Critica: Minotauro, Fábula Musical


 
Foto: Júlia Rónai

Foto: Luciano Oliveira

Por Renato Mello.

A figura do Minotauro é um dos mais fortes mitos que carregamos desde a infância em nosso inconsciente coletivo, despertando sentimentos paralelamente opostos em intensidade entre o temor e a fascinação. Desassociar Monteiro Lobato da origem dessa popularização é impensável desde o lançamento de seu livro “O Minotauro” em 1939 aonde insere todo seu universo particular dentro da história clássica através de uma comunicação direta, clarificando para um público em plena formação temas diversos do conhecimento, como artes, costumes e toda a influência da civilização grega na nossa sociedade.

O Grupo Mosaicos, que tem em suas premissas artísticas a junção da história, música e teatro para compor uma proposição narrativa original e autoral, lança um conceito sobre o mitológico ser com cabeça de touro sobre um corpo de homem. Importante ressaltar que se trata de uma visão particular sobre essa mitologia e em nenhum momento abarca algum tipo de suporte na obra de Monteiro, tentação que vencida é de grande mérito em se tratando de teatro infantil, dado que infelizmente a usurpação da obra alheia ocorre em escala considerável e evitando assim trilhar por vias cômodas.  A autora Luciana Zule se confessa influenciada pelos episódios televisivos do Sítio do Picapau Amarelo, assim como eu fui, mas aponta no programa do espetáculo: “Fiquei doida para trazer esta história para o teatro e contar a experiência de ter  um Minotauro só meu”. Assim foi feito, “Minotauro, Fábula Musical” é de fato um Minotauro avindo de seu olhar.

Minotauro, Fábula Musical” estará em cartaz somente até o próximo dia 11 de setembro no Teatro Carlos Gomes, voltando a se apresentar proximamente na Cidade das Artes, Barra da Tijuca.

Maria Coelho (Agabo)_Luciano Oliveira

Foto: Luciano Oliveira

Segundo aponta sua própria sinopse oficial, “Agabo, um jovem retratista da Ilha de Creta, prepara-se para participar de um concurso pintando seu maior medo desde menino: o Minotauro. Para isso, ele precisará entrar no temido labirinto, conhecido por não ter saída, onde vive o terrível monstro, antes que Teseu, o herói de Atenas, chegue para destruí-lo”.

A proposta idealizada por Luciana Zule se aproxima em alguns aspectos de uma contação de história ampliando as possibilidades cênicas no espaço físico que tem a seu dispor, proporcionando a apreciação do espetáculo a partir de diferentes camadas de sensibilidade. Embora seja cronologicamente anterior, remete ao bem-sucedido “Shtim Shlim – O Sonho de Um Aprendiz” ao explorar todos os aspectos lúdicos através dos caminhos da imaginação levando consigo o público a vivenciar uma fascinante aventura pela Grécia mitológica.

Haverá sempre espaço aberto para a recriação sobre o pré-estabelecido dentro da proposta do Grupo Mosaicos uma vez que cada teatro produz uma experiência cênica particular no estímulo e percepção crítica de adultos e crianças, como aquele que proporcionará a temporada futura na Cidade das Artes será distinto(independente se melhor ou pior) do Teatro Carlos Gomes, lugar impregnado pela memória teatral brasileira e mistificações por ambientes tão distantes do olhar do público habitual.

Minotauro_Crédito Julia Rónai

Foto: Júlia Rónai

O convite a viajar pelo espiral da história já se mostra inspirador a partir da entrada pelo salão principal do Carlos Gomes dos músicos Gretel Paganini, Leandro da Costa, Matheus Brill e Rudi Garrido, caracterizados como sátiros, introduzindo os rumos míticos que o texto de Luciana Zule seguirá a partir de sua própria condução, juntamente com Maria Coelho e Eduardo Ramos, responsáveis por desvendar a Creta antiga  aos pequenos visitantes, talvez estrangeiros aquele universo. Subindo escadas, desvendando corredores, desbravando novos saguões por uma dramaturgia que embora fluente e fantasiosa, tem a sensibilidade de permitir-se afrouxar para inserir as particularidades que cada apresentação pode exigir.

