Crítica: O Bigode


 

O Bigode foto © Aline Macedo - 25

Por Renato Mello.

Fotos: Aline Macedo.

A adaptação do romance “O Bigode”(“Le Moustache”), do escritor francês Emmanuel Carrère, ganha os palcos cariocas somente até o próximo fim de semana(27 de março) no Teatro Glauce Rocha, com direção de Eduardo Vaccari.

A encenação é o primeiro tratamento teatral que recebe esse texto, que segundo sua própria sinopse oficial aborda a história de homem que “ao se barbear, pergunta a sua esposa: ‘E se eu raspasse o bigode?’ De saída, ela responde encorajando-o ao ato. Ele aproveita sua rápida ausência e decide fazer-lhe esta surpresa. Raspa o bigode que usava há anos. Porém ao retornar ao apartamento ela não faz nenhum comentário e parece ignorar a mudança no visual do marido. De início, parece se tratar de uma troça da esposa. Aos poucos a situação vai se tornando mais curiosa, pois as outras pessoas que ele encontra também não notam ou, pelo menos, não comentam a diferença. Já irritado e desgostoso com a suposta brincadeira de mau gosto, ele finalmente decide perguntar: ‘Você não vai falar nada sobre eu ter raspado o bigode?’ Ao que ela responde: ‘Que bigode? Você nunca teve bigode!’”

Verter um texto, mesmo que exitoso e reconhecido, para uma diferente expressão artística está longe de ser uma ciência exata, o que é justamente o problema dessa montagem que não encontra em seu desenvolvimento dramático um abrigo nos palcos teatrais, cujas exigências acabam normalmente aprisionando a obra num tempo bem marcado e num espaço físico delimitado em contraposição com a infinitude da liberdade espacial, imaginativa e inconsciente que um escritor tem ao seu dispor . A proposta inicial do espetáculo desenvolvida por Ricardo Leite Lopes até começa bem interessante, mas com 20 minutos deixa uma sensação de que está se aproximando do seu esgotamento, o que acaba por se confirmar um pouco além, momento em que a narrativa parte para outros rumos que acabam por perder inteiramente o sentido e que em nenhum momento consegue aprofundar a crise de identidade e a barafunda emocional do protagonista ao se descobrir envolto num turbilhão de loucura desencadeado por um gesto aparentemente banal.

A base dramatúrgica incoerente acaba por limitar a construção cênica de Eduardo Vaccari, que não tem êxito na busca por uma fluidez narrativa, deixando o espetáculo num ritmo um pouco arrastado e sem meios de expandir o aprofundamento mental do seu protagonista.

O Bigode foto © Aline Macedo - 29

Vicente Coelho diante dos obstáculos que se defronta, acaba por não exprimir a profundidade da confusão interna do seu personagem, mas consegue encontrar um caminho retilíneo que mantém alguma verdade em meio a todas as suas dúvidas e angústias. Os personagens no entorno do protagonista carecem de melhor delineamento. Dulce Penna interpreta Agnès, companheira do protagonista, A Atriz sofre diretamente com a irregularidade do texto, tendo uma participação ativa no embate inicial até praticamente desaparecer a partir da metade do espetáculo. Mas enquanto se mantém no palco, Dulce Penna mantém um bom nível de atuação e realiza um bom jogo cênico com Vicente Coelho. João Lucas Romero, ator que tenho em muito bom conceito, não consegue marcar eficazmente os diferentes personagens que interpreta, além de fazer as vezes de narrador, cujo artificio de sua utilização colabora para empobrecer o desenvolvimento dramatúrgico.

O cenário assinado por Carla Ferraz utiliza-se de 2 estantes com vários objetos utilizados na narrativa. Na movimentação das estantes se dão as mudanças dos distintos ambientes. O fundo do cenário não deixa claro(pelo menos para mim) sua real motivação, que li como uma representação do sistema nervoso do protagonista, não acrescentando nenhum elemento prático à criação cênica, além de um eventual impacto visual a partir da conjunção com a movimentação da luz de Vitor Emanuel.

Os figurinos de Carla Ferraz de acordo com a proposta e o perfil dos personagens.

O Bigode” demonstra como é tortuoso o percurso de um bom livro para encontrar no teatro um correspondente à altura.

O Bigode foto © Aline Macedo - 38Serviço
O Bigode
Local: Teatro Glauce Rocha. Av. Rio Branco, 179, Centro, Rio de Janeiro. Tel. 2220-0259

Temporada: 5 a 27 de março. Quarta a sábado às 19h e domingo às 18h.

Classificação indicativa: 16 anos
Ingresso: R$ 40,00 (inteira)
Duração: 80 minutos
Gênero: Drama

Ficha Técnica
Autor: Emmanuel Carrère
Adaptação: Ricardo Leite Lopes
Direção: Eduardo Vaccari
Elenco: Vicente Coelho, Dulce Penna e João Lucas Romero
Cenário e Figurinos: Carla Ferraz
Iluminação: Vitor Emanuel
Trilha Sonora Original: Arthur Ferreira
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Programação Visual: Evee Avila e Fernanda Guizan  – Balão de Ensaio
Direção e Execução de Produção: Paula Valente e Rubi Schumacher – Curiosa Cultural

Realização: LUPA e Alessandra Reis 27 Produções Artísticas


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