Crítica: Mordidas


 

Foto: Cristina Granato

Por Renato Mello

Numa primeira vista d’olhos “Mordidas” é daqueles projetos que vislumbramos remotamente a possibilidade de erro pela adição de virtudes que já nos deparamos na sua ficha técnica, tais como um texto argentino(dentro do que isso representa na dramaturgia contemporânea), no caso específico de autoria de Gonzalo Demaria, versão assinada por Miguel Falabella, direção de Victor García Peralta e tendo em cena algumas das mais relevantes atrizes do teatro nacional. A expectativa talvez seja justamente o grande problema do espetáculo, numa demonstração que fórmulas não são garantias absolutas, pois se o resultado não é ruim, tampouco podemos qualificá-lo como positivo.

Creio que para se realizar uma crítica justa é necessário buscar um entendimento da proposta do espetáculo para então refletir a integridade de suas intenções originais, partindo da premissa que toda manifestação teatral, em tese, vale a pena. Dentro desse contexto e explorando o release original, “Mordidas” “é uma comédia satírica que faz uma crítica contundente à sociedade contemporânea e suas contradições entre o que queremos parecer ser e o que somos de fato, convidando o espectador a pensar sobre o modo como estabelecemos as relações humanas nos dias de hoje.

O texto de Gonzalo Demaria opta propositalmente por um desenho caricatural do espectro mais elevado da pirâmide social, porém não consegue abstrai-se de uma camada superficial desse retrato sociológico, perdendo por completo seus elementos sustentadores ao resvalar em proposições que acabam por se revelar vazias, algumas mesmo despropositadas, atingindo o culminar no momento que entra na narrativa uma máscara utilizada como um artifício para desvendar algo da essência das personagens, mas que em nada acrescenta ao desenvolvimento do espetáculo, que se intencionado para pontuar aspectos de bizarrice, foi alcançado ao avesso do pretendido. O fato de se construir em versos, não contribui para o resultado, ao contrário, impede uma melhor fluência por algo que tenha se perdido ao verter-se ao português. Talvez seja exagero ou mera especulação afirmar que no espanhol o jogo rimado possa ter funcionado de forma mais rasgada que numa prosódia mais castiça do português, com barreiras que as próclises e mesóclises, utilizadas acima do usual, dificultam uma maior aproximação da história. Partindo do pressuposto que se autodefine como uma “comédia satírica”, seu desenvolvimento dramatúrgico acaba justamente se perdendo em situações pretensamente cômicas, em que a busca legítima pelo “absurdo” acabou se revelando falha e não arrancando mais que sorrisos, o que é fatal para uma comédia.

A concepção cênica de Victor García Peralta tem uma contextualização coerente com a proposta pela maneira como, a despeito das limitações dramatúrgicas, consegue atingir suas linhas intrínsecas, mesmo que ainda assim não permitam maiores alturas na construção de suas cenas. A cenografia de Dina Salem Levy sugere com adequação um living de alguns dos melhores imóveis da cidade, embora cause algum incômodo o tecido divisório do ambiente, que pelo efeito da iluminação, por vezes transparece a sequência dos acontecimentos, que fragiliza o timing de uma comédia.

No elenco se destacam Ana Beatriz Nogueira e Luciana Braga. Ana Beatriz Nogueira apropria-se muito bem das sutilezas do seu personagem pelo modo como tensiona sua inflexão vocal e encontrando nuances responsáveis por alguns dos melhores momentos do espetáculo. Luciana Braga explora com ajuste distintos níveis, alcançando bons resultados quando se utiliza das gradações elevadas. Regina Braga falha algo na partitura cômica dos disparates do seu personagem, sem encontrar um timing equilibrado, às vezes até com algum exagero desnecessário. Zélia Duncan tem atuação satisfatória, sendo que no início da peça é responsável pela maior parte do texto, que não flui por pelas próprias deficiências da construção dos diálogos, porém percebe-se alguma inclinação monocórdia na maneira como os dita, saindo-se melhor quando o espetáculo se abre para  uma maior repartição das falas.

Os figurinos de Carla Garam ressaltam acertadamente as diferenças e semelhança dos personagens, pelas suas individualidades e gradações. A direção de movimentos de Marcia Rubin demarca muito bem os aspectos tônicos com que as atrizes enfatizam a personalidade de suas representações.

Mordidas” chega ao Brasil precedido de uma boa repercussão e críticas positivas nos palcos argentinos. Algo se perdeu nesse percurso para que o espetáculo aportasse aqui sem um termo equivalente. Por fim, voltando a um entendimento do que  propunha do espetáculo, entendo que não atingiu um fechamento do seu próprio ciclo interno.

 

Foto: Cristina Granato

Foto: Cristina Granato

Texto original: Gonzalo Demaria / Idealização: Ana Beatriz Nogueira / Versão Brasileira: Miguel Falabella / Direção: Victor Garcia Peralta / Elenco: Ana Beatriz Nogueira, Regina Braga, Luciana Braga e Zélia Duncan / Direção de Movimento: Márcia Rubin / Direção Musical e Trilha Sonora: Zélia Duncan / Cenografia: Dina Salem Levy / Figurinos: Carla Garan / Iluminação: Wagner Azevedo / Design Gráfico: Fernanda Pinto / Fotos de Estúdio: Lucio Luna / Assistência de Direção: Flávia Milioni  / Direção de Produção: Dadá Maia / Produtores Associados: Ciranda de 3 Trupe Produções, Ana Beatriz Nogueira, Gustavo Nogueira / Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany


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