Crítica: O Grande Circo Místico


 

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4-estrelas12 Ano de 1982, num Maracanãzinho lotado, então com 12 anos, pude assistir a um dos mais lindos espetáculos daquela década. Foi uma apresentação de “O Grande Circo Místico”, pelo Ballet do teatro Guaíra. As músicas eu conhecia todas de cor, afinal no meu vinil, aquelas composições de Chico Buarque e Edu Lobo não paravam de tocar na vitrola do meu quarto numa sucessão do mais perfeito casamento em que letra e música poderiam ter chegado, fazendo daquele velho LP um dos maiores discos já produzidos no Brasil e interpretados por nomes como Milton Nascimento, Zizi Possi, Tim Maia, Jane Duboc, Gal Costa, Simone, além dos próprios Chico e Edu.

A notícia de que haveria a montagem de um musical baseado naquele repertório me deixou imediatamente empolgado, embora ao mesmo tempo tenha algumas restrições com  João Fonseca, cuja direção do musical “Tim Maia” me tinha decepcionado.

Mas entre expectativas e desconfianças o resultado final de “O Grande Circo Místico”, dirigido por João Fonseca no Theatro Net Rio, foi bastante satisfatório. Isso não quer dizer que diante de inúmeros acertos, a produção não tenha algumas falhas.

É preciso de antemão esclarecer que “O Grande Circo Místico” apresentado no Theatro Net Rio é um espetáculo distinto daquele feito pelo corpo de baile do Teatro Guaíra. Este é um musical, aquele era um ballet. A ligação entre os 2 espetáculos se resume às canções e à origem do trabalho fincada no poema “A Túnica Inconsútil” de Jorge de Lima. Neste espetáculo de João Fonseca, foi criada toda uma dramaturgia para ligar as canções de Chico e Edu  aonde uma paixão avassaladora é o fio condutor de uma história que se inicia em um circo, de onde a violência de uma guerra nos transmuta desse ambiente mágico e poético para um outro onde impera o universo da barbárie. A adaptação escrita por Newton Moreno e Alessandro Toller manteve toda a atmosfera do poema de Jorge de Lima, mas ao mesmo tempo não abriram mão de fazer um enorme trabalho de criação. Tiveram êxito no desafio proposto. Porém em determinado momento o espetáculo fica um pouco arrastado, principalmente no início do 2º ato, aonde as situações de guerra acabam por ficar um pouco cansativas, mas conseguem no final retomar o fôlego.

O Grande Circo Místico” é um espetáculo visualmente fascinante, de encher olhos mesmo. Cada cena tinha a beleza de um quadro, independente do contexto. A direção de João Fonseca é determinante para o êxito do musical, vencendo minhas restrições iniciais, aonde entre outros méritos soube conjugar num trabalho de equipe vários elementos para tal resultado final, aonde a cenografia(assinada por Nello Marresse) e a iluminação(de Luiz Paulo Nenem) são elementos primordiais, tanto nas cenas que necessitavam de um clima intimista, quanto nos momentos de grandiosidade. É importante não omitirmos o importante papel desempenhado por Tania Nardini na coreografia e por Carol Lobato com os lindos figurinos para a criação final do ambiente proposto por Fonseca.

Em relação ao elenco é possível perceber uma certa heterogeneidade, com um certo desnível em algumas atuações, houve alguns(poucos) casos em que é percebido uma deficiência vocal no canto. Há que se ressaltar a necessidade da exigência de habilidades raras de se encontrar no “mercado”. Como se não bastasse ter que cantar, dançar e representar, tem que ser de circo(literalmente) para poder se apresentar de maneira plena em “O Grande Circo Místico”. Nesse aspecto, o trabalho de Leonardo Senna foi primordial, como responsável pela direção de movimentos circenses. Os grandes destaques na atuação são Fernando Eiras e Reiner Tenente.

Fernando Eiras abre o musical, interpretando o administrador do circo, com “Na Carreira”, canção que resume o que significa a vida do artista de um circo: “…Hora de ir embora/Quando o corpo quer ficar/Toda alma de artista quer partir/Arte de deixar algum lugar/Quando não se tem pra onde ir… ”. De Fernando Eiras sempre se pode esperar algo de grande qualidade. É daqueles atores que levam o público junto com o seu mergulho nos personagens. Seja no cinema(com sua parceria junto a Julio Bressane), seja no teatro. Em “O Grande Circo Místico” comove o público com um personagem que mescla uma paixão pelo universo que vive com o desespero e o desvario diante do absurdo da guerra. Grande ator é Fernando Eiras.

