Crítica: Não Nem Nada


 

não nem nada

Por Renato Mello.

O Teatro Poeirinha está recebendo o espetáculo “Não Nem Nada”, que após permanecer por cerca de  1 ano em cartaz em São Paulo, chega ao Rio para uma curta temporada até o dia 30 de agosto.

Escrito e dirigido por Vinicius Calderoni, com codireção de Rafael Gomes, “Não nem Nada” compõe um enorme mosaico de temas diversos que estão no cotidiano da vida contemporânea, demonstrando a fragmentação permanente de um mundo repleto de processos fugazes e banais que  acabam fragilizando as relações humanas.

A concepção do espetáculo é elaborada a partir de um enorme tabuleiro, importante instrumento cenográfico criado por Valentina Soares e Wagner Antônio,  disposto no centro do palco com o qual o elenco interage ao longo de toda a encenação, utilizando toda a plenitude das possibilidades, subterfúgios e alçapões que vão sendo desvendados paulatinamente,  desconstruído e realocado tanto o tabuleiro quanto as trocas interpessoais, de acordo com as necessidades e propostas colocadas em cena pelos 4 atores que no entorno do tabuleiro, realizam um permanente jogo cênico entrecortado por idas e vindas e sem uma sequência necessariamente lógica. A  boa condução dos diretores Vinicius Calderoni e Rafael Gomes, realiza uma dinâmica cênica inteiramente adequada a construção dramatúrgica arrojada e com uma interessante ocupação espaço físico do teatro. Criam assim a atmosfera propícia para as 12 cenas ágeis e contundentes, mantendo no ar tal ambientação mesmo quando utiliza o silêncio como elemento de desconserto e provocação.

O elenco é formado por Geraldo Rodrigues, Mayara Constantino, Renata Gaspar e Victor Mendes que acreditam no jogo que realizam e o fazem com enorme competência e qualidade técnica. Pela complexidade da dramaturgia foi fundamental a simetria no nível de atuação para o êxito da proposta, com 4 ótimas atuações numa troca permanente, dando a ênfase correta para cada palavra, gesto ou intenção. Necessário ressaltar também o competente trabalho de expressão corporal, mérito para o trabalho desenvolvido por Fabrício Licursi junto ao elenco.

Assim como o grande tabuleiro central de fundamental importância para o êxito da concepção do espetáculo, objeto cenográfico já mencionado de Valentina Soares e Wagner Antônio, que se encontra em perfeita sintonia com a proposta de Vinicius Calderoni, com capacidade de se transformar ao longo de toda a a apresentação, além de uma enorme funcionalidade. O desenho de luz assinado por Wagner Antônio e Robson Lima possui uma certa complexidade na sua elaboração para enfatizar os 4 atores em diferentes momentos e situações de protagonismo em distintas partes do tablado, porém a questão foi resolvida com bastante competência pelos iluminadores que atingiram um diálogo com cenografia e elenco para a elaboração da atmosfera do espetáculo.

O figurino de Valentina Soares procura trabalhar com textura e cores assépticas, enfatizando uma uniformidade comportamental e a falta de  uma personalidade própria de um mundo que impõe uma descaracterização.  Proposta correta e que se presta inteiramente ao espetáculo.

Não Nem Nada” apresenta um teatro instigante pelas mãos de um artista inquieto como Vinicius Calderoni, resultando num espetáculo de muito bom nível. Merecia uma temporada maior para que o público carioca pudesse ter maior contato com essa proposta, que pelas notícias recebidas terá continuidade por parte dos criadores, vindo a se tornar uma trilogia.

FICHA TÉCNICA:
Texto e direção: Vinicius Calderoni
Elenco:Geraldo Rodrigues, Mayara Constantino, Renata Gaspar e Victor Mendes
Codireção:Rafael Gomes
Assistência de direção: Guilherme Magon
Cenografia: Valentina Soares e Wagner Antônio
Desenho de luz: Wagner Antônio e Robson Lima
Figurinos:Valentina Soares
Preparação corporal: Fabrício Licursi
Direção de produção: Cesar Ramos e Gustavo Sanna

SERVIÇO:
“Não nem nada”
Local:Teatro Poeirinha (Rua São João Batista, 104 – Botafogo)
Informações:2537-8053
Capacidade: 50 lugares
Temporada: de 31 de julho a 30 de agosto
Dias e horários: Sextas e sábados, às 21h. Domingos, às 19h
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)
Classificação etária: 14 anos
Gênero: comédia


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