Crítica: O Grande Gatsby – Entre a genialidade de Fitzgerald e a mediocridade de Luhrmann


 

 

Os habituais excessos e exageros visuais de Baz Luhrmann até poderiam a princípio ser uteis para se criar todo o ambiente de opulência retratado em “O Grande Gatsby”, esse grande clássico da literatura americana escrito por F. Scott Fitzgerald e adaptado para o cinema pelo cineasta australiano, mas após os 141 minutos de filmes só serviram para percebermos que tais excessos acabaram por ressaltar que estávamos diante mais de um filme de Luhrmann do que um livro de Fitzgerald, o que é lastimável devido ao enorme abismo na estatura artística entre Luhrmann e Fitzgerald.

Trata-se da 5ª adaptação cinematográfica de “O Grande Gatsby”, nela existe fidelidade e boa recriação do ambiente, mas tudo se perde numa certa puerilidade imposta por Luhrmann, que só trabalhou na superfície da obra, sem conseguir mergulhar nas profundezas da riqueza narrativa de Fitzgerald, que no seu livro expôs com maestria uma fascinante e contundente crítica ao sonho americano, retratando uma sociedade que havia atingido um grau de prosperidade nunca visto antes em meio a uma época repleta de glamour, loucura, materialismo e imoralidade, tudo isso apimentado pela política proibição de bebida alcoólica, algo tão inútil que serviu apenas para criar um enorme mercado negro para fazer a fortuna dos espertalhões de plantão. De certa maneira, Fitzgerald parecia intuir a fragilidade de tal universo e do grande desastre que estava por vir(o livro foi publicado em 1925, antes do crash de 1929).

O Grande Gatsby” é ambientado em Long Island, a 45 minutos de Nova York, aonde as grandes fortunas da América possuíam majestosas mansões, como os Guggenheim, os Vandelbilt, ou os Whitney, famílias que já possuíam suntuosas mansões em Manhattan e utilizavam suas maravilhosas residências de  Long Island para longas temporadas, principalmente no verão. O próprio Fitzgerald chegou a possuir residência na região em 1922, longe de ser uma mansão, aonde morou com a mulher Zelda. Era um crítico do ambiente e contraditoriamente era ao mesmo tempo um amante da opulência daquele “petit monde”.

Na verdade, o protagonista da história é o personagem Nick Carraway(Tobey Maguire), que ao alugar uma pequena casa na região acaba se tornando uma testemunha daquele universo faustuoso, principalmente através da mansão vizinha, propriedade do misterioso e indecifrável  Gatsby(Leonardo di Caprio), milionário, cuja fortuna é alvo de inúmeras especulações quanto sua origem e famoso principalmente pelas festas suntuosas, frequentada por todas a fauna da Nova York dos loucos anos 20,  artistas, intelectuais, jornalistas, empresários, financistas de Wall Street, escroques, gangster, todos eram bem vindos na sua open house. Ao se aproximar desse peculiar vizinho, Nick descobre que Gatsby é apaixonado por sua prima Daisy Buchanan(Carey Mulligan), com quem teve um relacionamento no passado e atualmente é casada com o igualmente milionário Tom Buchanan(Joel Edgerton), que vivem numa mansão localizada na extremidade oposta da baía aonde fica a casa de Gatsby. Nick ajuda Gatsby a se reaproximar de Daisy, por quem Gatsby nutre uma paixão tão avassaladora que construiu um império com a única ambição de um dia reconquistá-la. Mas apesar de agora estar em situação de igualdade com o marido de Daisy no campo financeiro, ainda existe um muro que distancia esse nouveau riche que é Gatsby do marido de Daisy, originário de uma das mais finas estirpes da sociedade norte-americana.

Como não poderia deixar de ser, o filme tem uma direção de arte e uma fotografia deslumbrantes, que ajuda a recriar a opulência retrata por Fitzgerald, mas a trilha sonora escolhida(outra marca dos filmes de Luhrmann) acabam por afastar o espectador do tempo narrado. As atuações são rasas e medíocres, aonde tanto Leonardo di Caprio e Tobey Maguire em nenhum momento encontram o tom correto de seus personagens, pesando aí uma responsabilidade do diretor que não parece em nenhum momento saber como conduzir seus atores às atuações que seriam desejáveis.

Um grande livro, um filme regular, que teve o azar de ter um diretor sem a capacidade intelectual para entender a essência do grande universo que Fitzgerald deixou para a posteridade.


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