Crítica: Memórias de Adriano


 
Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

Por Renato Mello.

Encerra neste fim de semana a temporada do espetáculo “Memórias de Adriano”, no Espaço Sesc e sob a direção de direção de Inez Viana. Apesar de perder um pouco da função crítica pelo fato de tê-lo assistido somente na sua última semana, por minha exclusiva responsabilidade, creio ser importante deixar um registro devido a sua relevância na atual temporada teatral carioca.

Projeto idealizado por Felipe Lima, “Memórias de Adriano” é uma transposição muito bem-sucedida da literatura para os palcos teatrais da obra homônima(“Mémoires D’Adrien” no original) escrita em 1951 pela escritora belga Marguerite Yourcenar e considerado por muitos círculos acadêmicos como um dos 100 livros mais importantes do século XX. Escrita como se autobiografia fosse, em que o Imperador romano Adriano(76 D.C. 138 D.C.) escreve uma carta-testamento endereçada ao seu sucessor Marco Aurélio relembrando não somente sua vida e sucessos militares, mas revelando um pouco a engrenagem sociedade romana através das revelações conjugais, desejos, campanhas militares, viagens e discussões filosóficas.

A densidade dessa obra não permite brechas confortáveis para quem persiste no desafio de adaptá-la. Tereza Falcão trilhou o percurso do monólogo para o desenvolvimento de sua narrativa e se expôs consideravelmente aos riscos, ao contrário de outras recentes adaptações, que tive notícias, optando em sua grande maioria numa sustentação mais ampla, como a realizada por Jean Petrément no Festival de Avignon de 2014 que se estruturou a partir da representação de 4 personagens. A adaptação de Tereza Falcão, apesar de todos os riscos, é brilhante! Seu texto é limpído, fluído e ganha na intepretação de Luciano Chirolli uma récita precisa, que detalharei mais adiante. Tereza Falcão soube extrair o substancial e o relevante, dando um suporte de grande valor para o desenvolvimento cênico desenhado por Inez Viana.

Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

Num monólogo o jogo entre ator e diretor tem uma intensidade superior a um espetáculo clássico pela necessidade de uma interseção mútua entre ambos na construção cênica. Esse aspecto é muito perceptível em “Memórias de Adriano”. Inez Viana criou toda uma representação cênica para que a forte presença física de Luciano Chirolli dominasse toda a ambientação. O espetáculo já se inicia sob o signo da pulsão do ator. Ao entrarmos na sala de teatro nos deparamos com seu corpo inerte numa banheira, enquanto vamos desatentamente nos acomodando e vagueando por nossas perspectivas, até que imperialmente Adriano se levanta e caminha ferozmente até o limite extremo ator/espectador para expressivamente requisitar, ordenar, implorar ajuda de qualquer um de nós extrair-lhe a vida. O público petrifica-se já nesse primeiro movimento diante da contundência, da expressividade do seu olhar, da imposição de sua voz. Sua capacidade interpretativa absoluta, aliada com a fluência da direção de InezViana mantém a eloquência da representação durante toda sua duração, aliada com uma base dramatúrgica que faz o público embeber cada palavra recitada por uma intensão extravasada e gestos eloquentes. A tonalidade vigorosa acaba por revelar a humanidade de um personagem diante da iminência da morte, contemplando a possibilidade do suicídio ao mesmo tempo que sente a alma lentamente abandonar seu corpo.  Pela exigência física que um monólogo cobra do seu ator, a presença do preparador corporal é determinante e nesse quesito é necessário tecer elogios ao trabalho de Márcia Rubin, explorando com precisão a expressão corporal de Luciano Chirolli e contribuindo decisivamente para sua ótima atuação.

A movimentação de Luciano Chirolli pelo espaço físico tem um sentido cênico muito definido e as intervenções do músico Marcelo H acrescentam positivamente numa condução narrativa que juntamente com outros elementos, como a utilização do microfone, a canção de Sérgio Endrigo e a  quebram propositalmente todo um aspecto representativo pré-definido e uma conotação puramente histórica.

Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

A atmosfera concebida por Inez Viana define-se também nessa proposta da busca de um anti-sentido a partir da cenografia de Aurora dos Campos. Uma banheira em posição central que serve como o principal eixo cênico, uma cadeira, o posicionamento dos elementos musicais e um painel ao fundo repleto de radiografias com a função de ressaltar a decrepitude inevitável do ser humano independente de sua “divindade”. A iluminação de Tomás Ribas tem a capacidade de destacar positivamente as intenções narrativas com a criação de uma luz que tempera a ambientação para as intenções narrativas. O figurino de Juliana Nicolay tem correta adequação dentro da proposta apresentada.

Apesar de finda sua temporada carioca, “Memórias de Adriano” tem excelentes qualidades que lhe credenciam a permanecer em atividade por um bom tempo pela cena teatral brasileira. Um trabalho de alta relevância artística.

Memórias de Adriano SP © Renato Mangolin 017

FICHA TÉCNICA
Idealização: Felipe Lima
Adaptação Dramatúrgica: Thereza Falcão
Direção: Inez Viana
Diretora Assistente: Marta Paret
Elenco: Luciano Chirolli
Músico: Marcello H
Direção de Produção: Mariana Serrão
Cenografia: Aurora dos Campos
Iluminação: Tomás Ribas
Trilha Sonora: João Callado e Marcello H
Figurino: Juliana Nicolay
Arte Gráfica: Flavio Albino
Fotos: Daryan Dornelles
Preparação Corporal: Márcia Rubin
Assessoria de Imprensa: Bianca Senna e Paula Catunda
Consultoria Histórica: Claudia Beltrão
Produção Executiva: Arilson Lucas
Assistência de Produção: Carlos Darzé
Assistência de Figurino: Camila Cunha
Estagiária de Produção: Luiza Martinez
Gestão das Leis de Incentivo: Natália Simonete
Realização: Sevenx Produções Artísticas e A Coisa Toda Produções


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

outubro 2018
D S T Q Q S S
« set    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031