Crítica: Molière – Uma Comédia Musical


 

 

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Por Renato Mello

Independente de encerrar sua temporada, tanto em palcos paulistanos, quanto cariocas, creio ser importante deixar um registro de “Molière, uma Comédia Musical”, cuja encenação assisti já em adiantado da sua prestação no Teatro Adolpho Bloch no início de setembro deste ano.

Molière, uma Comédia Musical” perpassa-se um pouco mais do que uma mera tradução do texto da mexicana Sabina Berman, mas uma adaptação mesmo, por questões que analisaremos mais adiante, idealizada pelo ator Renato Borghi e direção assinada por Fabio Fortes.

A jornalista, escritora e dramaturga Sabina Berman apresenta um belo texto sobre a rivalidade e o contraditório ao confrontar dois dos mais notáveis autores do teatro universal, Molière e Racine. Embora exista uma contextualização histórica, a autora não se permite amarras à uma fidelidade estática, libertando-se para propor uma discussão maior e outras acessórias, mas igualmente relevantes. Como aponta sua própria sinopse, a partir do encontro entre o então consagrado Molière(Matheus Nachergaele) com o ainda aspirante e futuro autor épico Jean Racine(Elcio Nogueira Seixas) em que a relação de submissão inicial transfigura-se em um embate filosófico e doutrinário, repleto de trapaças e reviravoltas pelo domínio das atenções da corte de Luiz XIV, o Rei Sol(Nilton Bicudo). O fanático arcebispo Péréfixe(Renato Borghi)  se aproveita do conflito entre os artistas para banir do reino o próprio Teatro, instaurando na França um período obscurantista de censura e violência. Com um desenvolvimento dramatúrgico profundo e fluído, Berman questiona através do debate entre personagens modelares,  paradigmas que datam da Grécia antiga sobre uma superioridade hierárquica da tragédia frente à comédia, que enquanto satiriza e vulgariza homens de estatura moral inferior, a tragédia é protagonizada por personagens nobres, refletindo suas grandezas e elevações éticas. Molière e Racine são correlacionados em suas respectivas artes, arcabouços sociopolíticos atemporais para uma errônea compreensão do esvaziamento da comédia pela ausência da angústia existencial do homem diante do mundo que o cerca, personificado na figura de um arcebispo, que tende a apontar a frivolidade mundana em detrimento da austeridade no momento em que se sente atingido diretamente pela força transgressora do escárnio e da caricatura. Sem dúvida, uma visão bastante atual. “Tartufo” representa no texto a potência da mordacidade, despertando a ira eclesiástica pela forma como Molière desenha um retrato de uma aristocracia insaciável por manter os privilégios e a burguesia em galgar patamares até então inéditos, por meio de intrigas disseminadas no seio da Igreja. Dentro dessa discussão, abre-se uma outra, igualmente bem delineada, sobre a postura promíscua do artista com o poder e a sua posterior vulnerabilidade no momento do ocaso.

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Independente de já contar com um texto bem escrito e com camadas reflexivas bastante interessantes, “Molière, uma Comédia Musical” recebeu consideráveis acréscimos em sua vertente nacional que incrementaram sua potência como “produto” teatral, em especial na tradução de Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi, assim como na concepção final do diretor Diego Fortes, com algumas situações de nonsense ou a imposição de canções, introduções ou citações da obra de Caetano Velloso, que lhe provém uma conotação miscelânea, remetendo ao que podemos denominar de um “barroquismo antropofágico”, deglutindo o material importado para apresentar algo surpreendente do ponto-de-vista não somente dramatúrgico, mas também na costura estética.

Diego Fortes já havia me chamado a atenção em seu trabalho anterior, “O Grande Sucesso”, por alguma peculiaridade com que trabalha os tempos cênicos, em que o silêncio e a respiração dos atores alinham-se em comunhão com a dinâmica dos espetáculos. Se isso funcionou bem naquele espetáculo, neste dimensionou ainda mais os diálogos. A composição de seu ambiente teatral é sem dúvida um dos pontos mais elevados, pela forma como se apropria fisicamente do espaço físico em toda sua amplitude, devassando aspectos ocultos ao olhar do público, compondo uma ambivalência que por vezes é feérica e intercalada pelas quebras propositais dos ditames da representação. Outro ponto importante é a excelente direção de atores, com atuações de muito bom nível não somente dos protagonistas, como do elenco coadjuvante, fundamental para a sustentação de um espetáculo com duração de mais de duas horas.

