiro.

O elenco formado por Alessandra Gelio e Mônnica Emilio realiza um eficiente trabalho a 4 mãos, como uma ação e reação diante do enorme vazio que o turbilhão emocional revolve incondicionalmente os personagens, com um produtivo uso do instrumento corporal e na movimentação(méritos para a direção de movimentos de Mônnica Emilio) para o descarregar emocional. Encanta em particular a maneira como Alessandra Gelio dita o ritmo de suas falas, embebendo de significações seus gestos, a respiração e mesmo os silêncios, vitalizando a profundidade enternecedora de seu(s) personagem(ns).

Mas de tal modo se aprende a viver com o tanto que falta” complementa uma trilogia delicada e de extrema complexidade, que flerta permanente risco, mas que a sensibilidade do texto de Alessandra Gelio impulsiona-lhe a bom termo artístico.

Ficha Técnica:
Direção e dramaturgia: Alessandra Gelio

Elenco: Alessandra Gelio e Mônnica Emilio

Iluminação: Renato Machado
Cenografia: Daniel de Jesus
Figurinos: Tiago Ribeiro
Direção de movimento: Mônnica Emilio
Trilha original e musicista: Maria Clara Valle
Direção de produção: Rafael Fleury
Assistência de direção: Dani Rougemont
Colaboração artística: Yasmin Garcez
Operação de luz: Pedro Thimoteo
Fotógrafo still: Serginho Carvalho
Programação visual: Daniel de Jesus
Realização e idealização: Alessandra Gelio

Serviço:
Estreia: 05 de setembro de 2017
Temporada: de 05 a 27 de setembro
Horário: Terças e quartas, às 20h.
Local: Teatro Municipal Café Pequeno – Av. Ataulfo de Paiva 269, Leblon (Tel.: 2294-4480)
Preço: R$ 40,00 (inteira) / R$ 20,00 (meia)
Capacidade: 90 lugares
Gênero: Drama
Duração: 80 minutos
Classificação: 14 anos


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

outubro 2017
D S T Q Q S S
« set    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031