Crítica: O Garoto da Última Fila


 

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Por Renato Mello

Menos de 1 ano após a instigante montagem que Aderbal Freire-Filho fez para “A Paz Perpétua”, o dramaturgo espanhol Juan Mayorga retorna aos palcos cariocas em outra potente representação: “O Garoto da Última Fila”, com direção de Victor Garcia Peralta, em cartaz no Teatro das Artes do Shopping da Gávea até o dia 31 de agosto.

A última fila, o melhor lugar de uma sala de aula, aonde “ninguém vê você, mas você vê todo mundo”. Um espaço físico para a observação aguda que faz de um estudante solitário, um criador de sua própria vida que busca a atenção do olhar alheio, ou como sugere sua própria sinopse oficial, no seu encontro com um professor de literatura desiludido com um ofício que havia escolhido por acreditar “lhe permitir viver em contato com os grandes livros, e transmitir o seu amor por eles. Um dia, tenta explicar a noção do seu ponto de vista aos alunos e, para isso, pede–lhes que escrevam sobre o que fizeram no último fim de semana. E entre redações horríveis, descobre uma inesperada pelo seu conteúdo e forma, que é a da outra personagem especial, o rapaz da última fila. Aí, se produz um encontro complexo, cheio de desencontros”. O professor e sua esposa tornam-se seus ávidos leitores, alternando entre a desaprovação pela intrusão em vidas alheias e a curiosidade pelos acontecimentos do capítulo seguinte.

Com tradução de José Wilker, habita dentro do texto de Mayorga uma série de subtemas que se juntam à progressão dramática, arquitetando a exposição de problemáticas contemporâneas das relações sociais modernas em seus confrontos com a escola, a arte, a moral pequeno-burguesa, a relação professor-aluno e a adolescência. Mas a maneira com que Mayorga desfia seu tecido dramatúrgico é o que amplia a sua potência, engendrando uma batalha pelo controle da situação entre os personagens, que em sua contextualização, acaba por enraizar-se em nossos tempos. O embate psicológico entre um intelectual frustrado e um adolescente originário de uma família desestruturada que busca inserir-se na privacidade das construções familiares alheias, acaba por gerar interessantes questionamentos sobre os limites da literatura. Para quem se escreve? Por que se escreve? Até onde se pode aprofundar as observações? Quais os limites éticos?

O texto de Mayorga é de uma espécie cada vez mais rara, daqueles que não se consome apenas na sala de teatro, mas leva-se para casa todos esses questionamentos para buscarmos respostas que talvez não alcancemos.

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Victor Garcia Peralta opta por expor suas ações dentro de um único ambiente, inteiramente distinta de uma série de montagens deste texto mundo afora que se utilizaram de uma maior compartimentação cênica. Uma opção que carrega em sua essência básica desafios pela maneira como busca revelar todas essas subcamadas dramatúrgicas de Mayorga. Todos os personagens permanecem em cena simultaneamente, mesmo que estejam em diferentes planos e momentaneamente incomunicáveis. A construção narrativa intercala esses planos com uma dinâmica que justamente possibilita ao espetáculo um andamento que em nenhum momento oscila. Mesmo os atores fora de determinados contextos, não ficam apartes em silêncios neutros ou aparente imutabilidade. Reside nessa construção cênica intenções muito bem demarcadas pelo diretor, seja na maneira como os personagens transparecem em seus movimentos, olhares e mesmo no ritmo que respiram. Contribui para esse êxito a criação cenográfica, que olhando mais superficialmente pode parecer simples, mas carrega diversas possibilidades pela sua estrutura e forma particulares na enorme mesa branca desenhada por Miguel Pinto Guimarães, que permite a Peralta trabalhar a movimentação cênica dentro da complexidade que se propôs.

O elenco é composto(em ordem alfabética) por Celso Taddei, Gabriel Lara, Isio Ghelman, Lorena da Silva, Luciana Braga e Vicente Conde. O grande embate é representado pelos personagens de Isio Ghelman(o professor) e Gabriel Lara(o aluno), que criam conjuntamente um belo jogo cênico, em que Isio Ghelman constrói um personagem que carrega todos os seus questionamentos internos  numa espiral em que o ator sublinha adequadamente todas as suas gradações emocionais, enquanto o personagem de Gabriel Lara lhe exige um comportamento mais linear, porém com uma composição complexa que busca seu entendimento mais pelo que interioriza do que pelo que exprime. Celso Taddei tem igualmente uma atuação eficiente, enfatizando toda a exiguidade intelectual na formatação do extrato social a que pertence. Lorena da Silva consegue atingir bons momentos pela maneira como expõe todos os aspectos sonhadores subterrados por anos de uma vida desprovida de maiores emotividades. Luciana Braga interpreta com adequação a esposa do professor de literatura, ampliando os aspectos discursivos inseridos na dramaturgia de Mayorga e Vicente Conde tem a seu dispor um personagem que acaba sendo o elo involuntário de objetivos que suplantam suas expectativas.

Os figurinos de Carol Lobato, além da qualidade no desenho e composição, tem a capacidade de alinhar os personagens de acordo com seus substrato social. A iluminação de Maneco Quinderé atinge com acerto intensidade dramatúrgica em seu desenho de luz.

O Menino da Última Fila”, além de aprofundar vários aspectos obscuros no comportamento humano, tem na proposta de Victor Garcia Peralta um convite ao debate entre os limites da criação artística em seu convívio com as relações sociais.

Um espetáculo a não se perder!

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Elenco
Com Celso Taddei, Gabriel Lara, Isio Ghelman, Lorena da Silva, Luciana Braga e Vicente
Conde.

Ficha Técnica
Direção: Victor Garcia Peralta
Iluminação: Maneco Quinderé
Cenário: Miguel Pinto Guimarães
Figurino: Carol Lobato
Projeto Gráfico: Vento Estúdio
Assessoria de imprensa: MNiemeyer
Direção de produção: Cristiana Lara Resende e Tatianna Trinxet
Concepção geral: Cristiana Lara Resende
Idealização: Cristiana Lara Resende e Victor Garcia Peralta
Realização: Cris Lara Produções Artísticas Ltda

Serviço:
Local: Teatro das Artes
Endereço: Teatro das Artes, Rua Marquês de São Vicente, 52, segundo piso – Shopping da Gávea
Bilheteria: Das 15h às 20h, de segunda-feira a domingo
Telefone: (21) 2540-6004
Capacidade: 418 lugares
Valor: R$ 60,00 – inteira / R$ 30,00 – meia- entrada
Telefone para informações: (21) 2540-6004
Duração: 90 minutos


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