Crítica: O Beijo no Asfalto – O Musical


 

o beijo 1

Por Renato Mello.

Uma montagem musicada de uma peça de Nelson Rodrigues é algo surpreendente, embora até consigamos fazer um exercício de imaginação de uma trilha sonora em paralelo com a contundência das situações que perpassam ao longo de todo o universo rodrigueano. Claudio Lins vislumbrou a possibilidade de transpor esse desafio que acabou por desaguar em “O Beijo no Asfalto – O Musical”, que ganhou direção de João Fonseca e está finalizando nesse final de ano sua temporada no Teatro das Artes, Shopping da Gávea, após o grande êxito de sua passagem pelo Teatro Sesc Ginástico.

É preciso dimensionar o tamanho da ousadia de Claudio Lins. Mexer na estrutura de um clássico do teatro brasileiro e escrito pelo mais emblemático de nossos autores é um risco incalculável. Qualquer erro é um caminho sem volta para a execração. “O Beijo no Asfalto” tem um equilíbrio narrativo, uma conjuntura desenvolvida milimetricamente e uma galeria única de personagens, com uma tentação sempre à espreita que convida a um exagero indevido nas cargas dramáticas. Como se isso não fosse suficiente, existe por trás dos direitos das obras de Nelson Rodrigues uma administração ciosa, que uma simples alteração numa frase pode catalisar uma animosidade entre a família e os responsáveis pela montagem, como eu mesmo pude testemunhar “in loco” em 1994 no saguão do Teatro Nelson Rodrigues(no prédio do ex-BNH) logo após a estreia de “A Falecida”, a indignação expressada sem meias-palavras por Joffre Rodrigues questionando supostas inserções por parte do encenador Gabriel Villela na obra, embora alguns dias mais tarde o próprio Joffre reconheceu publicamente ter se equivocado. Portanto, há igualmente uma demonstração de capacidade empreendedora por parte de Claudio Lins ao conseguir algum tipo de permissão para mexer nas estruturas de um texto de Nelson Rodrigues.

beijo-no-asfalto-1971

O Beijo no Asfalto, direção Fernando Torres – 1960

O Beijo no Asfalto” foi escrito em 1960 a pedido de Fernanda Montenegro, que precisou usar de muita persuasão para que o texto fosse concluído. A 1ª montagem foi dirigida por Fernando Torres e contou com no seu  elenco com Oswaldo Loureiro, Fernanda Montenegro, Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Mario Lago, Suely Franco, Renato Consorte e Zilka Sallaberry e tal como a atual montagem, realizou sua estreia no então denominado Teatro Ginástico.

A história tem seu ponto de partida na Praça da Bandeira, quando um homem é atropelado por um lotação e à beira da morte pede um beijo para quem lhe vai acudir, Arandir(Claudio Lins). O repórter da Última Hora, Amado Ribeiro(Thelmo Fernandes), presencia o atropelamento e o beijo. Com a conivência de um delegado de polícia inescrupuloso(Claudio Tovar) transforma o acidente num caso de pederastia em praça pública com o simples intuito de vender jornal, porém com o desenrolar da situações, as consequências do caso vão ganhando maior gravidade, inclusive na vida afetiva e profissional de Arandir.

Apesar de ser um texto de seu tempo, “O Beijo no Asfalto” está longe de ser datado na sua abordagem, embora algumas questões já deixaram de ser um tabu ou ainda chocar, como ocorria em 1960, como podemos depreender da passagem abaixo extraída do livro “O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro.

“Quando a peça estava no Maison(de France), Nelson ia todas as noites para o teatro e ficava no saguão, de guarda-chuva no braço, com seu filho Joffre, tomando satisfações de quem saía indignado no meio do espetáculo:

Corria atrás do sujeito e o interpelava:

“Mas vem cá. Me diz uma coisa. O que o ofendeu nessa peça?”

Às vezes o cidadão engrossava e Nelson engrossava de volta. Mas quase sempre conseguia convencê-lo a voltar para ver o resto”.

Porém permanecem atuais questões como a manipulação da imprensa que passa como um rolo compressor para atingir seus objetivos comerciais, não se preocupando minimamente em destruir reputações.

o beijo 2

A aprofundada pesquisa realizada por Claudio Lins foi de grande felicidade, resgatando para o palco vários aspectos do Rio de Janeiro da virada da década de 50 para os anos 60 para contextualizar sua criação musical, utilizando emblemáticas canções e se apropriando da atmosfera do Brasil daqueles anos, com um Rio deixando de ser capital, construindo um retrato da fugaz passagem de Jânio Quadros pela presidência, anterior aos tempos turbulentos que viriam quando o Rio e o Brasil pareciam no limiar da perda da “inocência”. Há citações e execuções de clássicos como “Negue”, “A Noite do Meu Bem”, “Na Cadência do Samba” ou “Varre-Varre Vassourinha”, todas com bastante sintonia com os momentos dramatúrgicos que estavam inseridas, assim como pareceu-me algumas influências de “Ópera do Malandro”, com referências a “O Meu Amor”, tanto em algumas notas similares, como na concepção cênica do embate entre Selminha(Laila Garin) com sua vizinha(Janaína Azevedo).

Nas composições criadas por Claudio Lins, melodias e letras sofisticadas, com grande destaque para a abertura “Ainda Aqui/Volta Tudo” num clímax de delírio com as cenas indo e vindo no tempo. A linha musical transcorre com passagens por gêneros distintos como tango, samba, samba-canção e até rap, demonstrando o músico estar bastante à vontade nesse universo criativo. Podemos destacar também alguns outros momentos como “Todo Dia” “Não foi o Primeiro Beijo”, e “Toda Noite”.

