Crítica: Nefelibato


 
Foto: Ricardo Brajterman

Foto: Ricardo Brajterman

Por Renato Mello

Entra em sua reta final a temporada de “Nefelibato” no Teatro Candido Mendes, monólogo escrito por Regiana Antonini para intepretação de Luiz Machado em comemoração aos seus 20 anos de carreira, com apresentação prevista até o dia 27 de abril.

Com direção de Fernando Philbert e supervisão de Amir Haddad, “Nefelibato” conta a história de um personagem que decolou do plano ordinário para viver seu próprio universo dentro de um “burro sem rabo” pelas ruas da cidade.

O texto de Regiana Antonini é eficaz na maneira como delineia seu personagem com um arcabouço bem construído, porém demonstra alguma deficiência no desenvolvimento da dramaturgia, não possibilitando o envergar de um arco narrativo, que acaba por manter sua história retilínea ao longo da apresentação. De início nos prendemos a alguns questionamentos para compreender o que move o personagem naquele cenário de vida ou em que momento se deu sua ruptura. Regiana Antonini contextualiza sua intenção dentro de um momento traumático da história recente, calcando como ponto nevrálgico o fatídico 16 de março de 1990 quando recém empossado presidente, Fernando Collor de Mello, anunciava à nação seu plano para debelar a galopante inflação através do confisco das poupanças de todos os cidadãos. Como aponta sua própria sinopse, “tal medida levou milhares de brasileiros ao desespero e à bancarrota. Muitos enlouqueceram. Esse é o caso de Anderson, que amargou outras perdas em sua vida: seu negócio (uma agência de viagens), um ente querido e um grande amor. Isso tudo leva-o a perambular pelas ruas”. Talvez os mais jovens tenham dificuldade para compreender e mesmo podem considerar forçado a dimensão dessa opção narrativa da autora de utilizar-se de um plano econômico como o momento de uma viragem tão brusca de vida, mas quem viveu aqueles anos sombrios consegue entender o sentido da proposta de Antonini e a sua verossimilidade.

Foto: Ricardo Brajterman

Foto: Ricardo Brajterman

A direção de Fernando Philbert concentra sua direção num reduzido espaço físico, mantendo por boa parte da apresentação o personagem dentro de seu “burro sem rabo” em meio a uma série de “cacarecos” cênicos(cenografia de Teca Fichinski), mas que de algum modo contribui a enxergarmos o seu transcurso emocional e como interage com sua visão de mundo, apesar de alguma imobilidade na fluência rítmica justamente pela razão já apontada de uma ausência de crescimento da linha dramática.

Luiz Machado realiza um processo de composição de extrema solidez, ressaltando-se sobretudo a expressividade do seu olhar que alcança um potente canal de entendimento de suas emoções. Realiza igualmente um trabalho corporal preciso(méritos para Marina Salomon pela preparação corporal) e encontra a ênfase adequada na modulação das palavras que propiciam um prolongamento das intenções. Excelente atuação de Luís Machado!

O figurino de Teca Fichinski reveste com coerência o processo de composição do personagem de Luiz Machado. A iluminação de Vilmar Olos acentua com eficiência as alturas dramáticas. Cabe destacar o interessante diálogo proposto por Fernando Philbert com a trilha sonora e sonoplastia reforçando a expansão da atmosfera desenhada pelo diretor.

Nefelibato” é um espetáculo que através da admirável atuação de Luiz Machado, dialoga eficientemente  com a consciência de um personagem que  mantém-se integro em valores, mesmo que lançado ao despenhadeiro emocional pela indiferença da nossa sociedade.

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Foto: Ricardo Brajterman

Ficha técnica:
Texto: Regiana Antonini
Interpretação: Luiz Machado
Supervisão artística: Amir Haddad
Direção: Fernando Philbert
Cenografia e figurino: Teca Fichinski
Iluminação: Vilmar Olos
Direção de movimento: Marina Salomon
Preparação vocal: Edi Montechi
Assistência de direção: Alexandre David
Assessoria de imprensa: Christovam de Chevalier
Design gráfico: Claudio Sales
Direção de produção: Joaquim Vidal
Realização: LM Produções Artísticas e Melhor a Doi2
Serviço:

Temporada: de 08 de março (estreia) a 27 de abril
Local: Teatro Candido Mendes (R. Joana Angélica, 63, Ipanema. Tel: 2523-3663)
Dias e horários: terça a quinta, às 20h30m
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos
Lotação: 103 lugares


Palpites para este texto:

  1. Carlos Maurício Ardissone -

    Assisti a peça em sua primeira temporada no Laura Alvim e endosso as observações sobre a qualidade dramática da atuação de Luiz Machado. Atuação vigorosa, visceral e comovente. Não tinha atentado para a questão da integridade. É mesmo tocante como, mesmo imerso em sua loucura, o personagem mantém sua altivez e princípios. Tudo isso não obstante as terríveis perdas que sofreu. Vale muito a pena assistir e recomendo a todos que prestigiem onde a peça estiver em cartaz.

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