Crítica: Morte Acidental de um Anarquista


 
5DIII © Joao Caldas Fº

Foto: Joao Caldas Fº

Por Renato Mello

Talvez a mais emblemática peça de Dario Fo, “Morte Acidental de um Anarquista”(“Morte Accidentale di um Anarchico”, 1970) ganha competente montagem nos palcos brasileiros, que após algumas temporadas em São Paulo chega ao Rio de Janeiro para uma estada que se prolongará até o dia 2 de abril no Teatro dos 4, Shopping da Gávea.

Morte Acidental de um Anarquista” foi escrito no contexto de uma Itália com tendências que remontavam à práticas de tempos de outrora, impondo uma repressão nas forças políticas mais à esquerda pela difusão de que tudo que tivesse um viés contestatório estaria intrinsicamente ligada às Brigadas Vermelhas. A partir de uma série de atentados ocorridos em 1969, um ferroviário ligado ao movimento anarquista é detido como suspeito. Segundo a versão  policial o suspeito não teria resistido ao interrogatório e acabou cometendo o suicídio pulando de uma janela da chefatura. Esse evento acorda uma opinião pública até então mistificada pelas versões oficiais e pelos métodos adotados pela polícia. O triunfalismo da eficiência transmitida pelas forças públicas passa a ser rejeitado.

Em decorrência desse evento, Fo constrói um texto em que realidade e ficção se entrelaçam em um jogo que ao ridicularizar o status quo demonstra a lógica grotesca que até então se impunha, revelado através de um louco(Dan Stulbach) cuja doença é interpretar pessoas reais e que se encontra na mesma delegacia detido por falsa identidade.  Naquele ambiente acaba se passando por um falso juiz que estaria ali para investigar o caso. O louco vai enganando um a um, assume várias identidades e, brincando com o que é ou não é real, desmonta o poder e acaba descobrindo a verdade de todos nós.

Mil anos luz na frente do que qualquer denúncia pretensamente séria e com ares sisudo, o humor é sem a menor dúvida a mais devastadora das armas para revelar o castelo de cartas oculto sob supostas fortalezas, que não resistem à exposição ao escárnio inteligente. Nesse aspecto, poucos foram tão precisos como Dario Fo! Talvez mesmo por essa razão, “Morte Acidental de um Anarquista” mantém-se um texto permanentemente necessário e muito, mas muito atual.

5DIII © Joao Caldas Fº

Foto: Joao Caldas Fº

A proposta de montagem pela dramaturgia e direção de Hugo Coelho mantém fidelidade à organicidade de Fo, mas produz aspectos originais que representam uma visão particular e sem receio de correr riscos. Sua criação cênica reveste-se de elementos que a robustecem e mantém uma fluência harmônica que permite o arco da dramaturgia revelar suas subcamadas.

O protagonismo coube a Dan Stulbach, representando o louco. Atua com expressividade(mesmo que por vezes over) e boa dinâmica corporal, apresentando-se com acertado domínio de cena, o que pela própria intenção da proposta tem papel relevante, dada a quebra contínua da 4ª parede. Confesso que em determinados momentos temi a perda do controle do público, mas Dan Stulbach demonstrou habilidade de domar a ambientação e retomar as rédeas da narrativa. Porém, optou por uma atuação em nível elevado que buscava impor o humor do texto pela altura da modulação vocal. Observando os vídeos da montagem protagonizada pelo próprio Dario Fo(se encontram disponíveis no Youtube), percebe-se uma semelhança na altura interpretativa entre Stulbach e Fo, porém cabe ressaltar que a própria prosódia italiana ajusta-se melhor nesse nível de atuação em comparação com a nossa, e principalmente pelo fato de Fo, além de seus textos e montagens, representava em cena uma espécie de “personagem de si mesmo”, o que lhe caía bem e era o que esperávamos dele. No caso de Stulbach entendo não ser o adequado, esvaindo algumas sutilizas submersas na dramaturgia e causando alguma oscilação com seus companheiros de cena.

