Crítica: O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha


 

Batalha (42) - foto Ana Alexandrino

Fotos: Ana Alexandrino.

Por Renato Mello.

São desafiantes os caminhos da dramaturgia de Matéi Visniec. É necessário arrancar da organicidade de sua narrativa os elementos corretos para possibilitar um rumo que não espreite o precipício. Seus textos são como o quadro de Munch, utiliza-se de uma paleta de gradações frias para ecoar do fundo d’alma um grito de desespero de personagens sempre à deriva no meio de suas travessias. Extrai-se um olhar crítico de um autor que conhece intrinsicamente a insanidade que habita no autoritarismo, independente do formato que se apresente, vivenciado pelo próprio Visniec na genocida Romênia comunista sob o comando da família Ceausescu, aonde encontrou a matéria-prima para fundamentar as contradições humanas e expor o lado burlesco do poder.

De praticamente inédito no Brasil, o romeno Matéi Visniec tornou-se um dos autores mais montados nesses últimos 2 anos em nossos palcos. Isso não quer dizer necessariamente que tenha sido bem montado, algumas mesmo foram pífias. De memória, recordo espetáculos como “História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais”(direção de Miguel Hernandez e André Abujamra), “Espelho Para Cego”(Márcio Meirelles), “2 X Matéi”(Gilberto Gawronski), “Paparazzi”(Adriana Maia”) e mais recentemente um espetáculo muito interessante chamado “Crônica Para uma Cidade ou Um Amanhecer Abortado”(Ricardo Rocha).

Com direção de Fernando Philbert e tradução de Alexandre David, o Espaço Sesc apresentou até esta semana mais um texto de Visniec, “O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha”(“Du sexe de la femme comme champ de bataille“), escrito originalmente 1996, sob o profundo impacto da então recém acabada da Guerra da Bósnia, conflito que deixou para trás um rastro inominável de atrocidades por fatores nacionalistas, étnicos e religiosos, cujas maiores vítimas foram mulheres e meninas que sofreram o que passou a ser denominado “estupro em massa”. Estima-se que aproximadamente 40.000 mulheres foram violentadas de forma sistêmica pelas forças sérvias. Esses acontecimentos jamais foram julgados pelo tribunal internacional por serem considerados como atos realizados de forma isolada, porém, após esse conflito a violação foi reconhecida pela primeira vez como uma arma de guerra, utilizada como instrumento de limpeza étnica e genocídio. Visniec escreveu “O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha” sem aquele espaçamento histórico que costuma decantar os elementos ácidos separando-os lentamente pelo recipiente, mas ainda no calor do acontecimento. Talvez, por isso mesmo o texto possua a capacidade de ressoar esse frêmito de dor dilacerante.

Batalha (57) - foto Ana Alexandrino

O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha” estrutura-se no encontro de mundos díspares, “Duas mulheres se cruzam depois do conflito bósnio, uma terapeuta norte-americana e uma bósnia violentada. Ambas revelam suas histórias numa tentativa desesperada de encontrar forças para continuar suas trajetórias”. A racionalidade científica se opondo à fragmentação emocional. Kate(Ester Jablonski), a terapeuta idealista que veio para desbarrancar valas comuns, que paralisa diante do horror alheio e Dorra(Fernanda Nobre) prostrada por  uma dor que lhe queima as entranhas.

“- Você sente a primavera?”,  pergunta Kate, diante da janela, sentindo na face a brisa que emana diretamente da beleza do Lago Constance, como quem busca abrir os desvãos para que os fantasmas que habitam aquele quarto de uma clínica de reabilitação alemã possam esvair-se. Mas a crueza narrativa de Visniec não faz concessões baratas para soluções aprazíveis. “- Não me diga que o tempo cura tudo…”, Dorra traz à tona a real dimensão da paralisia que domina a atmosfera. A estruturação se faz de maneira lenta, a confiança demora a se estabelecer, sendo preciso buscar elos distantes para que Kate se capacite a um mínimo de cumplicidade, sem deixar a fragilidade permanentemente exposta.

A proposta de Fernando Philbert se abre para a absorção da força estrutural que o texto de Visniec lhe exige ao longo de toda a encenação. Divide a sala multiuso do Sesc em duas fileiras de público, defrontando-se, mas com similaridades de perspectivas para ambos os lados.  Impregna a atmosfera com a dimensão trágica através de uma construção cênica que abre espaços para sua exteriorização, apoiando-se no uso apropriado de uma sonoplastia ruidosa, de uma iluminação em tons neutros e pelo modo adequado como o dilaceramento exposto por suas atrizes repercute por toda ambientação, seja através da intensidade das interpretações ou pela maneira como explora o espaço físico.

Ester Jablonski e Fernanda Nobre tem atuações dentro de uma linha de precisão bastante tênue e de difícil gradação, equilibrando-se ambas de maneira precisa e imprimindo um caráter de verdade em suas interpretações. Fernanda Nobre exterioriza com potência o limiar da sanidade a partir da sua desintegração física e moral, realizando um bom trabalho corporal. Ester Jablonski busca uma contraposição para preencher com estabilidade as lacunas que arrebentam sua paciente, numa personagem repleta de humanidade que tenta se reconstruir em meio ao caos que a rodeia. Essa complementaridade de Fernanda e Ester produz o esteio para que o espetáculo atinja com exatidão sua função como uma obra artística que incapacita veementemente algum tipo de passividade ao espectador.

O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha” é até o momento a melhor adaptação de um texto de Visniec que tive a oportunidade de assistir, abarcando uma proposta sem subterfúgios para expor a ilimitada capacidade ignóbil do ser humano.

Batalha (40) - Foto Ana Alexandrino

Ficha Técnica:
Texto: Matei Visniec
Tradução Alexandre David
Direção: Fernando Philbert
Elenco: Ester Jablonski e Fernanda Nobre
Iluminação: Vilmar Olos
Cenário e Figurino: Natália Lana
Trilha / Música Original: Tato Taborda
Direção de Movimento: Marina Salomon
Direção de Produção: Sergio Canizio
Realização: Jablonsky Produções Artísticas Ltda
Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Coordenação dos debates: Adriana Novis Leite Pinto


Palpites para este texto:

  1. Gostei muito do espetáculo ❤️

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