O desenvolvimento cênico de João Fonseca tem a grande virtude de saber aproveitar a virtuosa concepção musical de Claudio Lins e encaixa-la dentro do texto Rodrigueano, sem diluir a sua força. Cria boas soluções e com importantes elaborações de uma atmosfera que mescla momentos de alta dramaticidade, mas sempre acertando na altura e no tom adequado. João concebe uma dinâmica e mantém o espetáculo num ritmo correto para uma perfeita fluência, que resultaram num espetáculo absolutamente encantador e com uma grande linearidade ao longo de seus 150 minutos de duração.

o beijo 3

O Beijo no Asfalto, o Musical” conta com um elenco primoroso, com artistas na plenitude da sua maturidade artística:  Arandir (Claudio Lins). Selminha (Laila Garin). Aprígio (Gracindo Jr – Ator Convidado). Dália (Yasmin Gomlevsky). Amado Ribeiro (Thelmo Fernandes), Cunha(Claudio Tovar), Aruba(Jorge Maya), D. Mathilde(Janaína Azevedo), Werneck(Gabriel Stauffer), morto(Pablo Áscoli), Pimentel(Ricardo Souzedo), viúva(Juliane Bodini), D Judith(Juliana Marins).

Grande atuação de Claudio Lins, vivendo o atormentado Arandir, com toda angústia expressa na tonalidade correta, sem exageros desnecessários, mas com a demonstração de todo o drama interno vivido por seu personagem. Assistir Laila Garin em cena é acima de tudo um enorme prazer tal sua qualidade incontestável como cantora, mas igualmente sua imensa capacidade dramática, vivendo uma dona de casa apaixonada pelo marido que se depara com situações que todo o seu mundo idealizado começa a desmoronar, numa composição de alta carga dramática e inteiramente contextualizada dentro das intenções e necessidades do texto de Nelson Rodrigues.  Thelmo Fernandes e Claudio Tovar personificam na união do jornalismo sensacionalista com a polícia, os canalhas rodrigueanos. Podres e sem limites para atingir seus fins, que ambos personificam com bastante força e uma sordidez “encantadora”. Yasmin Gomlevsky tem em Dália sua segunda e bem sucedida incursão somente neste ano no universo de Nelson Rodrigues(encenou “Anti-Nelson Rodrigues” no 1º semestre). Agora com um personagem típico da sua vasta galeria, a “cunhada impossível”, mas que nesse texto tem contornos um pouco distintos. Yasmin é uma atriz com grandes recursos dramáticos e vocais, demonstrados plenamente em cena. Jorge Maya é responsável pelos melhores momentos cômicos com Aruba, em que o ator usa seus dotes humorísticos e toda sua expressividade corporal. Gracindo Jr consegue manter-se em alto nível dentro de uma permanente dubiedade do seu personagem. Janaína Azevedo, Gabriel Stauffer, Pablo Áscoli, Ricardo Souzedo, Juliane Bodini e Juliana Marins, mesmo com papeis coadjuvantes, tem seus momentos particulares e mantém-se no alto nível de todo o elenco. Juliane Bodini também é importante ressaltar sua adorável composição como a viúva “inconsolável”.

Excelente direção musical de Delia Fischer, trabalhando as composições originais de Claudio Lins num clímax correto para a altura e necessidade dramática de cada intenção ou momento.

Os figurinos de Claudio Tovar possuem um grande refinamento nas suas formas e cortes, com perfeita adequação às necessidades para a composição de cada personagem, além de uma extensa pesquisa de época muito bem realizada.

Os cenários de Nello Marrese possuem bastante funcionalidade para as idas e vindas dos diversos ambientes.

Luis Paulo Neném faz um belo desenho de luz, realçando com grande competência a dramaticidade de cada momento cênico, além de grande beleza estética. Destaque especial para a cena de Laila Garin sob uma luz em tom azul cantando “A Noite do Meu Bem”, causando um belo impacto visual.

Escrevo este texto algumas horas após tomar conhecimento que Claudio Lins foi indicado ao Prêmio Shell de inovação, “pela iniciativa de criar uma dramaturgia musical em diálogo com a obra de Nelson Rodrigues”. Num ano que tivemos um altíssimo nível no teatro musical brasileiro, juntamente com “O Homem de la Mancha”, considero “O Beijo no Asfalto, o Musical” o melhor espetáculo do gênero em 2015. Digno de todos os prêmios e indicações.

Ficha técnica
Direção Geral: João Fonseca
Trilha Original: Claudio Lins
Direção Musical: Délia Fischer
Figurinos: Claudio Tovar
Cenário: Nello Marrase
Iluminação: Luis Paulo Neném
Direção de Movimento: Sueli Guerra
Engenheiro de Som: Carlos Esteves
Assistente de direção: Lucas Massano
Assistente de Figurino: Thiago Detofol
Assistente de Cenografia: Lorena Lima
Programações Eletrônicas e Orquestrações: Heberth Souza
Pianista Regente e Assistente Direção Musical: Evelyne Garcia
Arranjos Vocais: Augusto Ordine
Preparação Vocal: Janaína Azevedo
Produção Executiva: Ana Beatriz Figueras
Produtora assistente: Taiana Storque
Direção de Produção: Isabel Themudo


Palpites para este texto:

  1. Meu caro Renato.
    Na noite em q vc esteve no espetáculo, tive a impressão de não ter agradecido devidamente O seu empenho cultural. Obrigado pelas palavras lindas acima.
    Ab
    Claudio Lins

    • Imagina, Claudio. Para mim foi uma grande honra ter recebido o convite de vocês para entregar no palco após o espetáculo o prêmio. Inclusive suas palavras iniciais ao me chamar foram de extrema gentileza e delicadeza. Um grande abraço

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

novembro 2017
D S T Q Q S S
« out    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930