Crítica: Meu Saba


 

Meu Saba (96)_FotoOlívia D'Agnoluzzo_LR

Por Renato Mello.

Um longo e lento processo para o encaminhamento de uma real negociação de paz é esfacelado numa questão de segundos. Dois tiros.  Através de um ato que só a bestialidade humana é capaz de produzir, o Primeiro Ministro israelense Yitzhak Rabin é assassinado. “Meu Saba”, em cartaz no Centro cultural Sérgio Porto não fala do mártir, da figura pública inatingível, mas do homem Yitzak Rabin através do olhar amoroso de sua neta Noa.

Meu Saba” é um monólogo com a direção de Daniel Herz a partir o livro “Em Nome da Dor e da Esperança”, escrito por Noa Bem-Artzi Pelossof, neta do ex-primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin, adaptado para o teatro pelo próprio Daniel juntamente com Clarissa Kahane e Evelyn Disitzer, interpretado pela própria Clarissa Kahane.

Saio um pouco do universo da arte e peço licença para um breve parágrafo sobre política internacional sob minha ótica pessoal e sem pretensões de escrever nenhuma verdade absoluta:

O assassinato de Yitzhak Rabin significou o fim de uma era para os utópicos e românticos(como eu era). Noa questiona durante o espetáculo sobre nossa lembrança do momento em que soubemos de sua morte. Recordo-me que meu primeiro pensamento foi relacionar o fato com algum grupo terrorista, o Hamas ou coisas do gênero. A grande surpresa foi quando se constatou que o autor era um israelense radical e contrário ao processo de paz. A partir daqueles 2 tiros tudo desmoronou. Eu ainda acreditava que Shimon Peres teria força para levar adiante o legado de Rabin. Mas o radicalismo ganhou corpo, inclusive dentro da política israelense, abrindo espaço para grandes críticos de todo o processo como Benjamin Natanyahu e Ariel Sharon. A partir dali, 20 anos se passaram e tudo se perdeu. Morreu Rabin e o processo de paz se foi com ele.

Voltemos ao espetáculo:

Meu Saba” se passa dentro da cabeça de uma jovem de 19 anos, Noa. Designada para fazer o discurso em nome da família em meio as principais autoridades do planeta durante o funeral do seu avô. No curto espaço físico entre sua cadeira e o palanque, um turbilhão de sentimentos e lembranças se passam por sua cabeça, parecendo fazer o tempo parar durante os 30 segundos daquele pequeno percurso. Noa terá que atravessar o abismo de interrompe o caminho antes sedimentado que começa a se esfacelar, tanto de sua vida, quanto do País.

Meu Saba (131)_FotoOlívia D'Agnoluzzo_LR

O monólogo é uma forma de representação teatral que tem suas particularidades e caprichos, em que é necessária uma enorme simbiose entre a dramaturgia, direção e interpretação, que não permite erros e aonde não há rede de proteções para abafar possíveis falhas. Um erro de avaliação ou concepção e está preparado o desastre. Felizmente não é o caso de “Meu Saba”, em que esses 3 elementos são realizados com enorme sensibilidade e  correção.

A dramaturgia desenvolvida por Daniel Herz, Clarissa Kahane e Evelyn Disitzer é concebida de modo vertiginoso e criando sólidas pontes para o trabalho de direção de Daniel e a atuação de Clarissa.

Daniel Herz trabalha com uma série de conceitos que se fortalecem e vão adquirindo vários sentidos durante o espetáculo, num trabalho em que as colaborações de Bia Junqueira na cenografia e de Aurélio di Simoni na iluminação ganham uma relevância ainda maior do que já teriam naturalmente. Os painéis brancos que cercam todo o espaço cênico ganham uma iluminação azulada, abarcando o teatro numa abstração da bandeira de Israel, que é entrecortada nos momentos mais tensos e dramáticos dos pensamentos de Noa por uma iluminação avermelhada derramando no cenário todo o simbolismo do sangue sobre a nação. Todo o tablado é ocupado por tijolos que vão formando diferentes desenhos, representações, que podem ser interpretados de modo tanto conotativo quanto denotativo. Do longo caminho até o palanque, aos estilhaços deixados pelo palco, até ao fundo uma formação que podem simplesmente ser os tijolos que constroem a paz ou quem sabe, uma representação de um conjunto habitacional em territórios ocupados. Herz deixa seus pensamentos pessoais, mas igualmente abre caminhos para o espectador realizar os mais amplos voos.

Após 30 segundos, passados em tempo real em1 hora de duração, Noa alcança o microfone, que enquanto tudo em sua volta remete à guerra e ao ódio, tudo que ela quer é expressar uma declaração de amor.

Clarissa Kahane tem atuação com alta voltagem emocional, densa, com uma excelente movimentação e dinâmica em cena(importante ressaltar o trabalho de Duda Maia na direção de movimentos). A paixão de neta pelo seu avô está plenamente presente no olhar de Clarissa, um personagem que acaba virando uma metáfora de um país, desabando  e se descontruindo diante de uma tragédia. Brilhante atuação de Clarissa Kahane.

O figurino de Antonio Guedes remete a um modismo típico dos anos 90, adequado na proposta e ajuda a contextualizar o período em que se passam os acontecimentos.

Nesses primeiros 4 meses de 2015 já pude ver muitas peças, umas 60. Uma pequena parcela posso qualificar como excelente. “Meu Saba” é uma delas. Não posso afirmar que foi a melhor que assisti, mas com certeza foi a que mais me emocionou. “Meu Saba” é assim mesmo, emoção do início ao fim em que Noa compartilha conosco o mais puro e belo amor por seu avô(seu saba).

Fotos: Olivia D’Agnoluzzo.

FICHA TÉCNICA
Direção: Daniel Herz
Elenco: Clarissa Kahane
Autoria: Noa Ben Artzi-Pelossof
Adaptação: Clarissa Kahane, Daniel Herz e Evelyn Dizitzer
Direção de Produção: Miguel Colker
Consultoria Dramatúrgica: Evelyn Disitzer
Diretor Assistente: Wendell Bendelack
Assistente de direção: Carol Santarone
Iluminação: Aurélio Di Simoni
Cenografia: Bia Junqueira
Figurino: Antonio Guedes
Música: Antonio Saraiva
Direção de Movimento: Duda Maia
Assistente de cenografia: Zoé Martin-Gousset
Assistente de figurino: Adriana Lessa
Design: Luisa Henke
Fotos: Pedro Fulgencio – Frito Studio
Comunicação: Rodrigo Schuwenk
Programação Visual: João Suprani e Ana Seno
Produção: Henrique Botkay
Coordenação de Produção: Agatha Santos
Produção Executiva: Rodrigo Wodraschka
Coprodução: Albert Saadia
Assistente de administração: Marcelo Bento
Produção Geral: Araucária
Idealização: Clarissa Kahane e Miguel Colker

SERVIÇO
“MEU SABA”
Local: ECM Sérgio Porto (Rua Humaitá, 163 – Rio de Janeiro)
Temporada: 17 de abril a 30 de maio
Dias e horários: Sexta e sábado, às 21. Domingo, às 20h
Capacidade: 130 lugares
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 60 minutos.

Mais informações
Paula Catunda
paula.catunda@gmail.com
Bianca Senna
bianca@astrolabiocom.com.br


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