Crítica: Nascituros


 
Foto: Julia Viana

Foto: Julia Viana

Por Renato Mello

No auge da onda intolerante que invadiu o Brasil com o cancelamento da exposição Queermuseu no Santander Cultural de Porto Alegre e do escândalo artificialmente inflado na performance de Wagner Schwartz no Museu de Arte Moderna de São Paulo, o espetáculo “Nascituros” foi vítima de uma situação, no mínimo estranha, quando realizava sua estreia oficial. Houve um cancelamento por determinação da instituição que lhe abrigava, o Castelinho do Flamengo, sob a alegação de problemas elétricos. Pela temática LGBT, discutindo as relações familiares e amorosas contemporâneas, motivos não faltaram para que as antenas ficassem ligadas por parte de todos que se batem pela oxigenação das ideias e o pluralismo das relações humanas para que uma possível censura estivesse vitimando o espetáculo num espaço administrado por uma prefeitura, cujo atual ocupante tem enorme dificuldade de desassociar seu papel como administrador de uma cidade multicultural em detrimento de suas obrigações religiosas, como pôde ser constatado na maneira debochada que descartou qualquer possibilidade de vinda do Queermuseu no MAR utilizando de argumentos como se representasse um pensamento uníssono de todo cidadão carioca.

Nascituros” tem sua origem numa prática de alunos dos cursos de Direção Teatral e Atuação Cênica da UNIRIO, levada aos palcos pela Tríptico Coletivo, com texto de John Marcatto e direção de Victor Fontoura. “Nascituro” é uma palavra originada do latim que representa o já está concebido, mas que ainda está no ventre materno. Etimologicamente, nascitūrus, o que deve nascer. Suscita lembranças pessoais que remeto ao primeiro período da minha Faculdade de Direito, com a discussão de que momento pode se considerar a vida humana e quando exatamente essa passa a usufruir de direitos, enquanto o espetáculo se estrutura a partir dessa premissa para o questionamento aos direitos civis dentro da esfera temática LGBT.

Conta a história de um casal homoafetivo que após um incidente é obrigado a se separar. Passados dez anos, um deles escreve uma peça que pretende expurgar as aflições do seu passado, quando o outro reaparece objetivando impedi-lo a prosseguir com o ideário do espetáculo, pois pode expor segredos que afetarão mais pessoas.

O texto tem a preposição de buscar uma leitura sobre preconceitos, direitos e escolhas. Seus primeiros movimentos surgem promissores na armação de um jogo cênico entre 2 personagens e distintas possibilidades, Cris e Francis. A dramaturgia busca uma dualidade experimentando distintas visões e nuances sobre uma mesma situação, se Cris é homem ou mulher, não é o mais importante, assim como Francis. Mas o grande problema do texto de John Marcatto reside na forma como busca se apropriar dos recursos narrativos, se utilizando da metalinguagem, elipses, idas e vindas, transmissão ao vivo, abrindo um arco de possibilidades como num afã de se utilizar ao mesmo tempo de todos os brinquedos disponíveis, sem que exista uma motivação lógica. Acaba na verdade por diluir uma proposta que aponta para várias direções sem concluir satisfatoriamente nenhuma delas, dispersando a ideia central, deixando o espetáculo confuso e inconcluso. Tampouco o diretor Victor Fontoura encontrou soluções que amenizassem as questões dramatúrgicas, impondo tonalidades que acabam borrando a construção cênica em alguns exageros que em nada acrescenta ao discurso pretendido, assim como não encontra o equilíbrio na direção de atores, em que se sobressai a boa atuação de Mari Bridi, que ataca o texto com vigor e força dramática, ainda que alguns picos poderiam ser podados, enquanto Marilha  Gala apresenta algum exagero gestual e expressivo, demostrando também alguma dificuldade na expansão vocal, e Bruno Marques com alguma ausência de intensidade. John Marcatto encontra um meio termo que serve melhor para a temperatura da representação.

Os figurinos trabalham com tonalidades escuras, diante de um cenário minimalista que se limita a alguns figurinos em araras, cuja significação não compreendi. A iluminação de Poliana Pinheiro impõe sentidos para as construções cênicas, ainda que algumas opções possam parecer inusuais, estão dentro de uma contextualização.

John Marcatto é um criador sensível, sabe trabalhar bem as palavras e decompor qualquer traço de obviedade de suas propostas, porém em “Nascituros”, tanto ele, quanto o diretor Victor Fontoura parecem mais próximos de um processo de experimentação do que a busca por uma comunicabilidade mais expressiva, cujo resultado não consegue desaguar em bons termos.

Ficha Técnica
Texto: John Marcatto | direção Victor Fontoura
Elenco: Bruno Marques | John Marcatto | Mari Bridi | Marilha Galla
Orientação: Ricardo Kosovski | Iluminação: Poliana Pinheiro | Cenário: Sátiro Nunes | Figurino: Cristina França| Arte: Nikko | Mixagem: DJ Scardua | Marketing cultural: Gloria Dinniz| Produção executiva: Ale Riquena |Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação| Realização: Tríptico Coletivo

Serviço:
NASCITUROS
De 19 de out a 12 de nov | quinta a domingo | 20h
Castelinho do Flamengo | Praia do Flamengo, 158 | capacidade 30 pessoas
Duração: 60 min
Classificação: 14 anos
Ingressos: Inteira – 40 reais | Meia-entrada – 20 reais


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