Crítica: O Estranho Caso do Cachorro Morto


 

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4-estrelas12O Teatro Leblon(Sala Marília Pêra) apresenta neste momento um dos melhores espetáculos teatrais em cartaz no Rio de Janeiro. Trata-se de “O Estranho Caso do Cachorro Morto”, com direção de Moacyr Góes.

A peça tem a sua origem no livro homônimo(no original “The Curious Incident of the Dog in the Night-Time”,  escrito por Mark Haddon em 2003 e que recebeu o prêmio literário Whitbread, concedido anualmente para livros editados na Grã-Bretanha e Irlanda. Em 2012 Simon Stephens foi o responsável por sua transposição para os palcos londrinos, estreando no Teatro Nacional de Londres e arrebatando ao fim da temporada sete prêmios Olivier, incluindo Melhor Peça, Diretor, Ator e Atriz Coadjuvante.

Tanto o livro quanto a peça tratam da vida de Christopher, um adolescente de 15 anos, filho de um mecânico, morador de uma pequena cidade inglesa e que sofre de síndrome de Áspenger, uma forma mais branda de autismo. O portador dessa síndrome apesar de possuir uma fala compreensível, tem dificuldades de expressar emoções, costumam fazer interpretações literais da linguagem(não compreendem as metáforas), se incomodam com mudanças na rotina e com pessoas desconhecidas. Alguns estudiosos afirmam inclusive que nomes como Isaac Newton, Ludwig Wittgenstein, Charles Darwin, Michelangelo, Stanley Kubrick e o enxadrista Bobby Fisher possuíam traços dessa síndrome.

Christopher(Rafael Canedo) sabe de cor todos os países do mundo e suas capitais, mas sua especialidade são os número primos. Tem sérios problemas nas relações humanas, reage desesperadamente ao menor contato físico com qualquer pessoa, porém adora animais. Um belo dia, Christopher é encontrado caído próximo ao corpo do cachorro de sua vizinha, morto de maneira brutal no jardim dessa. Depois de ser preso sob a acusação do crime, resolve sair pela vizinhança para descobrir o verdadeiro responsável. Nessa trajetória em busca da verdade, outros fatos vão sendo aos poucos sendo revelados em relação as suas próprias relações familiares através de uma série de mentiras e meias verdades que vão sendo despejadas para aquele adolescente, totalmente incapaz para lidar com tamanha gama de emoções.

Com o “Estranho Caso do Cachorro MortoGóes prova porque durante as décadas de 80 e 90 foi considerado um dos maiores encenadores do teatro brasileiro. É muito bom ver Moacyr Góes voltar a apresentar algo condizente com sua história no teatro, aonde ainda é guardado pelos amantes dessa arte alguns dos seus memoráveis espetáculos como “A Escola de Bufões”, “Peer Gynt”, “Abelardo e Heloísa”, “Cartas Portuguesas”. Sua direção é impecável, dinâmica, sabendo dosar violência com poesia, humanidade com egoísmo. Conta de antemão com uma base dramatúrgica extremamente sólida que foi sedimentada por Simon Stephens e traduzida por Rodrigo Fonseca, conseguindo extrair todo o sofrimento interno dos personagens, costurando um texto irretocável com diálogos inteiramente fluentes a partir do trabalho original de Haddon. Apesar da força do texto, existe também toda uma sutileza. Cabe ressaltar que em nenhum momento na peça é mencionado que o adolescente sofre de qualquer síndrome ou algo que o valha, tal informação já chega de antemão ao público apenas através de leitura prévia de jornais, blogs e críticas diversas. Embora a qualidade do texto seja elemento fundamental para o êxito dessa montagem, ficaria constrangedor a encenação de um texto de tal grau de complexidade por atores sem a capacidade para tal, mas justamente um dos pontos altos do espetáculo é sua direção de atores absolutamente soberba.

No que diz respeito às interpretações, o maior de todos os acertos é a estupenda atuação de Rafael Canedo interpretando o adolescente Christopher, escolhido após longo e difícil processo de audição. É difícil encontrar palavras para atuação tão impactante. Me surpreendi ainda mais ao descobrir posteriormente à apresentação que Rafael tem na verdade 26 anos. Jamais imaginaria que não era um adolescente que vi em cena. Sua caracterização, seu trabalho corporal, movimentação das mãos, cada detalhe faz da atuação de Rafael algo perfeito, sem nenhum traço de caricatura, como acostumamos a nos deparar com esse tipo de situação dramatúrgica. Seu trabalho passa tanta verdade que no momento dos agradecimentos finais eu foquei na busca do olhar do verdadeiro Rafael, tentando procurar o homem por trás de um  personagem que havia me emocionado até minutos antes. Fazia tempo que uma atuação não me impactava tanto.

