Crítica: Nossas Mulheres


 
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Foto: Nana Moraes

Por Renato Mello

Embora possa a princípio parecer um tratado de celebração à amizade, “Nossas Mulheres” busca na verdade um olhar prolongado de relações aparentemente solidificadas por mais de 2 décadas de convivência masculina para traçar a sua linha divisória. Até que ponto se pode ir em nome da camaradagem e de histórias em comum? Realizada pela Primeira Página Produções e  Brain+, produzida por Maria Siman e direção de André Paes Leme, “Nossas Mulheres” permanecerá em cartaz até o dia 24 de setembro no Teatro Ipanema .

Nos Femmes”, no original, foi um estrondoso sucesso nos palcos parisienses em 2013, lotando os 1100 lugares do “Théâtre de Paris” em todas suas sessões. O texto do tunisiano, radicado em Paris, Éric Assous, teve direção e atuação de Richard Berry, compartilhando a cena com Daniel Auteuil(indicado ao Prêmio Molière, vencido ao final por Robert Hirsch) e Didier Flamand. Na temporada de 2015, Auteuil foi substituído por Jean Reno. Nisso, apenas um breve comentário: se não há grau de comparação entre Daniel Auteuil e Jean Reno, igualmente na adaptação cinematográfica optaram por substituir Flamand por um ator, digamos, mais conhecido do grande público embora de qualidade inferior, como Thierry Lhermitte. Mas enfim, isso não nos afeta por aqui.

A narrativa se inicia de forma prosaica, amigos de longa data, Max(Edwin Luisi) e Paulo(Ísio Ghelman) são radiologista e reumatologista, aguardando no apartamento de Paulo a chegada de um terceiro amigo para se juntar ao jogo de cartas, Simão(Marcio Vito e Edmilson Barros se revezando no papel). Enquanto Simão não chega, algumas pistas propositalmente incompletas são deixadas pelo autor. Um apartamento aparentemente situado numa boa região da cidade, plantas expostas, uma vitrola e diversos vinis pendurados ao fundo. Casado, mas vivendo em casas separadas. As informações nos ajudam a uma compreensão do anfitrião, arraigado à hábitos e avesso a mudanças significativas. Apesar de uma boa carreira, depreende-se um vazio no seu convidado, relacionado às relações familiares frias e distantes. Vidas solitárias, temperamentos irascíveis. A revirada se inicia no momento que Simão(interpretado por Marcio Vito no dia que assisti ao espetáculo)  adentra como um tormento ao apartamento com a notícia surpreendente que acabou de matar a mulher. Ele pede aos amigos para mentir à polícia.

Confrontados a uma situação perturbadora, Paulo, de temperamento consensual e Max, o clamante, se comportam de modos distintos diante de uma tragédia que os levará ao centro de um enorme problema,  lhes abrindo uma fenda sobre o  ponto que os manterá, ou não, distanciados de uma “confortável” passividade. O polimento social se esvai por comportamentos inadvertidamente eruptivos que confrontam três amigos que julgavam se conhecer profundamente, e suas verdades interiores vão sendo reveladas ou por vezes, mal compreendidas. O texto de Assous, traduzido por Beatriz Ittah, constrói uma comédia que ridiculariza as improbabilidades, impulsionando uma máquina tragicômica em que seus personagens deixam de lado questões lógicas. Porém percebe-se uma oscilação no seu fluxo narrativo, em que o espetáculo se inicia promissor, com boas lacunas tendenciadas ao preenchimento, mas não encontrando soluções que mantenham o nível conceitual da proposta, caindo em um movimento circular que custa um pouco a ser quebrado para só retomar o fôlego nos momentos finais, embora com certa previsibilidade diante de argumentos dispostos como álibis para um desenho de personalidades distintas e algumas situações soando forçadas, independente do chamariz com que foram utilizadas.

O resultado prático do tratamento dramatúrgico de Assous é que “Nossas Mulheres” atinge um patamar cênico agradável, simpático e de bom nível técnico, mas que nem mesmo a direção de André Paes Leme consegue alça-la a voos mais ambiciosos como “comédia”, ou encerrar uma de suas propostas de princípios, de narrar “o que acontece com a cabeça de  um homem a partir das relações afetivas e como se comporta o olhar masculino nos relacionamentos amorosos e casamentos”, cujo objetivo entendo como parcialmente atingido.

A proposição cênica de André Paes Leme se mostra de acordo com a essência do texto, com importante contribuição na composição da ambientação, principalmente pela boa cenografia de Miguel Pinto Guimarães, que além da adequação, permite por parte do diretor uma boa tomada de espaço e das movimentações, conseguindo trabalhar zonas controversas e intrínsecas dos  personagens, mesmo se em alguns momentos a temperatura não tenha alcançado altura compatível com as pretensões dramatúrgicas.

Comemorando 45 anos de uma das mais emblemáticas carreiras da nossa cena teatral, Edwin Luisi expõe interessantes nuances numa personalidade que reserva uma difícil relação consigo, com alguma necessidade da autoimposição e irritadiço, o ator vai compondo linhas delicadas de composição para que possamos nos aprofundar na motivação de seus gestos, atitudes perante os acontecimentos e mesmo perante à vida. Ísio Ghelman atinge um patamar de interpretação elevado com um personagem sem uma vida inspiradora, represado em angústias e emoções que o ator dosa numa paleta comportamental perfeita até o culminar de uma explosão sentimental que se insere no mais interessante momento do espetáculo. Marcio Vito tem uma pontuação difícil em alguns breves e distintos momentos, que superficialmente aparenta uma tipologia distinta, com um gosto destoante(julgando pela aparência, figurino e profissão) dos demais personagens, deixando alguns questionamentos pendentes de características relacionadas a algumas falhas, até mesmo de caráter, mas que a narrativa demonstra o quanto é preciso abster o supérfluo para  uma melhor fundamentação.

Os figurinos de Bruno Perlatto contribuem positivamente no desenho dos personagens, distinguindo-os em suas personalidades e posicionamentos sociais.

Nossas Mulheres” é um bom espetáculo, com um elenco de alto nível, um diretor coerente em suas proposições, mas que não atinge todo o seu potencial pela acomodação na forma como o autor sustenta sua estrutura cômica. O resultado quedou algo frio, mas ainda assim tem qualidades.

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Foto: Nana Moraes

Serviço:
Teatro Ipanema
Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema
Bilheteria: 2267-3750 (Vendas TicketMais)
Estreia dia 11 de agosto
Temporada: Até 24 de setembro
Dias e horários: Sábados, domingo e segundas às 20h.
Ingressos:R$50,00 inteira / R$25,00 meia
Duração: 80 minutos
Classificação: Livre
Gênero: Comédia

Ficha Técnica
Elenco:  Edwin Luisi, Isio Ghelman, Marcio Vito e Edmilson Barros.

Texto – Éric Assous
Tradução – Beatriz Ittah
Direção – André Paes Leme
Diretor assistente: Anderson Aragon
Direção de produção – Maria Siman
Iluminação: Renato Machado
Trilha Sonora: Ricco Viana
Figurinos: Bruno Perlatto
Cenografia: Miguel Pinto Guimaraes
Projeto Grafico: Daniel de Jesus
Fotos: Nana Moraes
Assessoria de Imprensa: Barata Comunicação
Comunicação e Marketing: Brain+
Produção executiva: Fernanda Silva e Felipe Valle
Realização: Primeira Página Produções e  Brain+


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