Luciana Zule_crédito Luciano Oliveira

Foto: Luciano Oliveira

A direção de Fernando Maatz encontra soluções cênicas para a imposição dos espaços físicos, sabendo tirar proveito da diversidade e inserir seus atores dentro da contextualização da história com cada ambiente. Compõe boas cenas e consegue manter uma dinâmica constante sem maiores quebras de ritmos apesar do desafio inerente à itinerância, com destaque particular para a sequência do derradeiro encontro de Agabo com o Minotauro, que flui sentimentos justamente apontados no início deste texto, temor e fascinação.

Maria Coelho e Luciana Zule realizam bom trabalho de composição. Luciana Zule explora com eficiência o humor através de boa técnica vocal, utilizando com sutileza e graça as modulações vocais. Maria Coelho trabalha mais o aspecto corporal e a movimentação, com técnicas que remetem sutilmente a palhaçaria. Ambas, expressivas, carismáticas e alcançam com sensibilidade um bom canal de comunicação com o público, sem jamais perder o pulso da apresentação.  A boa atuação de Maria Coelho inclusive lhe rendeu em 2012 indicação ao Prêmio Zilka Sallaberry como melhor atriz. O elenco se completa com a presença de Eduardo Ramos, que realiza bom trabalho expressivo e corporal para suas participações.

A direção musical de Rudi Garrido cumpre relevante função de complementação do universo proposto, não somente musical, mas igualmente cênico, com participação efetiva ao longo de toda a apresentação, o próprio deslocamento dos músicos tem sua complexidade, como por exemplo o cello de Gretel Paganini.  É necessários destacarmos o trabalho de pesquisa de Rudi Garrido, buscando sons muito específicos que preencham a dramaturgia e resgatando para a atmosfera teatral os elementos melódicos da Grécia antiga para conceituar todo o tom fabular do espetáculo.

Foto: Júlia Rónai

Foto: Júlia Rónai

A cenografia de Daniele Geammal consegue compor os diferentes quadros cênicos, assim como os figurinos de Bruno Perlatto tem papel destacado para a composição dos personagens.

Minotauro, Fábula Musical” é um trabalho que além de lograr envolver seu público numa bela história, apresenta um grande cuidado artístico para retratar a mais inspiradora de todas as civilizações.

Foto: Júlia Rónai

Foto: Luciano Oliveira

Ficha Técnica
Texto e Concepção – Luciana Zule
Direção Geral – Fernando Maatz
Direção Musical – Rudi Garrido
Elenco – Maria Coelho, Luciana Zule e Eduardo Ramos
Músicos – Gretel Paganini, Leandro da Costa, Matheus Brill e Rudi Garrido
Cenário – Daniele Geammal
Assistente de Cenário – Luna Santos
Cenotécnico – Construcena Serviços Cenotécnicos LTDA – ME
Cenotécnico Temporada 2016 – Renato Marques
Contrarregra – Wellington Fernandes
Figurinos – Bruno Perlatto
Assistente de Figurino – Camila Dominguez
Costureiras – Sônia Maria e Márcia Jackson
Aderecista – Eline e Anderson Marques
Preparação Corporal – Daniela Carmona
Visagismo – Tiago Ronnones
Adaptação Visagismo Temporada 2016 – Francisco Leite
Ilustração do Minotauro – Pedro Moura
Projeto Gráfico – Raquel Alvarenga
Readequação projeto gráfico temporada 2016 – Nana Suzart
Coordenação Administrativa – Natália Simonete
Direção de Produção – Luciana Zule
Produção Executiva – Clarissa Menezes

Serviço:
Teatro Municipal Carlos Gomes
Praça Tiradentes s/n – Centro
Tel.: 2224-3602
Sábado e domingo, às 16h
R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia)
Até 11 de setembro
Classificação – Indicado para 5 anos


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