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É preciso destacar também as excelentes atuações de Thelmo Fernandes e Sabrina Korgut.

Thelmo Fernandes interpreta Ed, o pai de Christopher. Talvez por ignorância minha, estava acostumado a ver Thelmo em papéis cômicos e por isso me surpreendi com sua atuação num papel de tamanha intensidade dramática, ao mesmo tempo com sutileza pela transformação por que passa seu personagem aos olhos do público, mesclando momentos de violência com outros de amor e entrega.

É ridículo o que vou dizer, mas até boa parte do espetáculo pensei que a Srta Siobhan, a mentora e professora do jovem Christopher, estava sendo interpretada por uma excelente atriz substituindo Sabrina Korgut. Simplesmente não reconheci Sabrina, até que chocado, descobri depois de longo tempo que era realmente ela quem estava em cena.  Igual ao que me acontece com Thelmo, me acostumei a ver Sabrina em musicais e não esperava uma atuação tão contundente e tão perfeita.

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No final, as atuações de Thelmo e Sabrina acabaram por ser importantes para me fazer quebrar ideias pré-concebidas. Sempre tive o maior respeito pelos trabalhos de Thelmo(na comédia) e de Sabrina(em musicais),  mas com “O Estranho Caso do Cachorro Morto”, descobri 2 atores completos e capazes de grandes atuações em qualquer tipo de personagem.

Silvia Buarque também tem boa atuação como a mãe de Christopher, embora não se destaque tanto como seus companheiros já citados. Tem o mérito de compor uma personagem que apesar da sua incapacidade e dificuldade em lidar com o filho, em contraste e embate com o personagem de Thelmo, consegue em despertar a compaixão pelo sofrimento, tudo com uma dose correta de delicadeza.

O elenco coadjuvante auxilia para a perfeita fluência do espetáculo, com os atores interpretando diversos papeis, contando com Leon Góes(Sr Shears, policial e bilheteiro), Carla Guidacci(Sra Shears), Paulo Trajano(delegado, Steve e vendedor), Eduardo Rieche(Reverendo Peters e guarda da  estação de trem), Ricardo Gonçalves(Sr Thompson, guarda da estação e policial de Londres) e Fabiana Tolentino(Garota punk, atendente, sr Gascoyne).

Outro aspecto importante a ser destacado é o cenário que foi desenvolvido por Ana Santanna e Monica Martins usando elementos conceituais em formatos geométricos como cubos e triângulos com números primos, interagindo permanentemente com os personagens, sendo que a cada cena tem modificadas suas concepções, aonde naquelas formas podemos visualizar diferentes intenções, podendo a nossos olhos ser uma simples cadeira, uma caixa ou mesmo um bairro ou uma cidade. Assim como o também encanta o belíssimo cenário estrelado ao fundo, que com a ajuda da boa iluminação(de Tomás Ribas) ajudam-nos a entrar no universo lógico de Christopher.

O Estranho Caso do Cachorro Morto”, com um dramaturgia de altíssimo nível e com um elenco impecável, é um dos melhores espetáculos teatrais que vi esse ano. Como amante que sou tanto de teatro e cinema, só me resta pedir para Moacyr Góes que foque toda sua energia criativa no teatro e esqueça de vez esse negócio de dirigir cinema, porque diante de um palco de teatro, poucos são tão bons quanto ele.

O Estranho Caso do Cachorro Morto

Teatro Leblon – Sala Marília Pêra

Ficha Técnica

Elenco: Thelmo Fernandes, Sabrina Korgut, Silvia Buarque, Leon Góes, Rafael Canedo, Carla Guidacci, Eduardo Rieche, Ricardo Gonçalves, Paulo Trajano e Fabiana Tolentino
Cenário: Ana Santanna e Monica Martins
Figurinos: Joana Mendonça e Luiza Oliveira
Desenho de luz: Tomás Ribas
Direção musical: Ary Sperling
Trilha Sonora Original: Rafael Sperling
Direção de Produção: Moacyr Góes
Produção Executiva: Juliana Lago
Assistentes de direção:Matheus Senra e Fernanda Curi
Video Mapping: Lucas Canavarro e Renan Brandão

* Fotos Cézar Moraes


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