Crítica: O Funeral


 

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Por Renato Mello.

Encenado aos sábados e domingos, “O Funeral”, texto escrito por Thomas Vinterberg e Mogens Rukov, é uma poderosa suíte da proposta apresentada neste momento no Teatro Poeirinha que se completa com a montagem nos dias anteriores da semana, quintas e sextas feiras, de “Festa de Família”(crítica AQUI), ambas sob a direção de Bruce Gomlevsky, fechando dessa forma esse círculo vicioso sobre os fantasmas que rondam aquela burguesa família dinamarquesa.

É justamente sobre fantasmas que trata “O Funeral”. Os fantasmas que habitam nas profundezas da alma humana e que se colocam à vista para despertar os mais ocultos e nefastos sentimentos que podem habitar dentro do ser.

Dez anos depois daquela terrível reunião ocorrida em “Festa de Família”, seus membros voltam a se reunir na velha casa em que passaram boa parte de suas vidas. Christian(Bruce Gomlevsky) , Michael(Gustavo Damasceno) e Helene(Luiza Maldonado), os 3 irmãos, absolutamente fracassados e frustrados em suas vidas pessoais com um histórico de traumas e feridas abertas. O motivo da reunião dessa vez é o funeral do patriarca, Helge(Jaime Leibovitch), o responsável direto por tal intensidade de sofrimento. Ladeando os 3 irmãos gravitam os personagens de Carolina Chalita(Pia), João Lucas Romero(Kim), Thalita Godoi(Sofie) e Raul Guaraná(Henning), sofrendo todas as consequências de tanta carga de dor, além da matriarca vivida por Xuxa Lopes(Else).

Logo ao entrarmos no foyer do Poeirinha, já somos defrontados com aquele nó no peito, que boa parte das pessoas já deve ter passado, quando vamos a um velório e somos dos primeiros a chegar. Ao entrar na capela nos deparamos com aquele corpo inerte, dentro de um caixão, entre flores, com a tampa encostada na parede. Nossa morbidez faz-nos chegar perto do defunto para depois nos afastarmos, mas mesmo à distância mantemos um olhar no morto. A espera para entrarmos na sala já traz a preparação de nossos espíritos para o tamanho da carga emocional que estaremos submetidos.

Na sala somos guiados e ajudados a chegarmos a nossos lugares, para evitar acidentes desnecessários por entre subidas, plataformas e escadas. O público fica localizado dentro do enorme retângulo formado por essas plataformas flutuantes, com 20 cadeiras dispostas e divididas em 2 fileiras(uma de frente para a outra). É nesse ambiente que o elenco vai se desenvolver ao longo da montagem. Na nossa frente, por trás e às vezes somos obrigados a movimentar o pescoço para cima num ângulo de 90 graus para acompanhar a encenação literalmente acima da nossa cabeça.

Por um lado não nos sentimos tão surpreendidos pelas revelações que são colocadas, pois depois de assistirmos ao anterior “Festa de Família”, ficamos com a sensação de que nada mais que venha da podridão daquele clã nos é capaz de impactar. Mas isso não faz dessas revelações menos fortes e asquerosas. “O Funeral” tem igualmente uma enorme força dramatúrgica e em certo aspectos talvez seja mais equilibrada do que “Festa”.

Assim como existe um maior equilíbrio também no desenvolvimento dos personagens, colocando-os num maior pé de igualdade, mesmo nos personagens mais periféricos da trama. Bruce Gomlevsky é pungente com a dor intensa de seu personagem. Jamais caminha pela obviedade e cria um personagem que carrega enorme ambiguidade, mesclando equilíbrio com confusão mental. Deixa-nos perplexos e sem sabermos se desperta asco ou pena. Bruce com sua grande capacidade interpretativa repassa-nos todas suas contradições. Mais uma brilhante atuação de Bruce Gomlevsky.

Excepcionais atuações do trio feminino formado por Luiza Maldonado, Carolina Chalita e Thalita Godoi. Luiza já havia realizado grande performance em “Festa de Família”, mas aqui deixa aflorar mais uma certa maldade de sua personalidade, apesar de um temperamento aparentemente amigável. Que grande atriz é Luiza Maldonado! Carolina Chalita tem um crescimento do seu personagem, não somente social, mas na importância dentro da trama. A atriz consegue com enorme qualidade expor toda a dor que a carga de desgraças daquela família impôs para sua vida e sua existência. Outra ótima performance! O personagem de Thalita Godoi é incialmente sutil, mas é surpreendente o modo com que acaba por revelar todo o furação de sensações e desejos que guarda consigo. A sequência que é assombrada por um velho fantasma daquela casa é de uma força e de uma entrega absurdamente verdadeira por parte de Thalita.

Gustavo Damasceno tem atuação forte e de enorme presença. Seu personagem assim lhe exige e o ator corresponde à perfeição.

Jaime Leibovitcht volta a ter grande atuação! A sordidez com que de seu personagem expõe os mais nojentos atos e a podridão de sua alma é colocada com uma mescla de elegância, o que faz dele mais repugnante.

João Lucas Romero, Raul Guaraná e Xuxa Lopes, completam um dos mais harmoniosos e equilibrados elencos que pude ver esse ano, todos com atuações extremamente convincentes.

O derramamento de elogios a todo o elenco não teria acontecido se não houvesse um diretor de pulso firme e que sabe conduzir atores como poucos fazem no teatro nacional como é o caso de Bruce Gomlevsky. “O Funeral” é a prova que poucos diretores de atores são tão bons quanto ele. Como se isso não fosse por si só suficiente para colocar de pé um belo espetáculo, impressiona sua criatividade cênica com uma ambientação de enorme dinamismo, com destaque para a cenografia de Bel Lobo e do próprio Bruce, fazendo-nos estar permanente atentos a cada canto da sala para não perdermos um olhar, um gesto ou a respiração do ator a menos de 1 metro de nós. A iluminação de Elisa Tandela é outro elemento de grande importância na atmosfera da montagem e na proposta de Bruce.

É importante mencionar que mesmo sendo uma continuação, é absolutamente possível assistir “O Funeral” independente da peça anterior. Mas seria aconselhável assistir “Festa de Família” antes. Não só para se situar melhor no contexto de “O Funeral”, mas pelo igualmente grande espetáculo teatral que é “Festa”.

O Funeral” vem recebendo nesse final de ano indicações aos mais importantes prêmios teatrais do ano, como o Shell e o Cesgranrio. Um reconhecimento justo a uma das mais fortes, belas e contundentes peças teatrais de 2014.

SERVIÇO
Teatro Poeirinha – R. São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

O Funeral
Dias e horários: sábados e domingos
Ingresso: R$ 40.
Classificação: 18 anos.
Até 21 de dezembro.

FICHA TÉCNICA
Texto: Thomas Vinterberg, Mogens Rukov
Tradução: Ricardo Ventura
Direção: Bruce Gomlevsky
Direção de produção: Rafael Fleury
Iluminação: Elisa Tandeta
Cenografia: Bel Lobo e Bruce Gomlevsky
Figurinos: Ticiana Passos
Direção musical: Marcelo Alonso Neves
Trilha original: Zbigniew Preisner
Visagismo: Marcio Melo
Assistente de direção: Elisa Tandeta
Assistente de cenografia: Marina Piquet
Ilustração: Maurício Grecco
Programação visual: Flávio Pereira
Assessoria de imprensa: João Pontes e Stella Stephany
Fotografia: Tatiana Farache
Coordenação de projeto: Rafael Fleury
Uma produção BG artEntretenimento


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