Crítica: Meu Nome é Ernesto!


 

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Por Renato Mello.

4-estrelas12Se encontra em cartaz nesse momento uma pequena preciosidade que merece atenção especial por parte de quem ama o teatro na sua essência e para quem aprecia belas interpretações. Estou me referindo ao espetáculo “Meu Nome é Ernesto!”, que está em temporada até o dia 21 de setembro no Sesc Casa da Gávea.

Meu Nome é Ernesto!” é uma livre adaptação do texto “I’m Herbert”, do dramaturgo norte-americano Robert Anderson. O texto original é uma das 4 peças de “one act comedies” da série  “You Know I Can’t Hear You When the Water’s Running” e que foi encenada pela primeira vez em 1967 no Ambassador Theatre de Nova York,

Essa adaptação em cartaz na Casa da Gávea foi encenada por Felipe Fagundes e tem a interpretação de Arthur Ienzura e Jéssika Menkel. Dois jovens atores que têm o desafio de interpretar um casal de idosos às voltas com as traições que a memória lhes impõe, criando uma enorme miscelânea de confusões sobre épocas, lugares, nomes e histórias, em que fica impossível saber o que é fato real ou mera confusão mental, mas sem jamais perder o humor.

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A partir de um apartamento decadente, móveis simples, ao som do pio dos pássaros entramos em contato com o universo desses 2 seres, na faixa dos 80 anos, com um passado repleto de amores e emoções, que se encontram nessa altura da vida tendo apenas um ao outro, num retrato de uma velhice desamparada, seja nos vínculos familiares ou mesmo financeiro. Nesse relacionamento a 2 é que se vive um jogo, por vezes sádico, sarcástico, competitivo, mas também afetivo.

Não resta dúvidas que o grande desafio imposto é a diferença etária entre os atores e seus personagens. Para isso Arthur Ienzura e Jéssika Menkel se submetem a 4 horas diárias de maquiagem para a composição física. Nesse aspecto é necessário dar crédito a criação da maquiagem assinada por Vitor Martinez, em que mesmo num teatro como o da Gávea, em que o público fica por vezes quase que literalmente dentro do palco, é possível notar a perfeição nos pequenos detalhes, seja num olho, nas mãos, nada escapa ao capricho da maquiagem.

Mas a questão da maquiagem acabaria passando por supérfluo, apesar da generosidade com que os atores se entregam a esse ritual diário, se a composição dos personagens se contentasse com esse aspecto. Por si só não basta para se atingir a necessidade que os personagens exigem para dar alma a esses 2 velhinhos. Para a veracidade e profundidade é necessário muito mais. Para começar “Meu Nome é Ernesto!” é um exercício de coragem para Ienzura e Menkel. É o típico espetáculo em que os atores estão permanentemente na corda bamba, que basta não se atentar para um simples elemento de equilíbrio para se esborrachar no chão.  Ienzura e Menkel fazem acima de tudo um primoroso trabalho de expressão corporal e vocal. Diante da simetria e profundidade do texto, em que cada palavra precisa ser medida na sua intensidade, a perfeita harmonia de atuação entre os atores é fundamental para o equilíbrio. Nesse aspecto entra a sensível direção de atores de Felipe Fagundes, que conseguiu nivelar as atuações, encontrar um tom comum sem que um não se sobreponha ao outro, com o cuidado para que tudo não soe falso ou caricatural.

Jéssika Menkel é uma atriz que me impressionou bastante. Além de todas as qualidades acima destacadas em sua atuação, consegue imprimir um timing de comédia que consegue ao mesmo tempo encontrar a graça e o humor, sem em nenhum momento perder a delicadeza e a sutileza. Uma atuação excepcional que nos enche de entusiasmo por estarmos diante de uma atriz com tantos recursos e talento. Tinha escutado antes do espetáculo alguns elogios a Arthur Ienzura e pude verificar o quanto eles eram justos. Forma com Jéssica uma dupla com uma atuação no mais alto nível.

Poucas coisas me dão mais prazer que entrar despretensiosamente num teatro e assistir a um lindo espetáculo, afinal não é todo dia que temos a nossa disposição um belo texto interpretado com tanta sensibilidade.

10538405_815681161816982_6496327504458846598_nFicha Técnica:
Direção: Felipe Fagundes
Elenco: Arthur Ienzura e Jéssika Menkel
Figurino e Caracterização: Daniele Gabriel e Isabel Lima Leite
Criação de Maquiagem: Vitor Martinez
Cenografia: Vanessa Alvez
Iluminação: Airton Silva
Preparação Vocal: Natalia Fiche
Preparação Corporal: Wanja Bastos
Direção de Movimento: Isabel Chavarry
Design gráfico e Fotografia : Karla Kalife
Operação de Som: Marina d’avila
Operação de Luz: Vanessa Alves
Assessoria de Imprensa: Breno Procópio


Palpites para este texto:

  1. Assisti a peça essa semana e também gostei muito!Ri e me emocionei.

    • Essa peça, Gabriel, tem essa capacidade de nos fazer rir e ao mesmo tempo tem uma profundidade que nos faz refletir sobre uma série de aspectos da vida, como a solidão, a velhice e o desamparo.

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