O elenco é formado por Matheus Nachergaele(Molière), Elcio Nogueira Seixas(Racine), Renato Borghi(Arcebispo Péréfixe), Nilton Bicudo(Luís XIV), Rafael Camargo(La Fontaine), Luciana Borghi(Madeleine e Rainha Mãe), Georgette Fadel(Gonzago), Regina França(Medemoiselle Du Parc e Madame Parnelle), Marco Bravo(Baron e Primeiro Médico), Débora Veneziani(Armande), Edith Cardoso(Marquês e instrumentista da orquestra de Lully), Thomas Marcondes(Anjo e Pagem de Luís XIV), além de uma presença musical com influências cênicas de Fabio Cardoso(Lully, o maestro), Beatriz Lima e Renata Neves(ambas instrumentistas da orquestra de  Lully). Natchergaele e Nogueira Seixas alimentam-se mutuamente de maneira íntegra, dosando energicamente tanto os ápices, quanto as zonas mais densas, de forma a pontuar intenções e subterfúgios com bastante qualidade e apresentando 2 ótimas atuações. Como me referi anteriormente, há uma atuação bastante homogênea por parte do elenco como um todo, mas é necessário explicitar a performance de Débora Veneziani, clarifica a índole do seu personagem não apenas pela expressividade e prosódia, mas igualmente por um trabalho corporal muito bem dosado. Georgette Fadel expõe com maiores sutilezas as premissas internas de sua personagem. Renato Borghi enverga uma estatura amplificada para um personagem bastante determinante. Nilton Bicudo extrai com poucos recursos a comicidade e algum ridículo na forma como compõe adoravelmente Luís XIV.

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A direção musical de Gilson Fukushima desempenha papel de relevo, não somente melódico, também estético e acima de tudo conceitual pela forma como preenche a estrutura narrativa, em que tanto o cravo, quanto os tambores sintetizam musicalmente toda uma proposta teatral.

A cenografia modular de André Cortez e Carol Bucek podem até não serem das mais funcionais, mas mesmo que propositalmente caóticas e poluídas, adequa-se ao conceito de Diego Fortes. A iluminação proposta por Beto Bruel e Nadja Naira refletem com admirável perfeição as diversas aclimatações da narrativa. Os figurinos de Karla Girotto brincam com as cores, formas e épocas, compondo muito bem mesclas e contrastes.

 “Molière, uma Comédia Musical” resulta num excelente espetáculo, em que os diversos componentes teatrais convergem para uma obra de rara especificidade, de bastante personalidade e qualidade, tanto técnica, quanto artística.

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Texto: Sabina Berman
Tradução: Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi
Adaptação: Diego Fortes e Luci Collin
Direção: Diego Fortes
Elenco: Matheus Nachtergaele, Renato Borghi, Elcio Nogueira Seixas, Nilton Bicudo, Rafael Camargo, Luciana Borghi, Georgette Fadel, Regina França, Marco Bravo, Débora Veneziani, Edith de Camargo, Fábio Cardoso, Beatriz Lima, Renata Neves, Thomas Marcondes
Assistência de direção: Carol Carreiro
Cenografia: André Cortez
Figurino: Karlla Girotto
Direção Musical: Gilson Fukushima
Iluminação: Beto Bruel e Nadja Naira
Fotos: Eika Yabusame, Jamil Kubruk, Luísa Bonin, Paulo Uras
Mídias Sociais: Bliss Comunicação e Cultura
Produção Executiva: Jamil Kubruk
Direção de Produção: Camila Bevilacqua e Fioravante Almeida
Coordenador de Produção: Luís Henrique Daltrozo (Luque)
Produção: Lady Camis e Daltrozo Produções
Idealização e Execução: Teatro Promíscuo e Flo Produções


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