Reiner Tenente é um ator que quando entra em cena é necessário ter atenção absoluta, uma presença em cena marcante com seu Clown, num tom por vezes engraçado, por vezes patético, outras vezes trágico.

Ana Baird também está bem como a Mulher Barbada, sendo responsável por uma das cenas mais fortes ao som de “A Bela e a Fera”, cantada por Marcelo Nogueira(o Banqueiro),seu companheiro na criação da cena. Outro momento interessante e que vale a pena ser mencionado é o protagonizado por Paula Flaiban em “A História de Lili Braun”.

Cabe ressaltar o interessante trabalho corporal, chamou-me a atenção em especial o desempenho de Leo Abel, principalmente ao representar movimentações e expressões equinas.

Em relação a parte musical, propriamente dita, é chover no molhado falar da beleza das canções originais, alguma como “Beatriz” e “Ciranda da Bailarina” já são clássicos da MPB. Mas o espetáculo acrescentou 4 canções que não estavam no trabalho criado para o Ballet Guaíra. São elas: “Valsa Brasileira”(uma das mais lindas da parceria Chico/Edu), “Salmo”, “Acalanto” e “Meia-Noite”. A direção musical de Ernani Maletta é belíssima, aonde de um modo geral os arranjos se mantém com fieis ao original, mas também sem deixar de abrir espaço para a criação.

O sucesso e êxito artístico de “O Grande Circo Místico” reside num diretor que tem a consciência de que ninguém faz teatro sozinho(pode parecer óbvio, mas certos diretores ignoram esses aspecto), aonde  é necessário ter grande sensibilidade para saber tirar o melhor de sua equipe. E nisso, João Fonseca foi muito feliz. “O Grande Circo Místico” é um musical que soube honrar as matérias primas das quais foi concebida.

O GRANDE CIRCO MÍSTICO – FICHA TÉCNICA
Músicas de Edu Lobo & Chico Buarque
Texto: Newton Moreno e Alessandro Toller
Direção: João Fonseca
Direção Musical: Ernani Maletta
Coreografia: Tania Nardini
Produção: Primeira Página Produções
Com Fernando Eiras, Letícia Colin, Gabriel Stauffer, Isabel Lobo, Ana Baird, Reiner Tenente, Paula Flaibann, Marcelo Nogueira, Thadeu Torres, Felipe Habib, Leonardo Senna, Juliana Medella, Leo Abel, Natasha Jascalevich, Luciana Pandolfo,  Renan Mattos e Douglas Ramalho
Iluminação: Luiz Paulo Nenen
Figurinos: Carol Lobato
Cenários: Nello Marrese
Direção de Movimento Circense: Leonardo Senna
Diretora Assistente: Paula Sandroni
Direção de produção: Maria Siman
Produção Executiva: Luciano Marcelo e Bruna Ayres
Gerente de projetos: Paula Salles
Produtora Associada: Isabel Lobo
Realização: Primeira Página Produções Culturais

Classificação: 12 anos
Duração: 150 min (incluindo intervalo de 15 min)


Palpites para este texto:

  1. Parabéns pela crítica! Emocionada com os elogios ao Fernando Eiras, concordo com você! Fernando é um ator que honra sua profissão, faz algo pequeno virar grandioso com sua atuação… e o que já é grandioso, ele faz brilhar ainda mais! Sou fã…

    Grande abraço!

  2. Fui ontem ao musical e realmente algumas vozes deixam a desejar. Não sei se gostei da adaptação da historia, sei lá.. me pareceu pouco brasileira pra artistas tão brasileiros como Chico e Edu. Como será que foi o ballet?

  3. Você realmente acredita que “houve alguns(poucos) casos em que é percebido uma deficiência vocal no canto”? O que é a Isabel Lobo cantando a música do pai, “Sobre todas as coisas”? Ela simplesmente consegue “assassinar” uma das músicas mais bonita do espetáculo. E o que dizer da interpretação de Beatriz? Não dá para escutar estas músicas, que foram gravadas por grandes vozes da MPB, como Zizi Possi, Monica Salmaso, Milton Nascimento, sendo cantadas por amadores. Realmente prefiro ficar com os elogios ao Fernando Eiras, este sabe tudo, e já faz musical há muito anos. Lembro dele em “Barreado”, de Ana Elisa Gregori, com Elizabeth Savalla, em 1981.

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