5DIII © Joao Caldas Fº

Foto:  Joao Caldas Fº

O elenco coadjuvante apresenta-se com muita qualidade, com destaque para Henrique Stroeter e Riba Carlovich. Stroeter acerta com precisão na maneira como “ataca” as zonas humorísticas e no ritmo com que busca o ditar de suas falas. Riba Carlovich tem atuação brilhante, com pleno domínio das intenções satíricas do autor, do timing de humor, no gestual, no processo de composição física do personagem e pela expressividade. Marcelo Castro e Maira Chasseraux tem atuação correta e dentro do contexto necessário para atuarem numa linha coerente.

Um ponto destacável é a intervenção de Rodrigo Geribello com a música ao vivo, contribuindo para composição da atmosfera cênica, além de sua notória capacidade como um sonoplasta na simples utilização de suas articulações vocais reproduzindo as mais diversas sonoridades.

O cenário de Marco Lima tem relevante destaque na composição cênica, utilizando um conceito que remete à uma esfera kafkaniana para propiciar em meio a um ambiente burocrático o destampar do caos que se espalhará tanto pela atmosfera, quanto no interior dos personagens que gravitarão no entorno do louco. Os figurinos de Fause Haten atendem às expectativas no conceito e na criação, mas igualmente na composição dos personagens, adequando-os aos seus universos e origens particulares. A iluminação de Hugo Coelho apresenta-se com correção, atendendo o suporte do desenho de cena.

Morte Acidental de um Anarquista” é uma montagem eficiente e que demonstra capacidade para jogar luz na genialidade de um dos maiores autores teatrais do século XX.

Foto: Joao Caldas Fº

Foto: Joao Caldas Fº

MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA
Teatro dos Quatro (402 lugares)
Shopping da Gávea – R. Marquês de São Vicente, 52 – Gávea
Informações: (21) 2239-1095 / 2274.9498
Vendas: www.ingresso.com
Bilheteria: de segunda a sábado, das 13h às 21h; domingo das 13h às 20h ou até o início do espetáculo. Aceita somente dinheiro. Pagamentos com cartões somente pelas vendas online.
Sextas 21h | Sábados às 19h30 e 22h | Domingos às 20h
Ingressos:Sextas R$ 70 | Sábados e Domingos R$ 80
Duração: 80 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Estreou em 23 de setembro de 2015
Temporada 2017: de 03 de Março a 02 de Abril

Ficha Técnica:
Texto: Dario Fo
Tradução: Roberta Barni
Dramaturgia e Direção: Hugo Coelho
Elenco: Dan Stulbach, Henrique Stroeter, Riba Carlovich, Maíra Chasseraux, Marcelo Castro e Rodrigo Bella Dona
Música ao vivo: Rodrigo Geribello
Cenário: Marco Lima
Figurino: Fause Haten
Iluminação: Hugo Coelho
Assessoria de Imprensa no Rio de Janeiro: Barata Comunicação
Assessoria de Imprensa em São Paulo: Daniela Bustos e Beth Gallo – Morente Forte
Projeto Gráfico: Vicka Suarez
Produção Executiva: Katia Placiano
Realização: Quadrilha da Arte
Produtores Associados: Selma Morente, Célia Forte e Dan Stulbach


Palpites para este texto:

  1. Anselmo Paulo Ramos -

    Olá Amigos, saudações.
    Hoje, 24/03/2018, tive o prazer de assistir a peça em destaque, no Teatro Gazeta em São Paulo.
    No início da peça, Dan Stulbach faz uma sinopse da peça de Dario Fo, para que o público possa compreender o enredo, escrito sobre um fato real.
    O cenário é bastante espartano, o que não compromete o contexto e complementa a atmosfera da peça.
    O destaque é a forma inteligente com que o protagonista-Dan Stulbach e o elenco coadjuvante interagem com a platéia. De forma inteligente transcendem da Itália da década de 1970, para o Brasil de 2018, em uma analogia crítica e cômica das “tragédias tupiniquins”, que, com muito humor e criatividade, traçam esse paralelo.
    Um destaque é a performance de Rodrigo Geribello, com a música ao vivo e sonoplastia na simples utilização de suas articulações vocais reproduzindo as mais diversas sonoridades que complementam a atmosfera da peça.
    Enfim, a peça dura em média uma hora e meia, com muito humor e picardia agrada muito.
    Recomendo.

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