Crítica: Nine


 

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Por Renato Mello.

O palco do recém-inaugurado Teatro Porto Seguro, São Paulo, foi o lugar que acolheu a estreia do novo musical que leva a assinatura e o olhar de Charles Möeller e Claudio Botelho, “Nine, um Musical Felliniano”.

Nine” é um musical que levou um longo tempo de gestação desde que foi inicialmente concebido em 1973 por Maury Yeston até sua derradeira estreia que só veio a ocorrer em 1982, que tal como seu protagonista Guido Contini, sofreu em seu processo de uma crise criativa que só foi solucionada quando o produtor e diretor Tony Tune, profundamente insatisfeito com seu o texto, trouxe para o projeto Arthur Kopit. O papel principal coube a Raul Julia e ao final da jornada “Nine” acabou recebendo 5 prêmios Tony.

Inspirada na atmosfera do clássico de Federico Fellini “”, a história gira justamente em torno da mencionada crise criativa do diretor de cinema Guido Contini gerando consequências na sua já atribulada relação com o universo feminino que oprime o diretor através das diversas formas de poder que uma mulher é capaz de exercer, representados no palco através de arquétipos, como “a esposa”, “a amante”, “a atriz”, “a prostituta”, “a mãe” e “a chefe”(no caso específico uma durona produtora de cinema).

Pessoalmente, não considero “Nine” dos textos mais empolgantes e mesmo relevantes do ponto de vista musical, que tem seu ápice na execução de “To Voglio Bene/Be Italian”. Porém com a habitual competência de Möeller e Botelho e com a busca de um olhar pessoal impresso pela dupla, a adaptação brasileira acaba por se tornar exitoso, gerando um espetáculo de bom nível técnico, beleza visual e com um cuidado nos diálogos para deixa-lo mais próximo do público nacional, longe de se tornar uma mera réplica de um standard da Broadway.

Nicola Lama(Guido Contini), Carol Castro(Luisa Contini), Totia Meireles(Lili La Fleur), Malu Rodrigues(Carla Albanese), Vanessa Costa(Claudia Nardi), Letícia Birkheuer(Stephanie), Beatriz Segall(Mãe de Guido), Myra Ruiz(Sarraghina), Renata Vilela(Nossa Senhora do Spa),Camilla Marotti(Veronica), Lais Lenci(Francesca), Lola Fanucchi(Rossella), Isabella Moreira(Giulietta), Priscila Esteves(Sofia), Gabriel Ferrarini e Nicolas Cruz(Guidinho), formam um elenco heterogêneo em diversos aspectos(experiência de palco, técnica vocal, expressão corporal, dança, etc) mas a cuidadosa direção de atores de Möeller e Botelho foi importante para amenizar possíveis desníveis que poderia ter ocorrido e mesmo quando é percebido alguma diferença ela foi atenuada, justamente porque os atores tiveram na dupla de diretores a confiança necessária que lhes levariam a um porto seguro.

A escolha de Nicola Lama para o papel protagônico foi sem dúvida o ponto alto em relação às interpretações. O ator domina inteiramente a cena esbanjando charme com a criação de um personagem inteiramente acuado diante do poder e da força feminina que lhe vem de todos os lados. Grande timing para o aspecto cômico e sem medo de cair no ridículo do seu personagem. Nicola é um grande cantor e ator, que após “Nine” será com toda certeza um dos nomes de proa do teatro musical brasileiro. Brilhante!

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Foto: Rodrigo Fonseca – Nicola Lama(Guido Contini) e Malu Rodrigues(Carla).

Malu Rodrigues, como Carla, a amante de Guido. Impressiona como uma atriz de 21 anos apresente no palco tal nível de maturidade, não apenas em “Nine”, mas em todos os seus espetáculos que pude assistir. Engraçada e lânguida Malu volta a ter uma ótima atuação e quando canta então, se torna uma verdadeira benção para a plateia, com sua voz limpa, cristalina e belíssima.

Totia Meireles, a produtora durona Lili la Fleur, que chega para enquadrar o escorregadio Guido. Totia esbanja toda a experiência e segurança em cena, uma das atrizes mais competentes do teatro musical nacional.

Carol Castro, a esposa consegue trabalhar bem nos diferentes registros exigidos pelo seu personagem, da melancolia extrema da mulher deixada de lado, à explosão de sensualidade que se esconde dentro do seu comportado vestido. Apenas é possível perceber uma titubeação quando são exigidas suas qualidades vocais, mas sem comprometer.

A grande revelação do espetáculo sem dúvida é Myra Ruiz, como a prostituta Sarraghina. Além de excelente técnica vocal, atriz demonstra enorme presença e personalidade em cena. Responsável por um dos momentos mais impactantes do espetáculo com sua interpretação de “Ti Voglio Bene/Be Italian”. Uma atriz que se encontrará rapidamente com uma bem-sucedida carreira no teatro musical.

foto: Rodrigo Fonseca.

Foto: Rodrigo Fonseca – Myra Ruiz como Sarraghina.

Importantíssimo se fazer um registro para a presença de Vanessa Costa, como Claudia, a atriz diva de Guido. Vanessa, originalmente assistente do coreógrafo de “Nine”, Alonso Barros, assumiu em caráter de urgência o papel faltando 3 dias para a estreia e perante a dimensão do desafio, saiu-se muito bem.

Há um revezamento entre os atores mirins Gabriel Ferrarini e Nicolas Cruz no papel de Guido criança. Na noite que assisti, o papel foi interpretado por Nicolas que demonstrou um carisma, ritmo e empatia.

No aspecto técnico, uma equipe de primeiríssima qualidade que já acompanha Möeller e Botelho há um bom tempo e que tem sempre dado importantes contribuições para o resultado final dos seus trabalhos, tal como voltou a ocorrer com “Nine”. Os cenários de Rogério Falcão fazem os atores se desenvolver por uma pequena escadaria da madeira, que tinha seu fundo modificado permanentemente por diversos elementos funcionais que tinham a capacidade de mudar a atmosfera, que ganharam enorme destaque com a linda iluminação criada por Paulo Cesar Medeiros, que mudava o tom do fundo do palco com cores fortes e vivas, importantíssimo para manter o teom felliniano da proposta. As coreografias de Alonso Barros são elementos decisivos para o êxito final, com uma dinâmica, ocupação do espaço cênico de modo harmônico e ajudando a criar toda atmosfera necessária para se contar essa história.

Os figurinos de Lino Villaventura despontam por um bom gosto, beleza e cai com grande perfeição para a elegância necessária de uma ambientação que se passa em Veneza.

A direção musical de Paulo Nogueira é de altíssimo nível, utilizando de metais que dão enorme força e beleza à execução das canções.

Um destaque para o belíssimo Teatro Porto Seguro, que pese eu ter atravessado toda a cidade de São Paulo para chegar no Bom Retiro, muito bem projetado, ótima acústica, confortável(generoso espaço entre as poltronas), excelente visibilidade de qualquer lugar da plateia e por fim, com uma recepção impecável ao público através de empregados, seguranças e atendentes solícitos e muito bem educados.

Nine” é na minha opinião, uma prova inequívoca do talento de Charles Möeller e Claudio Botelho, que transformaram um musical que não nutro grandes empatias, num espetáculo belo e de grande qualidade artística. Mostrando que não é necessário gastar R$ 10 milhões de reais para se montar um musical rico(em qualidade e artisticamente) e relevante dentro do cenário teatral brasileiro.


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