Crítica: Navalha na Carne


 
Foto: Victor Hugo Cecatto

Idealizada por Luísa Thiré como uma homenagem à sua avó, Tônia Carrero, “Navalha na Carne” recebe nova montagem no Espaço Sesc, em Copacabana, sob direção de Gustavo Wabner.

Encenada originalmente em 1967, em São Paulo, o texto de Plinio Marcos alcançou seu ápice em repercussão na montagem carioca, no mesmo ano, dirigida por Fauzi Arap, com Tônia Carrero liderando não somente o elenco, mas uma árdua batalha de liberação junto à censura da ditadura militar, então vigente. Levar Plinio Marcos aos palcos não representa somente uma eterna batalha política, independente da época, mas um constante embate na absorção  da sua complexidade, para encontrar a gradação adequada na exposição da potência dramatúrgica, evitando-se o esvaziamento no extravasamento aberrante do seu universo marginal, em que amplifica a degradação física e moral dos seus personagens, encadeando situações aviltantes que os lança ao mais baixo da condição humana, arraigados em valores e códigos próprios. Seu microcosmo compõe uma grande metáfora social, tratado com um senso de verdade extrema, que mais além de uma denúncia de questões sociais, crítica todo um poder estabelecido daquele período, e ainda assim, jamais é datado.

Navalha na Carne” remete a um hui clos, em que toda a limitação da ambientação, um quarto de pensão ordinário, funciona como uma panela de pressão para a afloração das ações e sentimentos. O espetáculo se passa em 1 ato, mas é possível subdividi-lo em 3 fases distintas, a primeira seria o conflito entre Vado e Neusa Sueli, posteriormente Vado se opõe a Veludo, por fim, Neusa Sueli e Vado. Dessa forma Plinio constrói uma história que desvenda todo um bas fond profundamente masculinizado, em que não somente as mulheres são subjugadas, mas igualmente outros homens que perambulam por uma “moral anômala”.

O diretor Gustavo Wabner coordenou habilmente uma concepção cênica que molda o realismo cru  proposto pelo autor, em que o excelente cenário criado por Sergio Marimba, aberto como um triângulo em direção à plateia, conjuntamente com as tonalidades compostas no desenho de luz de Paulo César Medeiros, elevam um sentimento de comiseração por personagens desprovidos de um mínimo de acolhimento afetivo. Toda a degradação é sentida na constituição física, seja na podridão das paredes, na sujeira impregnada em cada objeto, no neon da fachada  ou na poluição sonora que invade aquele quarto ordinário, corroendo as entranhas dos personagens e sublinhadas de forma sensível pela direção de Wabner, que alcança essa escala sem precisar necessariamente subir despropositadamente a graduação das ações, o que é um acerto considerável em se tratando de Plinio Marcos.

Na condução dos atores, contribui decisivamente ao processo de Gustavo Wabner a direção de movimento de Sueli Guerra, compassando sentimentos e gestos brutais para que o elenco atue no nivelamento das intenções do texto. A prostituta Norma Sueli recebe um tratamento bem ajustado na interpretação de Luísa Thiré, expondo o substrato da relação submissa e de dependência com o cafetão Vado, como uma autoconscientização, responsável por lhe manter o mínimo da humanidade, até que nos momentos derradeiros, Thiré evidencia de forma expressiva o sentimento de abandono e solidão, esgarçando o fiapo que resta a algum tipo de valor moral ao seu personagem. Alex Nader interpreta Vado, incorporando aspectos do malandro inescrupuloso, impondo subordinação na mulher que lhe sustenta, como também em quem se encontra em condição subalterna(Veludo), com manejo de uma articulação bem construída pelo ator, compondo a imagem da virilidade dominadora, instrumento que lhe municia no trato com a opressão que o personagem institui. O texto de Plinio Marcos acentua a figura do homossexual, ao qual o ator Ranieri Gonzalez(Veludo) sublinha propositalmente os estereótipos de um personagem moralmente inferior pela sua orientação sexual. Os aspectos caricaturais impostos pelo ator são coerentes com a essência do texto, extravasando dessa forma, o grito de dor de quem vagueia errante por caminhos vazios, e do seu ponto de referência social, num mundo permanentemente despótico.

Um elemento que merece menção, a trilha de Marcelo Alonso Neves salienta o caráter degradante, oriundo desde um entorno que encorpa o caráter espiritual do espaço físico.

Navalha na Carne” recebe uma boa montagem, que tem entre seus principais acertos, se desvencilhar das seduções que os textos de Plinio Marcos costumam acometer, encontrando um equilíbrio são para um universo atroz, sem perder suas linhas exclamativas.

Foto: Victor Hugo Cecatto

FICHA TÉCNICA:

Texto: Plínio Marcos Direção: Gustavo Wabner Elenco: Luísa Thiré, Alex Nader e Ranieri Gonzalez Cenário: Sergio Marimba Figurino: Marcelo Marques Iluminação: Paulo Cesar Medeiros Direção musical: Marcelo Alonso Neves Direção de Movimento: Sueli Guerra Preparação vocal: Ana Frota Visagismo: Rose Verçosa Fotografia e design: Victor Hugo Cecatto Vídeo: Carlos Arthur Thiré, Marcelo Duque e Luísa Thiré Direção de produção: Celso Lemos Supervisão de Produção: Norma Thiré Assessoria de Imprensa: Barata Comunicação Idealização: Luísa Thiré

Espetáculo NAVALHA NA CARNE

Datas: 11 de abril a 28 de abril. Horário: De quinta a domingo, às 19h. Local: Sala Arena do Sesc do Copacabana Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ Ingressos: R$ 7,50 (associado do Sesc), R$ 15 (meia), R$ 30 (inteira) (Ingresso solidário R$ 15,00 (meia) com a doação de 1 kg de alimento para o Projeto Mesa Brasil do Sesc RJ) Informações: (21) 2547-0156 Bilheteria – Horário de funcionamento: Terça a Sexta – de 9h às 20h; Sábados, domingos e feriados – das 12h às 20h. Classificação indicativa: 16 anos Duração: 75 min. Gênero: Drama

Exposição Eterna Tônia:

Datas: 13 de abril a 28 de abril. Horários:Terça a domingo, de 10h às 21h. Local: Foyer do Teatro Arena do Sesc Copacabana Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ Ingressos: GRATUITO Informações: (21) 2547-0156 Bilheteria – Horário de funcionamento: Terça a Sexta – de 9h às 20h; Sábados, domingos e feriados – das 12h às 20h. Classificação indicativa: Livre


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